Bem-vindo, leitor e leitora!  Estamos de volta para mais um papo sobre histórias em quadrinhos. Talvez você esteja confuso com a parte 2 no título e por isso esteja fazendo essa cara feia para mim, ou talvez seja só sua feiura normal. Mesmo assim nada tema, que eu explico. Esse parte 2 se deve ao fato óbvio de que houve uma parte 1 (clique para ver),  sobre o processo de leitura dos quadrinhos. Antes eu falei principalmente dos erros de narrativa. Agora eu vou falar de narrativas eficientes e por que funcionam.

Porém, primeiro, entre na minha máquina do tempo — aquela ali que parece uma caixa com “máquina do tempo” escrito — e vamos voltar alguns anos. Estamos nos Estados Unidos em 1895, a época em que mulher andando com os braços para fora causava. Você pega o jornal de uma pilha que um garotinho carrega enquanto berra “Extra! Extra!”. Como você já não lê jornal em português, em inglês então você não pensa duas vezes antes de pular para os quadrinhos.

E que sorte a sua. Tivesse viajado mais alguns anos atrás, não teria encontrado nenhum. Pois essa é uma das primeiras tirinhas a sair: The Yellow Kid, de Richard F. Outcault.

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Curiosidade: Yellow Kid gerou o termo “yellow journalism”, que se refere ao jornalismo sensacionalista. No Brasil, é o equivalente de “imprensa marrom”.

Agora, o que eu quero que você preste atenção é nos números no topo de cada cena. Era ainda tão incomum esse tipo de narrativa que o autor precisava enumerar a ordem da sequência para o leitor não se perder. As pessoas precisaram literalmente aprender a ler quadrinhos. Pode parecer estranho a você, afinal todo ser humano tem mania de ignorar o passado e ver o seu mundo como algo acabado e eterno. Estou usando de eufimismo para não chamar todo ser humano de idiota.

A verdade é tudo que existe foi criado. Entende-se esse “tudo” aqui pelas coisas humanas, nem venha entender como uma mensagem religiosa.  As coisas não nascem de geração espontânea pela internet, senhor e senhora do século 21. Alguém precisou criar o cinema, alguém precisou criar as regras da música pop; porra, houve um tempo que não existia nem letra minúscula nem pontuação.

Nós criamos convenções, nos acostumamos e esquecemos delas. Com quadrinhos não é diferente.

Demorou um tempo até fixarem um formato:  a leitura da esquerda para a direita, o balão de fala, as linhas delimitando o quadro… Notem que no exemplo do Yellow Kid não há balão, cada fala do personagem principal aparece na camisa. E nem há linhas pretas separando as cenas. Hoje, isso é até moderno, mas na época tudo ainda estava sendo testado, tomando elementos de outras artes para si.

Mas, uma vez o formato consolidado, e engessado, o que acontece quando o autor quer dar uma mexida na narrativa? Colocar uma cena fora do lugar comum, uma fala que não está na ordem esquerda para direita, coisas bobas que podem fazer o leitor se perder. Vão ser necessárias estratégias gráficas para guiar o olhar de quem lê.

Uma das mais eficazes é usar o próprio movimento e gesto dos personagens para criar uma espécie de seta. Esta não é percebida diretamente, ela não está ali, mas você a subentende. É um processo quase inconsciente. Vejamos uma cena de briga em cassino, dividida em vários quadros dispostos de uma forma não linear:

Hawkeye — por Matt Fraction, escritor, e David Aja, desenhista
Hawkeye 1 — por Matt Fraction, escritor, e David Aja, desenhista. No Brasil, saiu na Capitão América & Gavião Arqueiro 1, pela Panini.

De início nós temos um plano maior que mostra o mocinho loiro fazendo um lançamento, e quadrinhos menores ao redor, com a ação detalhada em closes. Aqui não temos uma linearidade exata, nós temos a mesma ação fragmentada tanto em ângulos como em tempos diferente.

Para facilitar a leitura, a arte faz duas coisas. Primeiro, o plano maior e mais amplo é uma seta. Enquanto o cotovelo do loiro aponta para o primeiro close da mão segurando o às de espada, o outro braço aponta para o close da carta atingindo sua vítima. O desenhista claramente quis ligar o início da ação com o fim dela. É interessante que o infeliz com o baralho no gogó dá um tiro cuja trajetória direciona, novamente, para o quadro mais amplo. Fazendo um ciclo.

Segunda estratégia usada: as cores dos closes. Todos os detalhes da mão lançando a carta e atingindo a garganta são destacados por um fundo laranja, diferente do fundo das cenas mais amplas. Isso cria uma familiaridade e nos faz olhar essas imagens como uma sequência.

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Abaixo vai acontecer a mesma coisa. Uma cena ampla nos guiando para os detalhes, unidos pela cor de fundo laranja. Seguindo a cabeças dos personagens você tem quase uma trilha no desenho.  Isso torna uma cena de ação quase caleidoscópica em uma narrativa fluida.

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Às vezes nós vemos algo belo e simples e ignoramos o quão difícil é atingir a simplicidade. Quando a gente senta e rabisca qualquer coisa, um desenho ou texto, há algo belo ali escondido. Mas é necessário ter os olhos para garimpar no meio da bagunça.

Você vai ver a imagem a seguir e talvez nem entenda o que há de mais. Só dois jovens se conhecendo e conversando no meio de um acampamento cristão.

Retalhos, por Craig Thompson. Quadrinhos na Cia.
Retalhos, por Craig Thompson. Lançado no Brasil pela Quadrinhos na Cia, da Companhia das Letras.

De novo, o desenho guia a leitura. Seguindo as cabeças, você vê a trilha da narrativa. As sombras fortes ajudam a dividir as imagens. E temos a imagem da garota deitada cortando a página quase ao meio, num tamanho bem maior do que as outras, porque ela é o centro de tudo. Como o protagonista, nós leitores estamos nos apaixonando por ela. Essa cena mais sinuosa rompe com as páginas anteriores, tradicionais, com quadros bem delimitados e arte escura.  A menina torna a narrativa mais leve e mais curvilínea.

Outra simplicidade que eu gosto é como dois balões estão interligados (o “I can’t” e o “I’ve no voice…”), mesmo sem precisar. Daria para entender sem a conexão, mas ela contribui para tornar a leitura mais fluida, passando a ideia de que a personagem emendou uma fala na outra.

seta_blanketsRetalhos é uma história ótima para quem tem preconceito com quadrinhos. Te coloca dentro de uma cidadezinha americana, numa prisão de convenções e culpa religiosa e te faz ficar desesperado por alguma saída. É uma bonita autobiografia, com uma narrativa que, mesmo em seus momentos mais simples, vai pregar seus olhos no papel.

Porque simplicidade é um engano, lembre-se disso. Na vida nada é realmente simples.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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