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“É melhor viver como um leão por um dia, do que como um escravo por cem anos”. Essas são as palavras de uma corajosa menina afegã que, durante a guerra entre Afeganistão e Inglaterra no ano de 1880, usou sua fala para dar coragem aos soldados afegãos. Logo em seguida, a menina da história leva um tiro e morre no campo de batalha.

O nome dessa menina era Malalai.

Malala discursa na ONU
Malala discursa na ONU

“Malala” é o título do filme e o nome da protagonista dele. O documentário de Davis Guggenheim apresenta a ativista paquistanesa para quem não a conhecia, ao mesmo tempo em que revela o lado adolescente, divertido e até então desconhecido da ativista Malala Yousafzai.

A sequência inicial é uma animação que conta a história da afegã Malalai, contada no início desse texto. Com um quê de aquarela em movimento, a animação é um elemento que se repete ao longo do filme, e que ajuda a ilustrar histórias da infância de Malala, de seu pai e outros momentos vividos por eles no Vale do Swat, no Paquistão.

O nome é só o ponto de partida para a jornada de Malala. Seu pai, que conhecia a história da afegã muito antes da filha nascer, resolveu dar à sua primogênita o nome da menina que levantou sua voz.

Depois desse prefácio, somos lembrados do fato que fez com que Malala se tornasse famosa mundialmente: aos 15 anos, ela foi baleada por extremistas talibãs por conta de seu ativismo em prol da educação de meninas no Paquistão. O ataque foi grave, um dos três tiros atingiu o lado esquerdo de sua testa causando sequelas no seu rosto e a surdez de seu ouvido esquerdo. Ainda assim, depois de passar por um coma e meses de recuperação, Malala não desistiu. Continuou a atuar em prol de sua maior causa, que é simples e fundamental: a educação.

Hoje em dia, ela vive em Birminghan, na Inglaterra e, por enquanto, não pode voltar para o Paquistão, pois está ameaçada de morte pelo regime do Talibã.

Sua vida na Inglaterra é uma parte importante e muito interessante do documentário. Na casa em que ela vive foram feitas as entrevistas exclusivas para o filme, assim como o registro cotidiano de Malala com sua família.

A menina Malala então aparece: Uma adolescente que implica com os irmãos mais novos, que tem dificuldades na escola e é fã de galãs do esporte e do cinema, como Roger Federer e Brad Pitt. A leitora que tem entre seus favoritos “Uma Breve História do Tempo”, de Stephen Hawking e “O Alquimista”, de Paulo Coelho.

Nesse momento, o filme coloca uma lente de aumento sobre a relação de Malala com o pai, Ziauddin Yousafzai. A primeira pessoa por quem ela perguntou ao acordar do coma e aquele que a acompanha em todas as entrevistas e compromissos como ativista. O documentário traz algumas entrevistas (de paquistaneses e de outras pessoas) que desconfiam de que essa relação de parceria seja algo que a obrigue a levar a vida que leva e a falar as coisas que fala. Sendo questionada sobre isso, Malala tranquilamente responde que nunca foi obrigada a nada. O pai apenas a ensinou o que ele acredita, mas quem tomou a frente e usou a própria voz foi ela.

Malala e seu pai
Malala e seu pai

A mulher mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz (e uma das seis mulheres no total, ao lado de 87 homens e 23 instituições) de fato fala por ela mesma. É possível ver verdade nos seus olhos e impossível não ser tocado por suas palavras. É transformador!

A impressão que fica é que há algo de mágico entre o caminho traçado por Malala e o nome dado a ela. Mas a verdade é que a Malala do documentário também levou tiros, mas sobreviveu. E sua voz está longe de ser silenciada nesse campo de batalha em que vivemos hoje. E mais: em dado momento, ela diz (com sua própria voz) “Ele me nomeou Malala. Ele não me fez Malala. Eu escolhi esta vida e agora tenho que continuá-la.”. Ela escolheu. Não foi submetida às escolhas de ninguém. “He named me Malala” é o título que resume em uma frase a lição mais forte que se pode tirar deste filme.

Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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