Ei, psiu! É — você. Não tenta fingir que não tá me vendo. Não é culpa minha se buscou no Google como fazer torta de limão e ele te trouxe pra cá. Agora você vai ler esse texto aqui, e vai entrar em contato com o pior de você, e vai enfrentar isso. Porque nós vamos falar do quadrinho Wilson, e do Wilson que existe em nós.

Primeiro, não sei se já ouviu de um tal Daniel Clowes. Ele é um grande quadrinhista indie americano, um dos clássicos. É tipo o Mr. Catra dos indie, com exceção que não tem nada a ver com o Mr. Catra e eu nem sei porque falei isso. Daniel Clowes é muito conhecido pelo quadrinho Ghost World, principalmente porque foi adaptado pro cinema, e principalmente porque tem a Scarlett Johansson novinha, uns dois anos antes de estourar no Encontros e Desencontros.

ghostworld

Mesmo assim, Wilson, um dos últimos trabalhos de Clowes, foi o primeiro a ser lançado no Brasil. É também sua primeira graphic novel (assim ele considera), uma história fechada pensada no formato de livro, diferente das outras que saíam em sua série Eightball. O que espanta é que Wilson de início nem parece uma narrativa longa, e sim uma coletânea de cartuns, com cada página sendo uma historinha. Só quando vamos avançando na leitura é que percebemos a interligação e o tema unindo as páginas. E é incrível.

Mas, afinal, sobre o que é Wilson? Ou melhor, quem diabos é Wilson? Wilson é um filho da puta. Ele é. Não tem outra palavra para usar. É bom você saber que essa história não é sobre um cara por quem você vai se apaixonar. Wilson é mesquinho, egoísta, iludido, e tem aquele nível de sinceridade escrota de quem não está nem aí pros seus sentimentos. E o grande paradoxo do quadrinho, e o que o torna tão interessante, é que Wilson quer muito estar com os outros, confraternizar, ter uma família. Uma situação muito comum, e divertida, é que o tempo todo ele aborda amigavelmente pessoas na rua, para depois ser um completo escroto. Veja só a primeira página clicando aí embaixo para ampliar.

Leia mais aqui.
Leia mais aqui. A edição é do Quadrinhos na Cia.

É surpreendente a mudança de comportamento do primeiro quadro para o último, cheio de agressividade. E funciona porque nós acreditamos em Wilson quando ele diz que ama as pessoas. O personagem realmente acredita nisso. E o enquadramento fechado no rosto dele, nos coloca bem junto do cara, Wilson está falando pra gente. Depois ele aparece com um cachorrinho, Wilson não pode ser uma má pessoa se tem um cachorrinho. Só que repare como o enquadramento vai se distanciando. Isso serve não só para acomodar personagens e falas, mas também simbolizar o crescente desinteresse de Wilson pela mulher, até culminar no “cala a boca”.

Essa tentativa, sempre frustrada, de se conectar com os outros é o grande tema que Daniel Clowes traz. É o autor botando a lupa sobre a neurose da sociedade atual. Nós vivemos querendo fazer parte de algo, tentamos nos conectar e nos interessar pelos outros, mas no minuto que a coisa se torna real, que a outra pessoa nos traz pra vida dele, nós nos fechamos.

Pensamos algo do tipo “Nossa! Você realmente precisava contar a história da sua vida?” E então desconversamos, dizendo algo como “Pô, preciso ir, tenho um compromisso. Me liga qualquer dia desses.” Sendo que não demos o telefone para pessoa e, antes mesmo que ela possa pedir, saímos correndo.

Ninguém quer se envolver na merda dos outros; a gente só quer, no máximo, envolver os outros na nossa merda. Por isso redes sociais são tão populares. Elas permitem um falso envolvimento. Todos estão conectados, mas sem realmente fazer parte da vida de ninguém.

Esse abrir e fechar para o outro é muito bem representada pela estética escolhida por Daniel Clowes para o livro. Cada página funciona como uma unidade e possui seu próprio estilo, variando de um desenho realista (chapado, mas com as proporções respeitadas) para um traço completamente cartunesco (uma anatomia desproporcional, com cabeça maior do que o corpo, nariz grande). Isso me passou a impressão de que, quando Wilson está quase se tornando realista e se abrindo para o leitor, ele se encerra e se afasta, voltando a ser a sua própria caricatura.

wilsons

Uma outra interpretação para a mudança de estilo no quadrinho seria de que representa como a vida é feita de momentos, que podem ser tanto dramáticos quanto grande piadas. Como se fosse um velhinho perdido em lembranças com um misto de tristeza, nostalgia e diversão. E as lembranças, por serem distorcidas pelo tempo, variam de forma e cores, algumas sendo monocromáticas, outras intensas.

É um desafio tão grande fazer parte do mundo, entrar em comunhão com aqueles à sua volta — encontrar e perder sentido — que, no final, é meio impossível não ter uma ternura por Wilson. Apesar de ele ser babaca, é como ele ajudasse a aceitar um pouco a babaquice dentro de nós. E nos pedisse para continuar tentando. De preferência se divertindo consigo mesmo, da mesma forma que nos divertimos com Wilson.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

1 COMENTÁRIO

DÊ SUA OPINIÃO