Quando decidi ir estudar na minha querida UFF, em Niterói, comecei minha saga de dividir apartamentos, cafofos, cantinhos, vida, estresses e contas a pagar. Mal sabia que aos 18 anos já inaugurava uma trajetória que perduraria até os dias de hoje.

Quando e onde mais aprendi sobre seres humanos e suas culturas foi no convívio. Morar é principalmente dividir e superar fronteiras, é mesmo muito fácil dizer: aceito as diferenças e em seguida dar um ataque de pânico e nervos ao ver que seu companheiro de apartamento misturou pano de prato, pano de chão e suas calcinhas (baseado em fatos reais). As fronteiras dos hábitos e costumes são devastadas, questionadas e ansiosamente especuladas quando o estranho vive no quarto ao lado (ou como em alguns casos meus, na cama ao lado).

É difícil comparar minhas 45 experiências de convívio com outras pessoas, cada homem é uma ilha ao final. Mas, gosto muito de pensar nessas 45 pessoas como possibilidades de vida que eu não poderia experimentar na minha vida finita, como um ator vejo nos meus ex-roomates tudo o que poderia ser. Os apartamentos de Niterói tinham suas práticas próprias e reuniões semanais para discutir o que não estava andando bem na casa. As minhas experiências de dividir casa no Brasil agora me parecem muito invasivas. Depois da minha experiência de dois anos e meio entre Portugal e Espanha e vendo como as coisas funcionam aqui, quando penso nas reuniões das casas niteroienses e cariocas, me impressiona como as relações no Brasil são mais pessoais, íntimas e demasiado profundas. Tanto para o bem quanto, se há, para um mal.

O que observo na Europa é que morar junto não inclui dividir uma vida ou qualquer palavra por dias.  Os anúncios de quartos para alugar pipocam nas páginas de Facebook, anúncios e murais das universidades e mercadinhos e isso não significa nada além que respeitar a limpeza das áreas comuns e pagar os euros em dia.  Os “pisos” têm um funcionamento muito diferente dos apartamentos que dividi no Brasil, são encarados como maneira de ter onde viver mais barato e o outro não é necessariamente um amigo.

Já vivi com Portugueses, Italianos, Poloneses, Turco, Espanhóis e cada um me aportou uma visão de mundo e do comum muito especiais. A piada de brasileiro clássica sobre a quantidade de banho que tomam os Europeus, para citar um exemplo, não se confirmou necessariamente, mas eu mesma acabei vendo que a pele muda, a água daqui têm muito calcário e, de fato, não faz bem tomar cinco banhos por dia, a pele resseca tanto que chega a rachar. E, isso eu aprendi nesse convívio e com as reclamações dos meus banhos excessivos e ameaças de que eu ia pagar mais na conta, já que um banho por dia dá e sobra.

Outra coisa que aprendi nessas experiências é sobre a noção de limpeza que é umas das construções culturais que mais me fascina. Por exemplo, limpar à brasileira com dezenas de baldes de água (o que para a gente é sinônimo de limpeza) para o europeu além de ser sinônimo de porcaria é quase que sinônimo de burrice, por desperdiçar tanta água. A limpeza é feita com panos, produtos específicos (muito específicos) e a famosa esfregona. O que é sempre uma superação pra mim, toda vez que limpo com ela vem a sensação de que está tudo sujo e lembro que não há tanques nos apartamentos de Barcelona e que não posso usar pano de chão porque eu não teria onde lavá-los e me recuso a lavar dentro da banheira.

Ainda que de maneira geral as experiências de dividir apartamento na Europa me pareçam impessoais, as minhas experiências foram muito pessoais. No final, meus compañeros de piso terminaram usando a palavra “cara” e “fofo” mas que qualquer outra  ainda que não arranhem muito português e farofa rapidamente virou a comida favorita de todo mundo. Eu aprendi a cozinhar suas comidas e a respeitar os espaços. O código é outro e os tempos também, música alta não é bem-vinda e as áreas comuns devem ser respeitadas como lugares sagrados e depois de viver com 45 pessoas, mundos, realidades e pontos de vistas diferentes cheguei a conclusão de que as línguas são sempre diferentes. O que eu falo quase nunca é o que o outro entende e ao viver com um estrangeiro esse cuidado no trato deve ser dobrado. Viver junto e com fronteiras requer sempre um pouco mais de generosidade e disposição de entender o outro. Aos amigos que pretendem se aventurar: ir sem amarras e preconceitos é a melhor maneira de conviver, viver junto e realmente aprender a aceitar e amar o outro.

(A todos os meus companheiros de piso, vida e aos atuais que me aceitaram de ocupa: Meu muito obrigada! E, preparem-se: o projeto do livro que conto sobre cada um de vocês começou a caminhar!)

 

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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