2- Altissimo valor tecnico e artistico 3D

Prólogo:

Pode um pai de família ser culpado pelos rumos das vidas de seus filhos?

Capítulo 1: Os personagens Tenenbaums

Em “Os excêntricos Tenenbaums”, o diretor Wes Anderson apresenta seus personagens como os de um livro vivo. É provável que essa relação literatura-cinema venha do fato de que a família Tenenbaum é assumidamente inspirada na família Glass, de J.D. Salinger (autor do famoso “O apanhador no campo de centeio”).

Dividido em um prólogo, oito capítulos e um epílogo, o filme nos dá uma família fortemente marcada pela ausência do pai, Royal (que no título original The royal Tenenbaums, de certa forma, dá nome ao filme), brilhantemente interpretado por Gene Hackman.

O roteiro, assinado por Anderson e Owen Wilson (que também interpreta o amigo da família, Eli Cash), sempre nos deixa na expectativa: nunca sabemos o que esses personagens farão em seguida. Tudo parece muito estranho e absurdo, sem perder a identificação com quem assiste.

Royal, o mais complexo desses personagens, chega a um ponto da vida em que quer redimir-se com a família a quem nunca deu a devida atenção e cuidado. Seus dois filhos, Chassie e Richie e sua filha adotada, Margot, crescem com deformidades (algumas físicas e outras psicológicas). E sua esposa, Etheline, acaba de receber uma proposta de casamento depois de passar 18 anos sem nenhuma relação sexual.

Apesar das surpresas constantes, nenhum dos personagens do filme é tão aprofundado pelo roteiro quanto o do pai. A maioria é composta por figuras mais superficiais, alguns chegando a servir apenas como contraponto para outros, como Raleigh St. Claire (Bill Murray), para a esposa Margot Tenenbaum (Gwynneth Paltrow) e Henry Sherman (Danny Glover), para o próprio Royal.

Capítulo 2: A estética Tenenbaum

Para além dos personagens, falar de Wes Anderson é falar de uma estética visual específica. Quem aí já viu mais de um filme do cara sabe bem do que estamos falando.

Com os “Tenenbaums” não foi diferente. Wes marca a sua obra de maneira bem clara com sua simetria nos enquadramentos:

Repare nos castiçais idênticos e seu posicionamento
Repare nos castiçais idênticos e seu posicionamento

Seus tons de vermelho:

E mais simetria!
E mais simetria!

E os movimentos de zoom ocasionais, que deixam uma cena que poderia ser dramática pender mais para o lado cômico. Posso citar como exemplo a cena em que Royal vê seus netos pela primeira vez se exercitando (sim, crianças se exercitando) em um trepa-trepa. Ali, o momento emocionante do encontro do avô com os netos, cai para a comédia quando a reação dos meninos é realçada por uma aproximação brusca da lente zoom.

E a estética vai para além do que se pode ver. Também está excelente e particular trilha sonora. Tudo isso contribui para que nada ali pareça “não excêntrico”. Uma vez nesse universo, não existe escolha: você mergulha de cabeça.

Capítulo 3: O Excêntrico Grande Hotel Tenenbaum

Doze anos depois de lançar “Os excêntricos Tenenbaums”, Wes dá a luz ao “O Grande Hotel Budapeste” (2014), que (e quem viu os dois filmes, sabe) nada mais é do que uma junção de elementos do filme de 2001 para a criação de uma trama nova. Ou não. Se você achar que tais semelhanças são meras coincidências, deixe um comentário argumentando.

Vamos a elas:

– Nosso protagonista vive em um grandioso hotel

Hotel em que Royal vive em "Os excêntricos Tenenbaums"
Hotel em que Royal vive em “Os excêntricos Tenenbaums”

Um hotel!

"O Grande Hotel Budapeste"
“O Grande Hotel Budapeste”

– Com elevadores antigos…

E funcionários com muito estilo!
5.2
E bota estilo nisso!

 

– Nosso protagonista tem um fiel escudeiro indiano

Royal e Pagoda
Royal e Pagoda
Zero e M. Gustave
Zero e M. Gustave

– Personagens loiras com alguma peculiaridade física

Margot Tenenbaum e seu dedo de madeira
Agatha e sua marca no rosto
Agatha e sua marca no rosto

Argumentos?

Epílogo:

“Os excêntricos Tenenbaums” não é o melhor filme de Wes Anderson, mas traz consigo algo que é universal e muito menos excêntrico do que parece.

Por baixo (pelos lados, por trás e pela frente) de todos esses aspectos Wesandersonianos, pulsa a jornada de redenção de um pai. Um homem que, quando finalmente entende o quanto a relação com sua família é importante para ele, faz com que os filhos também entendam que não se pode responsabilizar um patriarca pelos rumos que suas vidas tomaram. E sempre é tempo de se redimir.

Filme imperdível para toda e qualquer família, excêntrica ou não.

 

 

Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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