Há alguns meses atrás aconteceu um evento online chamado Fundraising Online promovido pela The Resource Alliance, uma empresa do Reino Unido. O evento consistia de diversos palestrantes especializados em captação de recursos, de vários países como Reino Unido, EUA e Holanda, fazendo suas apresentações online para pessoas do mundo todo. Eles conseguiram simular de fato um evento, com áreas virtuais para bate-papo entre os participantes, poder conversar com o palestrante, mandar perguntas e até uma recepção com atendentes ajudando com as palestras e suporte técnico!

A primeira coisa que chama atenção no discurso dos palestrantes é como eles estavam voltados para a captação individual, de pessoas físicas e não de empresas. Óbvio que falaram em patrocínio de empresas, não tocaram em patrocínio governamental, mas podia-se perceber que o foco talvez não fosse esse. É incrível como no exterior a maioria dos lugares possuem uma grande fonte de renda através da doação da sociedade, dos cidadãos que ali moram, seja através de fundações, de doações ou de Amigos de algum lugar: MoMa, Met, NYCBallet, Royal Opera House, Tate Gallery e Georgia Aquarium são alguns dos exemplos que facilmente me vem a cabeça.

Você acha que é mais fácil convencer e tocar um indivíduo que age emocionalmente em alguma esfera da cultura, do esporte ou até da tecnologia, que tem paixão ou interesse por algo específico, ou uma empresa movida por diversos indivíduos diferentes, com diretores que seguem políticas internas e externas, que precisam agir racionalmente e estrategicamente em função dos lucros e benefícios da mesma e que nenhuma tomada de decisão é fácil?   

Aqui insistimos no modelo da Lei Rouanet e por buscar pelas grandes empresas. “Ah Juliana, não seja louca, aqui nós não temos esse hábito.” pensam muitos de vocês. Mas será que isso é 100% verdade?

Você sabia que a OSB – Orquestra Sinfônica Brasileira possui mais de 500 doadores físicos que fazem renúncia pela Lei Rouanet? “Ah juliana, mas só fazem isso por causa da Lei Rouanet.” Será mesmo que o cara que doou R$10,00, R$20,00 ou R$50,00 tá mesmo pensando na renúncia fiscal? Mas se você quiser acreditar que sim, e o Queremos! que já trouxe diversos shows para o Brasil? Não tem Lei Rouanet! “Ah Juliana, mas aí ele ganha o ingresso do show que ele quer assistir.” Ganha, compra ou financia? Seu único benefício é assistir o show?

Guardem esse pensamento e vamos voltar a palestra. 

Ronald Kleverlaan, fundador do Crowdfunding Hub e Co-Fundador e Membro do European Crowdfunding Network deu sua palestra em 13 de maio sobre Crowdfunding como forma de captação. O Crowdfunding não é novidade por aqui, mas os pontos que ele apresentou eu só vi o Queremos! fazendo. Nunca vi nenhum proponente envolvendo seu público da forma como Ronald sugere que deve ser feito.

Ronald começou a palestra falando que financiamento coletivo não é novidade. Deu exemplos de quão antigo é, como em 1784 que um grupo de fãs do Reino Unido se juntaram para fazer acontecer um concerto de Mozart, já que a “produtora” não podia trazer porque era muito caro. Arrecadaram dinheiro não para 1, mas para 4 apresentações. Ou o maior exemplo de crowdfunding do século 19, em 1885 quando as pessoas doaram dinheiro para construir a base da Estátua da Liberdade. A estátua foi um presente da França para NY, mas foi apenas a estátua e os EUA não tinham dinheiro para construir a base onde ela ficaria, afinal era o fim da Guerra Civil, então um cidadão pensou “e se todos doarem dinheiro?” e publicou uma chamada no jornal. Deu certo!

Deu também um panorama de que Internet + Bancos online contribuíram para aumentar a causa uma vez que o primeiro facilita espalhar a ideia e o outro a coletar o dinheiro doado. E Logo em seguida, vieram as explicações que eu acho que fazem toda a diferença. É o tipo de coisa que está aí, o tempo todo, mas nunca se sabe se estamos prestando atenção de fato ou se estamos dando a devida importância.

Porque pessoas doam dinheiro para alguma causa/projeto? Porque de alguma maneira elas querem algum tipo de retorno e este podem ser 3: Social, Material ou Financeiro. Roland não falou sobre isso, mas de alguma maneira, todos querem um retorno social, o reconhecimento: seu nome no site, seu nome no telão antes do show começar, saber que você fez algo bom, que você contribuiu, que alguém é grato à você… Esse é o maior trunfo em um projeto de crowdfunding (ou na busca de patrocínio por pessoas físicas), saber envolver o indivíduo.

É importante perceber que nem todo indivíduo serve para um projeto, você precisa achar quem realmente está envolvido com o que você está oferecendo. 

“Ah Juliana, mas no crowdfunding você dá uma troca material para alguns valores.” Ok, concordo, na forma como é praticada no Brasil é, mas é só o material que a pessoa quer? Na construção da Estátua da Liberdade as pessoas que contribuíram ganharam uma mini estátua da liberdade. “Meu Deus, isso é tudo que eu queria depois de doar um dólar!” (Um dólar era coisa pacas na época).

Todos querem pertencer à algum lugar. Você passa sua vida tentando pertencer a algum grupo: sua família, seus amigos, seus colegas de trabalho, os grunges, os cinéfilos, os hipsters, etc. Saber que você pertence a algo é um tipo de realização pessoal inconsciente. Você não percebe isso, mas você é feliz por fazer parte de alguma coisa. 

Então o crowdfunding é mais do que arrecadar dinheiro é a chance de poder conectar um indivíduo a uma causa, uma comunidade, um projeto. Exemplo: na Holanda diversas igrejas se tornaram livrarias. Uma dessas livrarias estava entrando em falência e precisava arrecadar dinheiro para fazer uma oferta de pagamento das dívidas. Tinham duas opções: ir ao banco pedir empréstimo ou fazer um projeto de crowdfunding e pedir seus clientes que ajudassem a manter a empresa ali. Como esse é um texto sobre como essas ações são bacanas, óbvio que a livraria conseguiu movimentar seus clientes para doarem dinheiro e manter a empresa ali. Além do fato de terem levantado 100 mil dólares em dois dias e dobrado o valor 3 dias depois, o maior ganho foi a legitimação da comunidade local. Eles querem aquela livraria ali.

E no Brasil: Quem nunca fez uma vaquinha pro presente de aniversário de um amigo? Ou um chapéu de um artista de rua na sua viagem internacional? A gravata do noivo no casamento? Quem nunca se mobilizou para ajudar a festa junina da rua ou o campeonato de futebol da praça? Deu dinheiro para um calouro na rua? Quem nunca comprou uma rifa? Somos o povo da alegria e da compaixão, de colocar água no feijão pra caber mais um, que tem sempre um colchão pra um fulano que estendeu a visita dormir e você quer me falar que não temos o hábito de doar nada? Não temos o hábito ou não fomos devidamente estimulados? No caso da agente de trânsito que foi obrigada à pagar indenização ao Juiz que foi flagrado andando sem carteira, muitos se mobilizaram e contribuíram para que a agente, no final, não tivesse que pagar nada. Indignação, Alegria, Compaixão, qual sentimento te faz ser empático com o outro? Qual sentimento você está estimulando na sua campanha de arrecadação?

Existem alguns tipos de crowdfunding e cada tipo vai influenciar no tipo de retorno ao indivíduo investidor: doação, empréstimos, pré-venda, equity (equivalência) e este último está gerando um novo modelo de negócios de “Co-ownership”, ou seja, serem sócios daquilo que eles ajudaram a ser construído. Exemplo? Turbinas de energia eólica.

Por fim, Ronald falou sobre o crowdfunding como estratégia: de suporte, milhões de indivíduos advogando em favor da sua causa/projeto e passando sua ideia adiante; de lealdade do consumidor, o caso da livraria; de pesquisa de marketing, projetos que buscam a opinião e envolvimento do consumidor; e de acesso para patrocínios adicionais, se já tem algumas pessoas comprando minha ideia, significa que vai dar certo, então diminui o risco do projeto dar errado, dando mais segurança para o patrocinador (empresa) em te oferecer um patrocínio.

O que eu quero dizer com isso tudo é: existem outras possibilidades, favor pensar mais nelas. Façam diferente. Chega de mais do mesmo. O caminho é difícil, mas arrumar patrocinador nessa panelinha toda também não está fácil! Para pensar.

Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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