Teoria x Prática. Prática x Teoria.  Eis uma relação de amor e ódio que movimenta a Humanidade há séculos. No momento,  tenho vivido “na pele” e nos pensamentos, todos os sabores e dissabores dessa dualidade. Vou explicar por quê.

Luis Ortigoza e Marcela Goicoechea, "Primeros- Bailarines- Estrella" do Ballet de Santiago do Chile, em La Bayadère
Luis Ortigoza e Marcela Goicoechea, “Primeros- Bailarines- Estrella” do Ballet de Santiago do Chile, em La Bayadère

Estou, como bailarina, em meio a um processo de remontagem do Ballet “La Bayadère (um dos grandes Ballets Clássicos de Repertório de Marius Petipa), que vamos estrear no mês de junho no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sob direção de Sérgio Lobato, com versão coreográfica de Luis Ortigoza, Primer Bailarin Estrella do Ballet de Santiago do Chile.

Ao mesmo tempo, estou em pleno processo de pesquisa e escrita da minha monografia de Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense, cujo tema é “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Em um dos capítulos abordo exatamente essa questão da tradição dos Ballets Clássicos de Repertório e suas remontagens/recriações.

Ou seja, minhas manhãs e tardes têm sido permeadas pela prática e minhas noites e madrugadas viraram pura teoria. Essa “vida dupla” está sendo intrigante e ao mesmo tempo enriquecedora, me fazendo perceber e questionar coisas que nunca havia me dado conta como bailarina e provocando importantes  reflexões como pesquisadora.

Antes, vamos nos informar um pouquinho sobre a obra: O Ballet Imperial da Rússia estreou La Bayadère em Abril de 1877, no Teatro Marinsky. Com coreografia de Marius Petipa e música de  Ludwig Minkus, o ballet passado no Oriente, narra a história de amor de Nikiya, uma dançarina do templo e de Solor, um jovem guerreiro.

Nosso ensaio de La Bayadère para a temporada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Nosso ensaio de La Bayadère para a temporada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Esse é considerado um dos Ballets de Repertório mais difíceis, pela sua exigência técnica e precisão de estilo totalmente acadêmico. No segundo ato, “Reino das Sombras”, por exemplo, vinte e quatro bailarinas precisam se movimentar em uníssono, com movimentos de braços e sustentações de pernas exatamente iguais. Posso afirmar por experiência própria que não é nada fácil. É um desafio para as bailarinas, que além da dificuldade técnica de execução dos passos, precisam estar de olho umas nas outras e também nas marcações de lugares,  e para os ensaiadores, que precisam estar atentos a quarenta e oito colocações de braços, vinte e quatro alturas de perna em arabesque e  muitas posições de cabeças e pés.  O público às vezes não tem noção de que ensaiamos arduamente todos os dias durante mais de dois meses para chegar ao resultado que eles presenciam em cena. E não há nada mais gratificante para nós artistas do que fazer parte de tamanha obra e sentir o encantamento do público durante o espetáculo.

Vamos agora aos questionamentos e reflexões: Como as obras de repertório do Ballet Clássico se mantiveram ao longo do tempo? É realmente possível remontar hoje uma obra criada em 1877, mantendo a sua originalidade?  A resposta, infelizmente ou felizmente é não.  Ao longo dos anos, a técnica do Ballet Clássico evoluiu, o corpo dos bailarinos mudou esteticamente, a percepção do público foi se alterando conforme o momento histórico e o principal: na época da criação não existiam meios de registros eficientes para que hoje pudéssemos ter ideia do que realmente foi essa versão original. O que sempre se tentou preservar foi além do enredo, a identidade da obra como um todo, a sua essência poética e o que ela representava para o momento histórico em que foi concebida.  E esses tipos de conhecimento foram passados corpo a corpo, de geração em geração, pelos bailarinos que foram experimentando

Cecília Kerche, primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, como Nikiya. Nesta temporada, ela ensaia e passa seus conhecimentos aos atuais solistas da Companhia.
Cecília Kerche, primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, como Nikiya. Nesta temporada, ela ensaia e transmite seus conhecimentos aos atuais solistas da Companhia.

a obra “na pele”.

Como afirma Duarte Jr[1]: “…o saber reside na carne, no organismo em sua totalidade, numa união de corpo e mente.”. É esse o principal  saber que tem sustentado as obras de repertório ao longo dos anos. É essa herança que é transmitida quando um ensaiador vem me fazer uma correção ou então quando o coreógrafo  transmite as experiências de quando ele dançou outras versões desta obra e que a partir destas, se tornou capaz de criar uma versão coreográfica própria, uma espécie de obra revisitada, mas que mantém aquela “aura” e essência artística original.  Algo que não é possível de ser transmitido através de palavras ou teorias e sim através de sensações e sentimentos coletivos, através do corpo-a-corpo. Não existe outra maneira.

Um espetáculo nunca é igual ao outro dentro de uma temporada, que dirá de um século para o outro. Isso é uma característica nata do Ballet Clássico. Suas obras de repertório vivem em um constante processo entre a efemeridade e a permanência. A cada apresentação efêmera, que acontece ali na cena e se evapora no ar, algo permanece. E é passado adiante. Algo intraduzível nesta folha de papel ou pelo site na tela do computador. Esse algo que eu como bailarina consigo compreender e sentir perfeitamente, mas que se torna intransmissível como pesquisadora de memória da dança.

Corpo de Baile do "Reino das Sombras", em ensaio no palco do Theatro Municipal
Corpo de Baile do “Reino das Sombras”, em ensaio no palco do Theatro Municipal

É esse “algo” que eu e todo o corpo de baile  vamos sentir e passar ao público quando as cortinas se abrirem no dia da estreia de La Bayadère e que eu sei que será igual aos que os bailarinos de 1877 também sentiram. Porque é esse “algo” que faz o Ballet Clássico  permanecer Clássico, mantendo  vivas as obras de seu repertório.

E a bailarina, como sempre, ganha em disparada da pesquisadora.

“O corpo diz o que as palavras não podem dizer” – Martha Graham

 

 

Calendário da Temporada
Calendário da Temporada

 


[1] DUARTE JR. João Francisco. O sentido dos sentidos. 2.ed. Curitiba: Criar Edições Ltda, 2003, p.127.

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

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