Antes de iniciar lanço uma pergunta: esse filme é do Wes Anderson?

Continuando a celebração de 1 ano de TagCultural e o desafio entre colunistas, chegou a minha vez de mostrar meu ponto de vista em torno de Wes Anderson, muito bem estudado pelos meus companheiros de site. Red deu um ótimo pontapé inicial fazendo uma análise sobre empreendedorismo. Contudo, hoje vou abordar um pouco sobre algumas características que o tornam único. A parte visual e musical – que também são adjetivos do cineasta – ficaram a cargo de Aldene e André. O que vou expor são alguns elementos que caracterizam sua assinatura.

O que mais me chama atenção na curta filmografia de Wes Anderson é sua ascensão enquanto diretor, seu domínio sobre a técnica e o crescimento artístico. Ao analisar alguns cineastas, vemos sempre um início duvidoso, amador e, às vezes, um pouco medíocre . Poucos são os diretores que desde o primeiro filme já anunciam detalhes que mais tarde farão parte de sua assinatura e uma identidade cinematográfica já estabelecida. Quentin Tarantino e Pedro Almodóvar são cineastas que impuseram suas marcas registradas desde o início de suas carreiras. Wes não tem um pior filme depois de um ótimo, suas produções ganham cada vez mais qualidade e incorporam uma unidade narrativa coerente.

Tudo o que vemos em Rushmore (primeiro longa metragem de Wes) é facilmente encontrado em seus demais longas. Se pegarmos qualquer filme e o analisar tecnicamente, veremos a utilização das mesmas técnicas e um domínio imagético. Para esse especial vou utilizar The Life Aquatic with Stevie Zissou, o terceiro longa do diretor, para que os leitores entendam sua assinatura e a compreensão da identidade andersoniana. Para entender melhor, vou falar de algumas de suas características.

The Life Aquatic

Casting: Em geral, seus filmes contam com um grupo de atores, mesmo que em pontas ou figuração como: Bill Murray, Owen e Luke Wilson, Anjelica Huston, William Dafoe, Harvey Keitel e Jason Schartzaman (entre alguns outros). The Life Aquatic tem 4 da lista. E muitas vezes narrado por Alec Baldwin.

Planos: os planos têm a ver com a simetria, que é outro tópico. Todos os planos convergem num mesmo objetivo: criar teatralidade e mostrar um ponto de vista panorâmico da mise-en-scène. Sim, Titio Wes é desses. Ele se preocupa com o desenvolvimento do personagem e o desenrolar da ação. Sobretudo, em como seus personagens vão desencadear cada ação. É como se a câmera acompanhasse os personagens. Para isso, utilizam-se planos gerais, planos sequências, tilts, slow motion, gruas e, o meu preferido, travelling ou tracking shots. Este último consiste em acoplar a câmera num doly ou trilhos e empurrar criando a movimentação. Há também uma variante muito utilizada por Wes, em que ele coloca a câmera em um tripé no meio de um cenário em círculo, assim ele apenas movimenta a plataforma deixando a câmera parada e o cenário mudando.Vamos à essa cena na qual Steve Zissou (Bill Murray) apresenta seu barco, o Belafonte. O cenário é montado como uma maquete e a câmera passeia pelos distintos compartimentos do mesmo, esse tipo de cena em sequência e em distintos níveis foi rodado em uma grua. E depois veja o comercial para o American Express todo em plano sequência e em tracking shot, finalizando em uma grua.

Perceberam o movimento da câmera? Perceberam a maquetização da cena? O cenário? Não lembra um espetáculo teatral? Esse é um dos pontos principais na assinatura de Wes Anderson. A continuidade, a movimentação da câmera e dos personagens. Comumente eles entram no quadro ou a câmera acompanha seus movimentos. Esse tipo de movimentação e plano está presente em todos os trabalhos do diretor. Ficou interessado em ver mais comerciais dele? Clique aqui.

Simetria: já que a mencionei, por que não emendar? Não preciso falar muito sobre esse tópico, é só para vocês saberem que os filmes de Wes Anderson são centralizados. O que cria uma imagem fotográfica, além de dialogar com os demais elementos da assinatura, como os planos. Mais uma prova que Titio Wes é um perfeccionista e se preocupa com os mínimos detalhes. Não acredita na centralização? Confere esse vídeo aqui.

Colorização: planos, simetria, colorização tudo isso faz parte de um mundo chamado cinematografia. E por que é que Wes Anderson é indicado a prêmios técnicos? Por seu cuidado com esse elemento tão importante. Além disso, posso ressaltar uma questão marcante na fotografia de seus filmes: a paleta de cores. Ainda que cada produção, com sua especificidade e características próprias (como a trama) apresentem uma colorização distinta, os longas de Wes apresentam uma paleta de cores que intensificam ou não. O caso do amarelo e do azul que são utilizados de formas distintas.

df

Os dois primeiros longas do cineasta Rushmore e The Royal Tenembaums têm suas paletas próximas, o que influencia a colorização. Já nosso filme exemplo The Life Aquatic, utiliza o azul do mar e do uniforme, contrastando com alguns pontos em cores quentes (como o vermelho e amarelo) e a imagem amarelada. Em The Darjeeling Limited e Moonrise Kingdom podemos ver mais presença do amarelo, tanto na arte quanto na fotografia. Seu último filme, tem uma paleta com tons próximos ao rosa, violeta, vermelho e roxo. E é claro que a colorização acentuaria essas cores.

De fato, o primeiro vídeo não se trata de um filme de Wes Anderson nem o que vem a seguir, mas sim uma brincadeira com os arquétipos de personagens, da narrativa e estética do diretor. Um dos fatores que tornam Wes Anderson um cineasta de talento e sucesso é o fato de aprender com os erros e aprimorar sua técnica. Vi 99% de suas produções (só não vi Fantastic Mr Fox) e a cada longa ele melhora e aprimora. Diferentemente de muitos cineastas, ele tem uma filmografia consistente e estável, sempre a melhorar. Lembro-me de quando vi Moonrise Kingdom pensei: “É seu melhor filme, dificilmente vai superar.” E logo, lançou The Grand Budapeste que é – até agora – sua obra-prima.

 

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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