E se o meu mundo se resumisse a uma obra de arte? Eu estaria devastado para o bem e para o mau.

A arte nunca quis propor questões que tratassem de problemas sociais. Ideias é que mais se aproximam da arte, não necessariamente o contrário. Quando um trabalho artístico é feito, devemos entender que tanto o artista quanto os materiais que fazem parte dele são responsáveis por dar uma vida inicial, mas não para mantê-la.

A obra de arte é um campo aberto nesse sentido. No instante em que nasce, se desprende de qualquer evidência de seu “criador” e parte para o mundo. A obra nada mais é que uma resposta estética (ou não, dependendo do caso) de uma questão inicial, um problema.

Alyssa Monks - Want, 2010.
Alyssa Monks – Want, 2010.

É claro que esse problema pode vir como uma pergunta e que resulta em uma resposta para o artista. Nesse sentido é uma resposta abstrata que surge da obra. É nisto que está o cerne da obra de arte, uma resposta que não tem fim. Abstrata em sentido e concreta em solução.

Quase como se na frase da obra artística encontrássemos reticências para dar continuidade ao que vemos.

Alyssa Monks - Fixation, 2010.
Alyssa Monks – Fixation, 2010.

Parece abstrato relacionar uma frase com algo visual onde está inserida a arte, mas vou explicar o que digo. Veja por esse lado: se eu te pergunto “onde está o copo com água?”, você vai me responder o local onde se encontra ou me dar uma negativa, “não sei” ou “em cima da mesa”. Daí eu concluo na minha cabeça a solução que precisava com a resposta de onde estaria o copo com água.

Na arte funciona na mesma maneira, tenho um conceito (ideia) e tento criar algo que responda visualmente o que penso. Sendo uma solução ou outra pergunta para o que criei. Se a resposta do copo (na arte) foi “não sei”, parto para outra busca visual, outra obra. Claro que, se criei uma obra de arte, não vamos pensar que vou deixar ela sempre pronta para eu sobrepor obras nela, mas vou gerar outras que possam solucionar aquilo que me falta. Assim, uma obra é um caminho múltiplo de respostas.

Cada um cria a sua e permite que quem olhe possa gerar outras perguntas em cima daquela resposta visual.

Alyssa Monks - Tell, 2011.
Alyssa Monks – Tell, 2011.

Simples, se você me disse “não sei”, outra pessoa vem respondendo que foi deixada dentro da geladeira e por ai vai. Uma resposta nunca finaliza a possibilidade infinita de questionar. Sempre há respostas para outras perguntas e outras respostas trazendo novas soluções. Pensando em perguntas é fácil, pois a cada réplica traz um novo caminho que nunca termina.

No entanto, germinar questões traz problemas e elucubrações no espectador desavisado. Podemos cair em discursos infinitos e sem sentido. Discutir sobre o por que determinado artista criou tal obra, pode ser perigoso e ficar em um looping sem sentido. Enfim, discutir arte pode ser uma longa e contínua história.

Alyssa Monks - The Race, 2013.
Alyssa Monks – The Race, 2013.

Por tanto, se uma obra resumisse meu mundo eu estaria bem. Seria múltiplo conceitualmente e vivo visualmente. Questionaria quem me olhasse e não teria medo de expor as ideias que apresento.

Resumir ou concluir sua vida à uma obra permite questionar o viver em um olhar diversificado. Perceber que cada instante vivido pode sim trazer respostas para aquilo que nos falta. Experimentar na pergunta do outro o que pode ampliar as descobertas do seu cotidiano.

Assumo que ainda não sei qual obra de arte poderia resumir a minha vida, mas sei que ela me permite ir além do que um simples manifesto ou a efemeridade de um copo cheio de água.

Alyssa Monks – Pause, 2013.

 

* Obras da artista Alyssa Monks, pintora hiper realista.

Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

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