As últimas semanas foram bem difíceis para o mundo das artes cênicas: perdemos grandes artistas, que fizeram história na produção cultural brasileira.

No dia 23 de abril, faleceu Roberto Talma, cuja generosidade é uma das qualidades mais citadas pelos inúmeros profissionais que com ele trabalharam em cinco décadas de televisão, nas quais passou por núcleos como jornalismo, dramaturgia e shows.

talmaTalma nasceu em São Paulo. Sua mãe era bailarina e seu pai foi coordenador de programação da TVRio. Aos nove anos, integrou um grupo de sapateado que se apresentava no programa “A grande gincana Kibon”, da TV Record paulista. Mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro e começou sua trajetória na  televisão, passando pelas TVs Rio, Excelsior e  Tupi antes de entrar na Rede Globo. Nesta, trabalhou em mais de trinta novelas, dentre elas “Selva de Pedra”, “Baila Comigo”, “Rainha da sucata” e o remake de “Gabriela”, de 2012. Também esteve por trás de minisséries, seriados, programas humorísticos, como “Casseta e Planeta”,  e de auditório, como “Domingão do Faustão.”

Ele tinha um grande faro para descobrir talentos e um dos seus maiores legados, ao lado da qualidade da programação, foi a formação de profissionais como Jorge Fernando e Guel Arraes.  A Rede Globo sem dúvida, perde um de seus melhores criadores dos últimos tempos.

No dia 28 de abril, perdemos um diretor, ator, apresentador de TV e sobretudo um dos grandes renovadores do teatro brasileiro: Antonio Abujamra.

Com uma linha de direção personalista e moderna, exerceu diversos papeis de relevância na cena brasileira. Adotou princípios e métodos teatrais de Bertold Brecht e de Roger Planchon, quando ninguém o fazia. Em 1989, tornou-se um rosto conhecido quando viveu o feiticeiro Ravengar na novela “Que rei sou eu?”, da TV Globo.

abujamra

Mantinha na TV Cultura, desde 2000, um programa marcado pela informalidade intitulado “Provocações”. Ele sempre fez questão de chocar, de provocar reações pelo exagero, sem qualquer pudor em ser vulgar, até o limite da banalidade.

 

Abujamra nasceu em Ourinhos, interior de São Paulo. Formou-se em Jornalismo e Filosofia, começando sua carreira na plateia, como crítico teatral. Mas, ainda na faculdade, já havia experimentado os ofícios da atuação e direção em montagens universitárias.

Começou a destacar-se no início dos anos sessenta, quando se inseriu no panorama teatral paulistano. Mais tarde, foi em terras cariocas que venceu o Prêmio Molière por “Um certo Hamlet” com Claudia Abreu, Vera Holtz, dentre outros famosos atores.

Mas a sua própria estreia como ator profissional veio só quando já era cinquentenário, encarando um espetáculo solo que apresentou durante oito anos ininterruptos, intitulado “O contrabaixo”.

Um artista na contramão, um rei da provocação. Abujamra: um marco na história do teatro brasileiro.

E enquanto escrevo este texto, dia 2 de maio, fico sabendo da morte de Maya Plisetskaya, bailarina russa considerada uma das melhores do século XX e que foi fonte de inspiração de várias gerações de bailarinas, e eu me incluo nisto.

Maya como Kitri, em Don Quixote
Maya como Kitri, em Don Quixote

Maya nasceu em Moscou e ingressou no Ballet Bolshoi em 1943. Durante cinquenta anos encantou plateias com a pureza de suas apresentações e a intensidade do seu olhar. Tornou-se mundialmente conhecida pela sua performance no solo “A Morte do Cisne”, mas sua versatilidade lhe permitia interpretar os mais diversos Ballets como Carmen, Don Quixote (no papel de Kitri) ou Bolero, de Maurice Bejárt.

No Brasil, esteve três vezes: nos anos 1970, com o Bolshoi, no início da década de 1980, com o Balé do Século XX, de Maurice Béjart, e em 1996, com o Ballet Imperial Russo, que criara dois anos antes.

Ela também foi  diretora artística do Balé da Ópera de Roma (1983) e do Balé Nacional da Espanha (de 1987 a 1990) e recebeu numerosas homenagens, inclusive de seu país natal: no ano 2000, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, concedeu-lhe a medalha por serviços prestados ao Estado.

Em seu octogésimo aniversário, em 2005, ela interpretou no Kremlin o “Ave Maya”, dedicado a ela pelo coreógrafo francês Maurice Bejárt, coroando uma noite mágica que contou com bailarinos de diversas partes do mundo além da orquestra do Exército russo Alexandrov.

Maya faleceu aos 89 anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante, em um coração que sempre bombeou arte da mais pura qualidade.

maya

Mas este é o ciclo natural da vida. Grandes artistas se vão, mas deixam um legado de paixão, entrega e respeito pelas suas artes e permanecem na memória daqueles que puderam vê-los em seus momentos mais vivos na cena.

Os meus aplausos e a minha reverência a estes três artistas!

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

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