Há algumas semanas venho reparando mais detalhadamente no comportamento do público em programas culturais. Conversas excessivas enquanto a orquestra já começou a tocar nas récitas; o excesso do mal uso de celulares (vi uma madrinha entrar na igreja filmando sua própria entrada, o cúmulo da descompostura); pais que deixam suas crianças correrem soltas no meio de apresentações intimistas; a ausência de atenção do público no discurso do outro; até o rebuliço do caso do bailarino da Deborah Colker que tentou entrar de bermuda no Municipal (sobre isso, ver a nota oficial no Facebook do TMRJ).

Isso tudo me faz lembrar quando eu trabalhava no Espaço Cultural Escola Sesc e tínhamos uma programação voltada para as escolas públicas, chamada “Escola Vai ao Teatro”. É uma iniciativa maravilhosa que possibilita que diversas crianças e adolescentes de escolas da rede pública pisem em um teatro pela primeira vez na vida. Como é a primeira vez que eles frequentam o espaço, pode ser que não saibam como se comportar, os códigos de conduta, e com isso, tive o prazer de ser escolhida para ser responsável pela criação de uma cartilha que ensinasse como se comportar e potencializar à ida aquele ambiente, chamado “Manual de Fruição de Espetáculos”.

Um manual é um guia prático que explica o funcionamento de algo e/ou resume as noções básicas de um assunto. Fruição significa desfrutar de alguma coisa. Desta forma, um manual de fruição de espetáculos é um guia de como aproveitar melhor a atividade cultural proposta. O manual continha 3 partes: ações anteriores a ida ao teatro; pequenas atitudes que podem potencializar a experiência na atividade; e sugestões posteriores a atividade no Teatro. As duas primeiras etapas desse manual tem sido esquecidas frequentemente, por isso, vamos nos atentar à elas.

O acesso à cultura não deve ser apenas físico, de entrar no teatro, exposição ou qualquer outro ambiente, mas deve compor o acesso intelectual e essa é a parte mais difícil. Uma sala de espetáculo recebe pessoas de variadas classes sociais e backgrounds educacionais e ambientais. Tem a pessoa que está indo pela primeira vez à um teatro; a que é fanática por aquele gênero e conhece tudo; o que está obrigado porque a namorada queria ir… diversos contextos. Prover um nivelamento mínimo para que todos compreendam o que vão assistir e entenda os códigos culturais pré-estabelecidos – como aplaudir o maestro quando ele entra, ou entender os intervalos dos ballets e óperas – é fundamental para que o coletivo possa usufruir da peça igualmente, independente de onde vieram.

Não adianta colocar ingressos a preços populares ou entradas gratuitas e só colocar a pessoa dentro do teatro. Se ela não entender o que está acontecendo, se sentir deslocada, não conseguir acompanhar a linha de raciocínio da apresentação, você está gerando um efeito contrário. Está afastando-a de uma próxima ida, uma segunda experiência. Você faz algo que não gostou de novo? Não! Simples assim. O experiente e o iniciante devem ter o mesmo direito a informação básica do que estão assistindo. É por isso que programas são tão importantes, porque iguala a informação disponibilizada para todos, independente de onde vieram, o que fazem, quanto ganham, onde estudam ou porque estão ali. Traduz a linguagem do espetáculo ao público, e foi por isso que reclamei da ausência da explicação dos ballets do Grupo Corpo.

Em NY o acesso à informação do espetáculo é gratuito. As famosas Playbill distribuídas em praticamente todos os espetáculos de Manhattan fazem exatamente isso. É uma excelente ação de formação de plateia e estratégia de marketing. Como já falamos em um post anterior, você só consome o que você conhece, aquilo que você se apropria. Só é possível tornar um espetáculo ou grupo cultural seu, através do entendimento, da familiaridade. Os Programas de espetáculos no Brasil deveriam ser de graça e conter mais informações relevantes sobre as apresentações em vez de apenas fotos bonitas. O programa do Royal Ballet de Londres explica até a mimese da história do ballet.

Uma vez fui assistir a montagem de The Book of Mormon da UniRio na Cidade das Artes e a pessoa sentada atrás de mim foi “só porque era de graça”. A senhora não compreendeu que era uma sátira, que o contexto religioso era ironizado, que tudo aquilo tinha o objetivo da comédia. Ela de fato achou que estava num culto que iam tentar converter ela à Mormon. A mulher não parava de falar e reclamar alto de forma desagradável incomodando todos do ambiente. Mas eu não a culpo, porque ela ainda teve toda a nobre iniciativa de ir ao teatro. Um simples programa ou um monitor/educador na entrada teria evitado tanta revolta.

Mas será que agora além da parte artística devemos ensinar boas maneiras?

“Código de conduta é um conjunto de códigos de um determinado grupo de pessoas de acordo com os seus princípios.”

A segunda parte, e mais preocupante, são os códigos de conduta já mais que estabelecidos para se assistir peças, espetáculos e afins, que parecem estar sendo esquecidos agressivamente pelo público. Agressivo porque fere o direito do espectador ao lado. Uma coisa é ensinar a quem nunca foi, essa pessoa tem o direito de errar e não saber se comportar. Mas eles têm tanta ciência que se encontram em um ambiente no qual não sabem o que é certo e o que é errado, que eles mesmos ficam estáticos, esperando alguém dar a pista do que pode, do amigo falar o que é pra fazer, situar onde estão. Lembro das minhas aulas na UFF e das discussões sobre como a arquitetura e o imaginário do Theatro Municipal do Rio de Janeiro causava uma sensação de imponência e proibição – Não entro neste lugar porque ele não me pertence. É demais pra mim. – Quando essa barreira virtual é finalmente ultrapassada a cautela e a curiosidade tomam conta. Quem causa o caos, não é o desfamiliarizado, mas o frequente. Está tão acostumado com o espaço que se acha dono da casa. Será que as pessoas não sabem mais se comportar ou acreditam que podem fazer o que quiserem e que são livres o suficiente para atrapalhar a experiência artística do outro? Onde foi parar o censo de pertencimento coletivo? O respeito ao outro?

O Teatro Municipal de São Paulo anunciou nesta semana que irá usar lasers na plateia para advertir pessoas que estejam usando o celular. A que ponto egoísta chegamos! E é uma situação que não tem nem como os rebeldes de espírito argumentarem que os códigos não deveriam existir, porque é o simples ato de respeitar o trabalho daquele que se apresenta. O seu direito é o de não gostar e silenciosamente ir embora.

DICAS DE COMO SE COMPORTAR EM UMA ATIVIDADE CULTURAL

  • após o início do espetáculo, o silêncio é fundamental para que os artistas que se apresentam e do público que assiste possam se concentrar;
  • o telefone celular deverá ser desligado ou colocado em modo silencioso e guardado enquanto as luzes estiverem apagadas, porque o barulho tira a concentração dos artistas e da plateia e a luz incomoda as pessoas ao seu redor e pode cortar o clímax da cena. Toda a vez que um celular permanece aceso depois que as luzes do teatro já foram apagadas, um Panda morre. É sério;
  • a movimentação da plateia atrapalha os artistas e os espectadores, logo solicitamos que o público evite trocar de assentos durante a apresentação;
  • lembramos que não é proibido usar o banheiro durante o espetáculo, porém pedimos que o público procure utilizá-lo antes ou após a apresentação. Caso utilize o banheiro durante o espetáculo o façam silenciosamente;
  • não é permitido consumir qualquer tipo de alimento, nem mesmo bebidas, dentro do teatro para evitar que suje o mesmo ou que o barulho do saquinho abrindo desconcentre a pessoa ao lado;
  • se dê esse tempo de folga das tecnologias e das pessoas que não estão no teatro. Não há nada que você irá resolver nesse momento que não possa esperar 2h. Levante o pescoço que vive abaixado olhando o celular/tablet/laptop, olhe em volta, aproveite o lugar e sua companhia, faça novos amigos, leia o catálogo e saiba o que você está assistindo;
  • não durma. Se dormir, não ronque;
  • pode tossir e espirrar;
  • filmar e/ou fotografar o espetáculo nunca será permitido, não insista. Guarde o celular;
  • sério, guarde o celular!

Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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