Um futuro que vale a pena visitar

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Vou te falar, não sei se é impressão minha, mas a maioria das ficções científicas atuais são cópias baratas de 1984, de George Orwell. Distopias cinzentas de sociedades divididas, à mercê de um sistema que controla tudo e a todos. O que sobra é puxado mais pro apocalíptico. Recentemente teve a tentativa de fazer algo utópico com o Tomorrowland, do diretor Brad Bird, que acabou num clichê previsível e incoerente. Utópico, distópico, a verdade é que o futuro tem sido meio chato nas diversas mídias.

Por isso é muito bom e refrescante o sopro de novidade da premiada HQ The Private Eye, de Brian K. Vaughan (roteiro) e Marcos Martin (desenho). Essa sim mostra um futuro intrigante, que não é nem abominável nem paradisíaco. É apenas esquisitão. Assim, como nosso presente, uma mistura quase indiscernível de progresso e retrocesso. Dá só uma olhada no estilo da Los Angeles de 2075, com carros flutuantes retrô, fantasias extravagantes e arquitetura que mistura retas e curvas:

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The Private Eye está disponível online pelo preço que quiser, até $0.00. E com tradução!

O que você vê aí é um mundo pós-apocalíptico; só que o apocalipse aqui não foi um desastre ecológico ou uma guerra nuclear — longe disso —, foi o fim da internet. Pouco é falado no quadrinho sobre o que aconteceu. Só se sabe que um belo dia a nuvem contendo todas as informações pessoais do planeta inteiro estourou, e vazamentos de dados viraram rotina. De repente, todo mundo sabia o que o vizinho tinha pesquisado no Google e todas as compras que havia feito online.

Não havia mais segredos. As pessoas agora viam o pior de si exposto. A sociedade não aguentou, e toda ordem conhecida foi pro espaço. Quando a humanidade voltou a se estabelecer, a internet passou a ser vista como uma maldição e foi encerrada de vez, junto com celulares e outros aparelhos digitais. Agora a palavra de ordem deixou de ser compartilhamento e virou privacidade. O que nós temos em The Private Eye é uma sociedade tão traumatizada com a exposição de sua vida pessoal que passou a usar identidades secretas para sair à rua. Por isso todas as pessoas andam fantasiadas.

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O vovô do futuro tem tatuagem e adora seu smartphone inútil.

A informação passou a ser algo tão importante que a imprensa passou a fazer parte do Estado, como o Quarto Poder. E não só divulgando as notícias, mas agindo com poder de polícia. (Bem, acho que é impossível fugir completamente do tio Orwell.) Os jornalistas são treinados tanto em comunicação como em combate e portam pistolas que atiram tinta! É incrível! Eles até usam sobretudo e chapéu como uniformes.

E nessa sociedade de segredos bem guardados, em que a imprensa age como polícia, o tipo de gente mais indesejada é o paparazzi, um transgressor da privacidade e sinônimo de detetive particular. O personagem principal, conhecido pela alcunha de PI, é um paparazzi. Ele trabalha investigando paradeiro de pessoas, identidades secretas, casos extraconjugais. Um dia acaba se envolvendo num trabalho que se torna, como em quase todo noir, muito maior e mais perigoso do que parecia. Um caso que envolve assassinatos e um grupo contra a política de privacidade.

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Jornalista armado com sua pistola de tinta, enfrentando o que parece ser… o Pac-man?

Falando desse jeito, parece bem um mundo horrível e autoritário. Mas saca só. O fim da internet permitiu a humanidade finalmente focar em seus problemas. Não há só carros voadores. Há também invenções que permitem a cura rápida de ferimentos e doenças, transporte público avançado, desenvolvimento da engenharia, redescoberta do livro impresso e mídias tradicionais, e valorização da rua e dos espaços públicos (as calçadas e parques sempre aparecem movimentadas na história).

A possibilidade de usar máscaras — e a ausência de vigilância — permite as pessoas buscarem fora de suas casas aquilo que antes procuravam na internet com um avatar: ambientes onde podem falar o que quiser, fazer sacanagem de todo tipo e investir em qualquer outro interesse. O clima de prosperidade e liberdade é simbolizado nas HQs pelo céu. Se reparar, fora umas 2 ou 4 páginas, nunca há uma nuvem no céu. É um símbolo bem direto para a claridade que o fim da “nuvem” da rede trouxe.

A própria centralização da informação tem a sua vantagem. A imprensa em The Private Eye é regulada. Coisa que aqui no Brasil, e na maioria dos países, não é. Basta ligar a TV de tarde para ver um repórter violar os direitos humanos em algum noticiário policial. Ou abrir um site que se diz jornalístico e ter como manchete “Kim Kardashian sai na rua sem maquiagem”, ou ver no Buzzfeed “10 razões para ser fã do Justin Bieber”.

O Quarto Poder da HQ rejeita a espetacularização. Há uma cena em que uma jornalista novata está tirando foto de um homem morto com tiro na cabeça. Ela sugere que a foto fosse de primeira capa. Um colega mais experiente a descarta na hora, e nem considera a possibilidade de amenizar a imagem com preto e branco ou outro recurso. Essa seria uma imprensa que não usaria o sofrimento de refugiados para ganhar audiência, nem usaria a violência urbana para fazer campanha a favor da diminuição da menoridade penal, por exemplo.

novataThe Private Eye é, sobretudo, uma história sobre a responsabilidade que a informação carrega. Hoje, as informações transitam pela rede muito mais rápido do que nós seres humanos podemos processar. E nós simplesmente deixamos a coisa correr solta. Qualquer caso de vazamento de fotos pessoais ou demonstrações de ódio e preconceito são tratados como casos isolados. E não se esqueçam do compartilhamento de informações falsas e incorretas que acabam em desastres, como a mulher que foi linchada até a morte após ser confundida com um retrato postado no Facebook. Além da monopolização do mercado feita por empresas como Google e Amazon.

A internet é legal? Com certeza! É ela que me deu acesso a The Private Eye, afinal. Mas é inegável que ela está tomando conta da nossa vida. Brian K. Vaughan e Marcos Martin não querem demonizar a internet, mas incitar uma postura crítica. Eles nos dão um gostinho do que nós estamos perdendo, há um ar inegável de nostalgia nas páginas. Mas também é mostrado o risco da tendência humana de trocar um extremo pelo outro — a exposição e vigilância da vida privada pela privacidade paranoica.

De resto, é perseguição, mistério, vilões com planos mirabolantes, tiroteio, porrada, referências pop e a maravilhosa e elegante arte de Marcos Martin.

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Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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