O céu amanhece com algumas nuvens nessa quarta-feira. As chuvas que assolaram a cidade no começo de Fevereiro, e quem sabe também no mês passado, decidiram reprisar um pouco durante o carnaval. Olhando para cima, percebe-se que provavelmente choverá hoje. Sem problemas: com a ameaça de seca sempre aí, com a diminuição dos níveis de onzenas e dúzias de represas Brasil afora, a preocupação latente com a questão hídrica ainda não se dispersou.

Mas, durante este carnaval, e hoje mesmo, você não precisa pensar nisso. É feriado, é claro: nesta Quarta-feira de Cinzas você pode descansar, jogar as pernas para o alto e dormir até mais tarde, quem sabe até a tarde. Não há problema se acordar somente às duas neste dia, nem mesmo se fizer do jantar a sua primeira refeição de hoje. Só Deus sabe o quanto este carnaval foi puxado, foi pesado, foi o máximo. Talvez tenha perdido um celular, um documento ou um romance superficial, mas hoje você pode esquecer todas as mágoas e descansar para a volta ao trabalho no dia seguinte. Talvez você não goste de carnaval e tenha decidido sair da cidade, viajar um pouquinho, rever a natureza. Por outro lado, pode também ter ficado em casa, adiantando um trabalho, trabalhando em um projeto pessoal, ou apenas descansando.

Talvez você tenha até mesmo que repor as horas desta quarta mais tarde neste mês, a despeito de hoje ser tecnicamente um feriado. Ou, quem sabe, você trabalhe de casa e não precise se guiar pelo calendário dos assalariados. Nesse caso, nada de trânsito para você, nada de horas a fio espremido numa composição de metrô, em um trem abafado ou num ônibus sem ar-condicionado.

Mas por que estamos pensando nisso? Hoje é feriado, e você não quer pensar no amanhã, na volta à rotina, no fim da folia nacional. O que importa é que você ligou seu computador, checou suas redes sociais, e alguém — um amigo, uma página, quem sabe eu mesmo — compartilhou este texto esquisito, supostamente sobre literatura, mas com um título que não combina assim tanto com a temática. “Vamos falar sobre leite”. Você imagina que seja algo simbólico, quiçá pretensioso, sobre arte, sobre tirar leite de pedra, sobre o popular fluido como representativo de trabalho.

Não, não. Estamos falando de leite de verdade.

Você franze o cenho. Talvez esteja com a cabeça apoiada na mão esquerda, descendo o texto com o indicador direito no teclado, talvez em uma rodinha de mouse. Suspira. Este texto é vago demais, sempre falando de “quem sabe”s e “talvez”es, indo de um lado para o outro sem saber aonde quer chegar. Uma narrativa inconstante, dúbia, pouco confiável. Mas aí já temos um primeiro ponto, não é? Você torna-se literário, você desenvolve um eu-lírico, “você”, e então está ali, esta figura amorfa que corre os olhos pela página clara do TagCultural, imaginando sem saber o que vem depois. Você torna-se uma figura pouco confiável.

Toda narrativa, saiba bem, terá sempre o seu fator de inconstância, de amorfismo, pois, como disse algum escritor, a ficção não é nada mais do que uma mentira. Não é o fato inventado, da imaginação palpável e das palavras que constroem o irreal, o material com que o ficcionista esculpe a sua arte? Não era por isso que Platão, tão grande filósofo, condenava o poeta? Você se pergunta, então, o que faz esta narrativa, este conto sem protagonista e sem verdades, tão mais ficcional — tão mais mentiroso, inconstante, dúbio, pouco confiável — que o último romance que tenha lido.

E talvez você, cansaço na mente, feche esta página.

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Agora, talvez este texto não seja para ninguém, mas para todos os não-leitores que fecharam a página na frase acima, cansados de acompanhar um raciocínio petulante. Está tudo bem. Neste caso, você para de ler o texto, recosta a cabeça na (parede? Poltrona? No ar vazio logo atrás?) e descansa os braços, ainda não muito bem da ressaca de carnaval. Talvez você não tenha nem bebido, e esteja simplesmente com um cansaço de ficar sem o que fazer, ou com as pernas doendo por passar a noite de pé.

Mas daí, também, talvez você não exista. Qual a diferença?

Agora, aqui, você é uma narrativa.

Já vamos falar de narrativa; mas, antes, não esqueçamos o leite. O pensamento passa pela sua cabeça após o fechar da página: o leite está acabando. O último pacotinho está na geladeira, e os mercados talvez não estejam abastecidos. Leite é uma daquelas coisas da vida que, quando se deixa faltar, é um dos primeiros sinais de que uma vida está saindo de seus trilhos. Caso a pessoa seja da média, e goste de tomar leite com alguma coisa (chocolate, café, cereal, omelete, purê, quem sabe mesmo puro), ela precisa manter um estoque constante e confiável de pacotes em sua casa, reabastecendo-o conforme a necessidade a intervalos regulares. Como é algo que vai em uma quantia razoável de alimentos e preparações, e vence em prazo relativamente curto, uma boa organização pessoal exige que o leite seja comprado. E quando ele falta, sem que perceba, é porque algo saiu do controle. É porque um prazo não foi estabelecido, ou a pessoa desandou.

É uma grande questão, essa do leite.

Então você, com isso em mente — os pensamentos que lhe passaram pela cabeça a um nível subconsciente, sem mesmo que percebesse — decide sair para comprar uma caixa de leite, ou mesmo um pouco menos, em um mercadinho próximo. Aquele mercadinho ao qual você pode chegar a uma caminhada de cinco minutos, mas o qual geralmente não prefere usar para suas compras maiores pelos preços não tão vantajosos. Mas esta, você bem sabe, é uma emergência. Então se dá ao trabalho.

Mas você está em um canto, não é? Chega a descrição, aquela que em um texto vago como esse é perigosa, mas na qual temos que nos aventurar. Este é o nosso segundo ponto. É fácil narrar uma sequência de acontecimentos uma atrás da outra quando já se tem em sua cabeça a imagem mental dessas coisas acontecendo. Mas é apenas óbvio que esta imagem não é compartilhada por todas as pessoas do mundo, e por isso precisamos nos dar ao trabalho de descrever. É inevitável, contudo, que mesmo que eu tenha uma imagem assim tão potente e bem definida, claríssima, em minha mente, ela mesmo assim não será compartilhada por todos os meus leitores. Há ruídos de comunicação, e nada na forma literária é possível de se descrever exatamente sem que pareça um manual técnico, uma descrição artificial, sem graça alguma, sem a pulsão artística.

Vamos supor, por exemplo, que eu diga que você mora em: um apartamento, quarenta metros quadrados, paredes brancas. Corredor estendendo-se entre os dois dormitórios, com um banheiro na porta do fundo. Seu quarto: uma cama à direita, um armário à frente, uma televisão à esquerda. Um pôster de seus músicos favoritos acima da cama, separados por um espaço de cinquenta centímetros. Está chato, mas ainda assim, nada preciso. Qual é a cor de sua cama? Quais as posições exatas dos integrantes da banda em seu pôster? A lâmpada está pendendo, e, se não, qual é o formato de seu protetor? Há alguma ruga, ou as paredes são completamente lisas e lixadas? Há poeira abaixo da cama? E os padrões em seu edredom; aliás, você lembrou-se de arrumar a cama?

Não, nada bom. A imagem jamais será perfeita. Nem me arrisco a dizer se você tem um pôster de seus músicos favoritos no quarto. Talvez isso já seja meio ultrapassado.

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É tudo tão inexato, tão deixado à mente! Seria isso uma desvantagem ou vantagem da literatura sobre as outras formas de mídia? Em uma graphic novel, você vê os quadros, mas pode imaginar como eles interagem entre si, em uma fluência mais ou menos particular. Em filmes, tudo acontece à sua frente, deixando-lhe para pensar apenas sobre o que aconteceu fora da cena, entre ou antes ou depois dos acontecimentos. Na literatura, você forma as próprias imagens, as próprias descrições, o próprio ritmo dos acontecimentos, cedendo o controle a essa voz em sua mente que lê as palavras à frente, que conecta os significados e o ritmo do idioma à imagens em movimento, ao seu método particular de leitura e imaginação. É mais livre, ou é mais vago? É mais esquisito? O que você prefere? Acha chato, não consegue se imergir?

Ou você não liga, e só quer logo acabar com isso e comprar o leite?

Então você decide pular toda a questão do lugar onde você mora — que, afinal, seria impossível de descrever com a precisão que merece — e partir para a ação. Estamos saindo, eu e você, do campo descritivo para o narrativo, entremeando uma linguagem literária na outra. Talvez, ao escovar os dentes e dar uma ajeitada no cabelo (tudo bem básico, você só vai ali), esteja se divertindo com aquela sensação no fundo da cabeça de que há algo de grande para acontecer. É uma sensação peculiar, que não sente com muita frequência. Você não costuma dizer que se baseia nas suas intuições, mas gosta quando os pressentimentos são bons.

Você pega o celular, e há uma chamada perdida de um número que desconhece. Quem poderia ter sido? Você não sabe se deve ligar de volta. Se for importante, bem — a pessoa vai tentar de novo, ou mandar uma mensagem. Não há necessidade de se afobar. Às vezes era da operadora, telemarketing, ou o consultório do dentista desmarcando a sua próxima consulta.

E você percebe que está pensando sem mais ninguém; uma espécie de introversão. Sabe, é um terceiro ponto. Eu poderia ser um narrador distante, apenas descrevendo um pouco de suas ações, de longe, sem me meter em seus pensamentos internos, em sua vida particular, em seu leite faltante e em sua agenda médica. Mas eu optei por outra abordagem; gosto da onisciência. Posso entrar na sua mente e ler o que se passa lá dentro, e posso escolher passar isso, os detalhes que eu bem entender, nesse texto. São tantas opções, todas as opções! Podemos entrar em um longo flashback, podemos avançar aos seus segredos. Mas é tudo entregue pouco à pouco, veja bem: não podemos deixar que o mundo se adiante, que as surpresas se percam. Ou, então, o que vai manter o texto vivo e pulsante? A curiosidade move montanhas, e precisamos nos importar com o que pode acontecer com nossos personagens e nosso mundo para que a leitura flua corretamente.

E, por exemplo, posso acabar tudo em uma espécie de gancho, e deixar que fique no ar o que, em uma futura continuação, pode acontecer. Para efeito dramático, se for uma sequência que logo virá e se quisermos forçar um leitor, como você, a continuar a história, podemos acabar logo antes de um acontecimento marcante, que já começa a se indiciar para dentro do enredo. Ou, se a continuação é algo difuso, incerto, quem sabe? Podemos encerrar um arco narrativo, dar ao leitor uma sensação de pequeno fim: essa parte de nossos acontecimentos chegou ao fim, mas quem sabe pode ter algo depois?

Pois é, isso acontece quando temos limites de tamanho. É esse o quarto ponto?

Então você está saindo para — enfim! — comprar seu leite, tão necessário depois de todo este imbróglio. Passa pela porta, tranca-a, bota a chave no bolso e caminha ao ar fresco. E, antes que dê um passo adiante, uma música conhecida e rápida começa a soar pela rua: seu celular está tocando.

E, ao puxar o aparelho e reconhecer um número há muito semiesquecido identificando-se na chamada, você percebe que o fim dessa história vai ter que ficar para a próxima.

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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