Diante dos últimos acontecimentos trágicos, no Brasil e no mundo, é impossível não revogarmos uma reflexão sobre as mídias e a maneira como elas noticiam essas histórias. E, principalmente, a maneira como cada vida, dependendo da sua procedência e identidade, parece ter um valor específico. Seria a nossa empatia um mecanismo seletivo e que valoriza a tragédia a partir de determinadas identidades?

Quando enveredei pelo campo de estudos das identidades, foi sabendo que essa construção ainda que do campo das ideias, consegue ser sólida e determinar destinos e o norte – que ironia! – da sociedade contemporânea. Os conflitos por etnia, nacionalidade, religião: todos identitários. A nossa capacidade de comoção pelo outro talvez siga a mesma lógica.

O processo de se identificar nem sempre acontece dentro de dinâmicas positivas para o mundo e as sociedades, senão não haveriam guerras e essa forte identificação com causas extremistas, terrorismo e toda a sorte de maldade que podem levar as pessoas, em nomes de suas crenças (identidades), a cometerem as maiores atrocidades.

Tento acreditar que essas maldades são motivadas pela falta de identificação com o outro, enxerga-se o outro como algo tão diferente e alheio, que se parte do princípio que ele não tem a mesma paisagem afetiva-emocional-sensorial. Talvez eu esteja sendo romântica e otimista, mas acredito que um só fere o outro, porque realmente acha que ele é outro e não sente o mesmo. Ainda acredita na identidade forjada: na própria e na alheia e, que se o sujeito conseguisse ter acesso a empatia, ao entendimento de que o outro sente, não haveria tanta maldade.

Diante disso, tenho uma confissão a fazer, não me orgulho dela, mas foi o que me fez perceber que talvez isso seja sintomático e esse sentimento talvez seja compartilhado. Acompanhando a tragédia provocada pela Samarco/Vale em Minas Gerais, confesso (e me envergonho) que não entendia a magnitude desse impacto na vida das pessoas, acredito que em algum momento eu não me identificava com essas pessoas: que vivem do rio, que respiram esse lugar, que tem alguma relação com essa terra que eu, erroneamente, acreditei não ser minha.

Lia as matérias muito a partir dos dados dos impactos ambientais, quanto tempo demoraria para despoluir, ou para limpar a cidade, quantos gramas, litros, ondas, lama, via números e não pessoas e vidas. Até que vi um vídeo dos pescadores emocionados recolhendo os peixes mortos… Isso começou a tocar o afeto, mas, não foi o bastante. E, só na semana passada, quando eu recebi as fotos da árvore da porta da casa dos meus pais sendo cortada, que eu pude ter uma vaga ideia do que deve e é ver o Rio Doce morto e toda a rota de destruição da lama tóxica.

O flamboyant que morava na calçada e floria na minha janela começou a apresentar riscos à estrutura da casa, por conta de sua raiz que entrou na base e no alicerce. Não havia outra solução que não fosse cortar a árvore. Autorização da prefeitura, plantio de outra árvore, obedecemos todos os tempos e trâmites legais para a remoção. No entanto, mesmo dentro dessa preparação, quando vi aquela árvore que eu só conhecia há 8 anos, em pedaços, foi impossível conter as lágrimas.

E, foi nesse exato e preciso momento que lembrei dos mineiros, do rio, dos peixes, dos dados que eu me fixava e que dessa vez só significavam que minha dor pela árvore ao lado dessas milhares de árvores, era apenas uma vírgula. Entendi/vislumbrei a dor do outro e me identifiquei com ela?

Muitos autores falam sobre a empatia com a dor do outro, Wittgenstein e Primo Lévy falaram sobre as dores da guerra e o que tinha de denominador comum nesses textos era a premissa de que é impossível nominar o inominável, descrever o indescritível, e que a dor é só de um. Que a identificação com a dor do outro é limitada… Teríamos que experimentar para saber ou a empatia é possível e um exercício?

Muito se falou nas redes sociais sobre os atentados de Paris x a tragédia de Minas. Teria um mercado de valor implícito na nossa capacidade empática?

Para essa reflexão e para um exercício de empatia, os deixo um dos textos mais potentes que já li. Do autor português Fernando Correia Pina.

 

Saldo Negativo

Dói muito mais arrancar um cabelo de um europeu que amputar uma perna, a frio, de um africano. Passa mais fome um francês com três refeições por dia que um sudanês com um rato por semana.
 
É muito mais doente um alemão com gripe que um indiano com lepra. Sofre muito mais uma americana com caspa que uma iraquiana sem leite para os filhos.
 
É mais perverso cancelar o cartão de crédito de um belga que roubar o pão da boca de um tailandês. É muito mais grave jogar um papel ao chão na Suíça que queimar uma floresta inteira no Brasil.
 
É muito mais intolerável o xador de uma muçulmana que o drama de mil desempregados em Espanha. É mais obscena a falta de papel higiênico num lar sueco que a de água potável em dez aldeias do Sudão.
 
É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda que a de insulina nas Honduras. É mais revoltante um português sem celular que um moçambicano sem livros para estudar.
 
É mais triste uma laranjeira seca num kibutz hebreu que a demolição de um lar na Palestina.
 
Traumatiza mais a falta de uma Barbie de uma menina inglesa que a visão do assassínio dos pais de um menino ugandês e isto não são versos; isto são débitos numa conta sem provisão do Ocidente.
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Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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