A modernidade líquida bem poderia chamar-se modernidade ansiosa, tudo que nos conecta 24h por dia também nos afasta. Aqui em casa apelidamos carinhosamente de “bolha”, e estar na bolha significa esse breve-eterno momento que deixamos de olhar nos olhos e preferimos a tela que pisca com a mais nova postagem, mensagem, novidade que parece ser mais interessante do que quem está do nosso lado. Àquela que não podemos perder, que ansiamos.

Muitos filmes e séries tratam dessa temática, mas dois dos que mais me agradam e que dialogam diretamente com o que vejo todos os dias são Wall-E e Black Mirror (S01E02). Em ambos, as pessoas estão o tempo todo dispostas frente as suas telas, indo não se sabe aonde e a lugar nenhum. No segundo episódio da primeira temporada de Black Mirror, têm uma cena muito impactante, na qual o personagem é obrigado a ver no seu quarto todo de tela, cenas fortíssimas que ele não deseja ver… Para não ver ele tem que pagar por isso. Vejo ai uma referência clara aos comerciais da TV aberta (hoje em dia até na fechada), por exemplo. Já no Wall-E a maneira como a engrenagem funciona e o nível de alienação das pessoas não permitem que elas vejam o que se tornaram, massas flutuantes sem forças para mover-se, uma vez que passam a existência em suas cadeiras vendo televisão. Se isso não gera um estado de alerta e ansiedade. O que mais poderia gerar?

Ou seja, vivemos em um mundo organizado para nos deixar ansiando pelo próximo acontecimento e, principalmente uma cultura onde a tecnologia aproxima e afasta, como encontramos mesmo na obra de Bauman. O que vejo hoje em dia são pessoas obcecadas por atenção, pelo imediatismo. Não se atreva a demorar mais que 5 minutos para responder alguém ou está arriscado a perder o amigo pra sempre. Que falta de consideração você ter uma vida fora do WhatsApp, não é mesmo?

Impossível não ver a conexão (opa! mais conexão!) entre essa descrição e o que escreveu Frederic Jameson sobre a esquizofrenia da pós-modernidade na lógica do capitalismo tardio. O pessimismo e a falta de orientação de que fala Jameson, encontra lugar nessas literaturas e, ainda mais, no nosso dia-a-dia.

A necessidade de se sentir conectado nos leva ao famoso: você tá aí? – E, quem realmente está?

Outro dia li em uma reportagem da BBC que nosso cérebro está programado para assimilar se gostamos ou não de uma pessoa quando ela está em movimento. Agora parecemos gostar de fotos de aplicativos e mensagens. Não há voz, toque nem cheiro e, segundo essa reportagem, há uma desconstrução. Uma vez que a pessoa com quem se conversa é uma projeção e não mais a persona que é de fato e, ao encontrar-se com ela há um colapso entre o “real” e a projeção.

Nunca se leu e nem se escreveu tanto na história da humanidade e, cada dia mais, vejo a ansiedade guiar essas relações em muitas esferas. Respostas rápidas são exigidas, e principalmente são exigidas essas presenças virtuais, onde estar online significa estar acessível e, – porque não? – mais perto.

 

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Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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