Valência é a terceira cidade mais populosa da Espanha. A capital da comunidade valenciana é uma cidade que me levou a pensar em vários pontos, principalmente em relação a gestão nas cidades que querem atrair outros públicos para o turismo local.  A Cidade das Artes é o exemplo perfeito de como Valência se reinventou e começou a se destacar no turismo nacional.

Uma coisa que sempre me despertou a atenção na gestão da cultura nas cidades, foi a “invenção” de pontos turísticos ou uma falta de pudor em criar e/ou relaxar as relações entre gestão-ócio-cultura-lazer. Em Barcelona, têm muitos casos assim que, eu considero, bem rasos na proposta, mas que devem dar certo já que não fecham. Como o museu do sexo e o museu da maconha. São invenções pra atrair o típico turista que não sai do óbvio e pouco conhece da cultura local. Dos casos mais bizarros de invenções desse tipo, destaco o museu da batata frita de Brugues na Bélgica. Sim, um museu para a batata frita!!! Deixo o link aqui para quem não acredita que isso existe. São descontraídos, mas acabam por não funcionar para a cultura local, na minha opinião.

No entanto, o caso de Valência me chama muita atenção por poder ser um exemplo de como “inventar”, “criar” um ponto de sociabilidade para a comunidade e de interesse para o turismo que não é só e/ou necessariamente superficial, não cai no óbvio e agrada um vasto quantitativo de público. Ou ainda que através do ócio, pode trazer um público pra dentro do espaço e acabar por despertar um interesse em pessoas que geralmente não iriam a determinado tipo de atração.

Ao chegar em Valência, o cascuo antiguo é o que chama mais atenção. A Catedral, a Plaza de la virgen, etc.  Valência também têm praia e esse ambiente de litoral.  De mais típico da cidade, temos a Paella, a iguaria mais reconhecida da cozinha espanhola nasceu ali e tem a versão valenciana que é o arroz feito com frango e coelho.

Ou seja, Valência era uma cidade populosa, mas que era mais do mesmo que se poderia encontrar em Madrid, Barcelona ou outra cidade turística da Espanha: Sangria a litros, Paella, parte antiga e pouco mais. No entanto, a Cidade das Artes é um diferencial, fazendo de Valência um destino dos espanhóis de outras regiões e a colocando na rota do turismo internacional e com a vantagem de ser mais barata que as capitais da Espanha e Catalunha.

A Cidade das Artes começou a ser construída em 1996 e teve seu último complexo terminado em 2005 e ela segue em construção. Dentro do projeto estão:

  • L’Hemisfèric – Imax Cinema, Planetário e Laserium. Com aproximadamente 13.000 m²
  • El Museu de les Ciències Príncipe Felipe – Museu interativo de ciências, ocupa aproximadamente 40.000 m² em três pisos.
  • L’Umbracle – trilha de caminhada com plantas selvagens, conta também com uma galeria de arte com esculturas de artistas contemporâneos.
  • L’Oceanogràfic – o maior aquário oceanográfico da Europa, com 110.000 m² e com 42 milhões de litros de água.
  • El Palau de les Arts Reina Sofía – casa de ópera e apresentações de artes. Contém quatro grandes salões: Salão Principal, Salão Magisterial, Anfiteatro e Teatro de Câmera.
  • El Puente de l’Assut de l’Or – ponte que liga o lado sul com a rua Menorca, cujo pilar de 125 metros de altura é o ponto mais alto da cidade.
  • A Praça Principal – uma praça coberta, atualmente em construção, onde serão realizados concertos e eventos esportivos.
  • As Torres de Valência, Castellón e Alicante – parte de um projeto que consiste na construção de três arranha-céus de 308, 226 e 220 metros.

Desses, eu destaco o L´Hemisfèric, que é um cinema onde o filme é projetado no teto. E, têm filmes que são produzidos especialmente para ser exibido lá. É o caso do filme sobre as Fallas, que é o carnaval valenciano, onde depois do desfile dos carros alegóricos, as escolas que não ganham queimam seus carros em praça pública. Realmente ver esse espetáculo projetado no “Hemisférico” foi uma experiência a parte e o diálogo com a cultura local ficou evidente.

Destaco também o Museu das Ciências, apesar de saber que muitas outras cidades têm museus pelo estilo, onde o público entra em contato com experimentos físicos e químicos ou pode ver exposições sobre condições climáticas, animais, etc

Navidad-2011-Oceanografic-Valencia. Esse mais uma vez dialoga com o território: Em uma parte do museu dedicada ao corpo humano, temos a parte dedicada ao time local o FC Valencia. Onde têm história dos jogadores e experimentos de futebol e com os próprios atletas.

Pensando ainda no público, a Umbracle, que é como uma “selva”  no verão funciona como discoteca, o que leva os jovens à madrugada nesse espaço. No inverno a parte aberta que dá a esse jardim-selva é fechada e só funciona a parte subterrânea que é chamada Mia. É um máximo ir a noite a Ciudad de las Artes e ainda mais ir a uma festa dentro de um jardim desse porte. De todos esses que destaco têm ainda o Oceonográfico, que seja o que talvez não mantenha nada local na sua apresentação, no entanto, sendo o maior aquário da Europa já desperta interesse por isso mesmo. E, seus corredores no meio do áquario que permitem ver tubarões sob todos os ângulos são uma passada.

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Ou seja, a administração encontrou um jeito de ocupar a cidade das artes, sem restrições. Vejo nesse caso, vários pontos que podem servir de inspiração para a gestão de cidades: o diálogo local-universal, a criação de novos pontos de sociabilidade e ócio e, principalmente, a gestão do público e a ocupação do espaço. Já podemos imaginar o dia que nossos espaços públicos serão reinventados e poderemos fazer festa nos Centros Culturais, museus e jardins sem tanta burocracia ou pudores? Eu espero que sim. Afinal, ócio também é cultura e pode relacionar-se com conteúdo, como em uma cidade das artes e ciências.

 

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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