Em tempos de Copa do Mundo, o país do futebol volta seus olhares para os jogadores, os heróis do campo. Entretanto, o Brasil não é o único país a ter grande amor pelo esporte. O fascínio pelo futebol e seus atletas invadem o mundo audiovisual, com videoclipes temas, publicitários e filmes… muitos filmes. A magia do futebol e a idolatrização dos jogadores motivaram alguns cineastas a produzirem documentários e longas de ficção. Atletas como Garrincha, Heleno, Petkovic, Pelé e Zico já tiveram suas biografias na tela. Todavia, há dois documentários que me chamaram a atenção.

Dois grandes jogadores, que integraram duas seleções que alimentamos grande rivalidade: Argentina e França. Dizer para um brasileiro que o Maradona é o melhor jogador do mundo pode ser uma das piores coisas que um estrangeiro pode fazer. Mas não podemos minimizar sua importância para o futebol; sua contribuição dentro e fora do campo foram duas motivações para o cineasta sérvio Emir Kusturica produzir seu documentário. Maradona By Kusturica lança-se sob o olhar do cineasta diante da importância e magnitude do jogador. O longa inicia com inquietações do próprio Kusturica acerca da figura e seus questionamentos sobre sua motivação em compreendê-lo; como pode Maradona se deixar ser inquietado por um cineasta?

Kusturica o apresenta como a figura irreverente que é, fazendo referências a importantes figuras da cultura pop e , inclusive à seus filmes. Ele deixa claro que Maradona poderia estrelar qualquer uma de suas premiadas produções. O que torna o filme especial, sendo essencial para amantes do futebol é o fato do cineasta mergulhar fundo no mundo de Maradona. O longa divide-se em elementos que permeiam a vida do craque. Junto ao jogador, o cineasta vai até a casa onde ele cresceu. Desvendando suas raízes do que ele chama “aristocracia nobre” da periferia de Lanus.

O longa foca na atuação fora do campo, Maradona fala abertamente sobre seu envolvimento com as drogas, sem se vitimizar. Seu ativismo político é enfatizado com suas participações em manifestos e declarações anti-Bush. Sua ida à Cuba e seu relacionamento com Fidel dão pano pra manga, numa discussão entre jogador e cineasta, mostrando sua natureza e importância na política da latinoamérica. Grande simpatizador de Che, Maradona faz declarações anti-ianques,  o cineasta foca a relevância política do jogador através de sua performance nas quartas de finais da Copa do Mundo do México, em 1986. A Argentina enfrentava a Inglaterra pela primeira vez logo após a guerra das Maldivas.

A seleção teve a oportunidade de lavar a alma, com dois gols do craque que entraram para a história. Entre eles, chamado o Gol do Século e aquele que lhe deu a nomenclatura de A Mão de Deus. A sua vitória transcendeu o futebol e levou a seleção à final do campeonato. Kusturica explora a performance em campo de Maradona através de animações, do mesmo driblando inúmeras vezes figuras britânicas, como Margareth Thatcher e a família real. O filme intercala entre imagens de arquivo, entrevistas do cineasta com o jogador, animações e imagens de uma religião maradonista. O envolvimento de Maradona em questões que ultrapassam o campo, o torna um dos grandes jogadores. Kusturica mostra em seu filme a transcendência de um atleta para além do esporte.

Zinedine Zidane também tem um título de importância na França, o de melhor jogador de sua história. Ao contrário dos documentários usuais de perfis, ou até mesmo do citado acima, Zidane – Un Portrait Du 21e Siècle não se trata de biografar fatos da história do jogador. A produção documentou uma partida do Real Madrid, focando apenas em Zidane. Diversas câmeras registravam os passes e reações do jogador. Não é um registro da partida ou documentação da história do jogador. É seu fiel retrato. Close ups em suas expressões a cada jogada e acontecimento, em seus quadris, suas chuteiras, na bola etc. 

Não há diálogos ou narrações, os espectadores imprimem seus retratos através das ações do jogador e da trilha sonora. Por vezes, a música dea banda escosesa Mogwai, outras pelos sons dos torcedores – que são fiel retrato da partida-. Com legendas que transcrevem o que todo fã do esporte quer saber: como é a sensação? Sem precisar perguntar diretamente, os espectadores têm suas respostas. As legendas são apresentadas poeticamente com uma trilha no fundo e durante algumas de suas belas jogadas. Grandes planos do alto do estádio configuram a dinâmica dos jogadores. Ver os quadris de Zidane movimentar ou seu olhar de reprovação durante uma falta, valem mais que mil palavras.

Dois grandes jogadores, os melhores do mundo. Dois grandes rivais da seleção brasileira. Em seus respectivos filmes, Zidane e Maradona transcendem através do futebol: o primeiro, poetizado através de sua performance e de sua relação com o campo; o segundo, não apenas por sua importância enquanto jogador, mas como sua performance como ativista político. A relação de ambos com o esporte mostra-se maior que nossa percepção. Duas produções com narrativas distintas, enfatizam a importância dos jogadores, dentro e fora do campo.

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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