“Good and Plenty. The Creative successes of American Arts Funding” é o nome do livro que eu estou lendo (recomendei ele no post anterior) e foi a partir de uma discussão do livro que surgiram as reflexões que apresento no texto de hoje.

O livro começa discutindo as diferenças de visões entre aqueles que defendem o patrocínio à arte pela perspectiva estética e aqueles que pensam de forma econômica sobre a cultura. Algumas discussões depois, o autor cita como os críticos de arte em geral escrevem e, porque não?, julgam uma expressão de cultura popular pela perspectiva estética, com base nos termos acadêmicos e distante da maneira que o consumidor comenta sobre a obra.

O exemplo que o livro dá é da série Seinfeld: enquanto os fãs da série estão discutindo quem é a personagem mais engraçada ou se Jerry e Elaine deveriam reatar o romance, um crítico só conseguiria escrever sobre “o pós-moderno em Seinfeld”. Jamais escreveriam um artigo acadêmico sobre se Elaine deveria ter terminado com seu ex-namorado, que é a maior preocupação do público. Eu acho que a Thais Nepomuceno conseguiria, ela escreveu uma monografia que é “KITSCH FOR DUMMIES : manual de instruções para novos usuários”.

Tecnicamente há um gap entre o que o público em geral, o consumidor, se interessa no produto cultural e o que os acadêmicos e especialistas no assunto, enxergam naquele mesmo objeto. O primeiro questionamento é: quem define o valor da obra? Os consumidores que validam seu valor através da compra e do uso, do investimento econômico, ou os acadêmicos que avaliam a obra através de teorias culturais e movimentos estéticos?

O livro diz, e eu concordo, que as duas formas são válidas e diferentes entre si, mas que o valor econômico atribuído é mais fácil de calcular.

A partir disso eu me peguei pensando: se os fãs não conhecem o valor estético da obra, ao consumi-la, estariam esses fãs aprendendo? É válido contemplar uma obra que eu não compreendo sua totalidade? Posso falar que a rampa vermelha do MAC é vermelha porque não é cinza ou de qualquer outra cor, simplesmente, sem teorizar a respeito? (Saudades, Carol Fagundes) Como se absorve cultura erudita? e por fim, qual a consciência do aprendizado?

Imagine o cenário: eu não entendo nada de artes visuais. Vou à Paris e entro no Louvre. Demoro 1h30 pra chegar mais perto da Mona Lisa, porque todo mundo diz que a Mona Lisa é importante e já que estou no Louvre, vou ver a obra famosa. Chego diante do quadro famoso, fico 30 segundos olhando pra ele, tiro uma selfie, posto no Instagram #Louvre #Paris #monalisa #arte, e vou embora. O que eu aprendi? O que absorvi?

Eu cheguei lá sem saber a importância da obra para o mundo artístico, a técnica usada pelo pintor, ou as 50 teorias do porque o sorriso é tão suave; estou indo embora sem nenhuma resposta. Mas eu vi! Eu experimentei. Eu paguei pra entrar. Estético ou econômico?

Para os estéticos eu não aprendi nada e foi uma “perda de tempo”, eles diriam: “Meu Deus, como assim você não viu a diferença nos traços da linha do horizonte entre os lados esquerdo e direito?!”

Enquanto os estéticos querem manter toda a forma de arte porque tudo merece ser visto, desmerecendo o consumidor leigo que consome cultura como entretenimento; os econômicos acreditam que apenas parte da arte produzida no mundo tem valor e deve ser patrocinada. Não seria essa uma das discussões sobre patrocínio no Brasil, especificamente a que envolve a Lei Rouanet?

Talvez você não perceba isso no dia-a-dia ou na hora que tira a selfie com a Mona Lisa, ou quando você recusa o convite pra OSB, ou quando você acha que os projetos sociais de inclusão através da cultura nas comunidades carentes não funcionam, mas ao consumir mais cultura, mesmo que você não entenda absolutamente nada de primeira, você está aprendendo.

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O nosso processo de aprendizagem pode se dar de diversas maneiras diferentes. Existem 7 principais estilos de aprendizado e cada pessoa é mais suscetível a um deles: visual, auditivo, verbal, cinestésico (toque), lógico (matemática), interpessoal (social) e intrapessoal (solitário).

Existem também pessoas que aprendem com situações de estresse ou tranquilidade. Outros que precisam escrever para absorver alguma coisa (aquele amigo da faculdade que escreve no caderno mesmo tendo o material do slide no e-mail) ou só consideram o que é transmitido através de uma autoridade, seja o professor, um especialista, um palestrante.

learning-processIndependente da forma como “absorvemos” a informação, nós passamos por um ciclo interno de conexões e sinapses para transformar essa informação em conhecimento, de acordo com nossas experiências anteriores e observação pessoal. Ou seja, quanto mais eventos anteriores, quanto mais informações diferentes, mais conexões conseguimos formar e em menor tempo que as anteriores.

Por fim, existe uma terceira teoria, a pirâmide do aprendizado, que diz o quanto somos capazes de reter uma informação de acordo com nossa atitude, passiva ou ativa. A forma mais passiva de se obter informações é lendo e nossa retenção é de em torno de 10% após duas semanas. Você se lembra da notícia do jornal/site de duas semanas atrás?

No outro extremo está o fazer. Temos uma taxa de retenção em torno de 90%, após duas semanas, das coisas que aprendemos fazendo. Já fez uma aula de fotografia ou tentou andar de skate esse ano? Lembra-se do que aprendeu? Visitou a exposição do Kandinsky no CCBB? Já foi no Louvre e viu a Mona Lisa?

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Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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