A função de crítica de arte não nasceu para agradar a todos. Como é uma análise pessoal do autor é tida como um texto de opinião e destoa de qualquer tradicional matéria jornalística – que preza no ouvir dos dois lados da história. O crítico de arte tem a função de “levar” a arte a quatro cantos e exaltar aquele que, muitas vezes, cai em esquecimento: o artista. Ele que se doa de corpo e alma para nos mostrar o resultado de sua exaustiva rotina de ensaios, dores e dedicação. O crítico dá sentido, emite pareceres, analisa e manifesta, de acordo com conhecimento e gosto, opiniões sobre a peça apresentada a ele. Diante destes “mandamentos” trago um pouco mais sobre minhas experiências na última noite competitiva do 33º Festival de Dança de Joinville.

A noite começou com muito barulho e agitação. Sim, era “o Maniacs que chegou”. O grupo Maniacs Crew – de Joinville, Santa Catarina – trouxe a história do Hip Hop no palco, tendo uma visão do macro para o micro. Começou com o clássico programa de TV estadunidense “Soul Train” e com a “Soul Train Line” que trazia o melhor do Locking e Popping. Uma ideia super original e que até hoje ainda não tinha sido apresentada nos palcos. Após essa rápida abertura, os bailarinos encenam a história do Hip Hop no Brasil com a Estação São Bento e muito breaking. Michael Jackson e as famosas “rodas de batalha” também estiveram presentes na coreografia “1974”. O grupo veio com muitos bailarinos em cena, o que dificultou um pouco as trocas de posições e resultaram em alguns esbarrões. Apesar disso, apresentaram boa técnica, bom domínio corporal e bom uso de palco. O público agradeceu a festa com muitos aplausos em reconhecimento ao trabalho do grupo. O Maniacs conquistou o 2º lugar em Danças Urbanas, conjunto, categoria sênior.

Maniacs Crew - "1974". Crédito: Mauro Artur Schlieck. Divulgação / Festival de Dança de Joinville
MANIACS CREW (SC) – “1974”. Crédito: Mauro Artur Schlieck. Divulgação / Festival de Dança de Joinville
MANIACS CREW (SC) - "1974". Crédito: Mauro Artur Schlieck. Divulgação / Festival de Dança de Joinville
MANIACS CREW (SC) – “1974”. Crédito: Mauro Artur Schlieck. Divulgação / Festival de Dança de Joinville

Na Dança Contemporânea, solo feminino, categoria júnior, o Ballet Margô Brusa – vindo de Caxias do Sul, Rio Grande do Sul – apresentou a coreografia “Electrão de Valência”. A bailarina Natalia Colombo dançava com um som de uma folha de alumínio. Isso mesmo! Sabe aquela brincadeira que fazíamos de balançar um serrote para escutar o trovão? Então, esse era o som! No palco, havia outra folha dessa, com uma câmera presa na ponta e que filmava a movimentação da bailarina e a projetava no fundo do palco, ao vivo. Depois de um certo tempo, o ao vivo alternou-se para o gravado. Foi quando começou a trilha ao som do “trovão”. A técnica de Natalia era incrível! Passos limpos e tinha muita maturidade. Em alguns pontos da coreografia, ela parecia imitar a movimentação da folha na projeção. Uma ideia muito original e que garantiu o 2º lugar no gênero.

ALLET MARGÔ BRUSA (RS) – “Electrão de Valência”. Crédito: Diego Redel. Divulgação / Festival de Dança de Joinville

Também em Dança Contemporânea na categoria duo, sênior – o Studio de Dança Pio X – de Jundiaí, São Paulo – ao meu ver trouxe uma coreografia arriscada. “The Black Dog” trazia duas bailarinas no palco uma de branco e outra de preto – simulando uma espécie de sombra – que dançavam em conjunto com a projeção da coreografia no fundo do palco. Digo, arriscada pois a sincronia tem que ser impecável, visto que a mesma dança está sendo encenada atrás e que se estivesse em tempo errado o “efeito” da projeção perderia o sentido. Ainda bem que deu tudo certo! As bailarinas Flávia Nastari e Julia Iwanaga deram um show de dança e tecnologia em palco. A ideia não é original, mas, se bem usada causa um efeito legal na dança. O duo obteve o 3º lugar na categoria.

STUDIO DE DANÇA PIO X (SP) – “The Black Dog”. Crédito: Mauro Artur Schlieck. Divulgação / Festival de Dança de Joinville

Nas Danças Urbanas, solo masculino, categoria sênior dois grupos me chamaram a atenção: o Vini Azevedo e a Companhia de Dança Millenium. O bailarino Vinicius Azevedo trouxe a coreografia “O que dá ao homem o mínimo de unidade interior é a soma de suas obsessões” e que não deixa de ser verdade. Vinicius com o auxílio da coreógrafa Tati Sanchis, trouxe uma técnica impecável – e de dar inveja – junto com um ótimo isolamento corporal, auxiliando na limpeza e precisão dos movimentos. O ápice da dança, foi o waving apresentado por ele onde víamos cada músculo se mexendo por vez. O reconhecimento da dança de Vinicius veio nos aplausos e na premiação de 1º lugar.

VINI AZEVEDO (SP) - "O que dá ao Homem o Mínimo de Unidade Interior é a Soma de suas Obsessões". Crédito: Mauro Artur Schlieck. Divulgação / Festival de Dança de Joinville
VINI AZEVEDO (SP) – “O que dá ao Homem o Mínimo de Unidade Interior é a Soma de suas Obsessões”. Crédito: Mauro Artur Schlieck. Divulgação / Festival de Dança de Joinville

A Companhia de Dança Millenium participou do festival através do bailarino Tiago Montalti. A coreografia “Passagem do Tempo” trazia uma espécie de portal de rejuvenescimento no palco. Tiago representava um idoso que ao passar pelo portal ficava jovem de novo e, pelo jeito, na sua juventude dançava – e muito – Hip Hop. O bailarino apresentava boa técnica, bom uso de palco com os desenhos e transições coreográficas, bom isolamento corporal e precisão nos passos. A coreografia também foi de sua autoria. “Passagem do Tempo” ganhou o 2º lugar no gênero.

COMPANHIA DE DANÇAS MILLENNIUM (SC) – “Passagem do Tempo”. Crédito: Mauro Artur Schlieck. Divulgação / Festival de Dança de Joinville

E por último, mas não menos importante, o destaque da noite vai para o grupo Avulsos de Blumenau, Santa Catarina. Para quem não sabe, esse grupo surgiu de algumas integrantes do antigo grupo GAP também de Blumenau. Para mim, a expectativa de ver esta coreografia era grande pois já havia um grande movimento nas redes sociais com a hashtag #vemZeca, por parte do grupo e alguns amigos. O movimento era para trazer o protagonista da ideia da coreografia: o cantor Zeca Baleiro. Em “Ô Zeca” os bailarinos dançavam só com músicas de autoria do cantor e a motivação da campanha nas redes era trazer Zeca para cantar, ao vivo, no palco do Centreventos Cau Hansen. Infelizmente, não foi possível pois o cantor já tinha show na mesma data. Mas ele não deixou de dar apoio para os integrantes, e através de um vídeo mandou um recado de agradecimento ao grupo. O grupo Avulsos deu um show de técnica, sincronia e precisão no palco. O figurino e cenário eram simples, mas que combinaram com a simplicidade da coreografia. Simples não quer dizer que seja fácil, viu? Os passos eram bem fluídos e com um nível considerável de dificuldade de execução. O ponto alto foi quando os bailarinos saíram do palco com flores e entregaram a plateia. Além disso, dançaram ali, bem pertinho e próximo ao público. Com certeza, este foi um grande fator contribuinte para a medalha de ouro no gênero.

AVULSOS (SC) - "Ô Zeca".
AVULSOS (SC) – “Ô Zeca”. Crédito: Mauro Artur Schlieck. Divulgação / Festival de Dança de Joinville

Lembrando que hoje, os campeões – que conquistaram o 1º lugar – de todas as categorias e também os vencedores nas premiações especiais voltam ao palco para estrelar a Noite dos Campeões do 33º Festival de Dança de Joinville. Para quem não está em Joinville e quiser assistir, a apresentação será transmitida ao vivo pelo canal de Youtube do Festival, basta clicar aqui para acessar. Deixo meus parabéns a todos os grupos que participaram das noites competitivas e até ano que vem!

 

Confira o resultado da última noite competitiva:

DANÇA CONTEMPORÂNEA – CONJUNTO – JÚNIOR
2° LUGAR: CIA DE DANÇA KAHAL (SP) – Meu Norte, Você!
3° LUGAR: BALLET MARGÔ BRUSA (RS) – ArvisivelDANÇA CONTEMPORÂNEA – DUO – SÊNIOR
1° LUGAR: ESPAÇO ARTÍSTICO – NICOLE VANONI (PR) – Suspenso
2° LUGAR: INSTITUTO DE ORIENTAÇÃO ARTÍSTICA (SP) – O Peso de si Mesmo
3° LUGAR: STUDIO DE DANÇA PIO X (SP) – The Black DogDANÇA CONTEMPORÂNEA – SOLO FEMININO – JÚNIOR
2° LUGAR: BALLET MARGÔ BRUSA (RS) – Electrão de Valência
3° LUGAR: GRUPO MERY ROSA (SC) – Quando eu Refletir
3° LUGAR: CIA DE DANÇA KAHAL (SP) – EndógenaDANÇA CONTEMPORÂNEA – SOLO MASCULINO – JÚNIOR
2° LUGAR: CIA DE DANÇA KAHAL (SP) – Eu-Lírico
3° LUGAR: BALÉ JOVEM DE SÃO VICENTE (SP) – IdemDANÇAS URBANAS – CONJUNTO – SÊNIOR
1° LUGAR: AVULSOS (SC) – Ô Zeca
2° LUGAR: MANIACS CREW (SC) – 1974…
3° LUGAR: STREET EXTREME CIA DE DANÇA (PR) – Sobre ser IntensoDANÇAS URBANAS – SOLO MASCULINO – SÊNIOR
1° LUGAR: VINI AZEVEDO (SP) – O que dá ao Homem o Mínimo de Unidade Interior é a Soma de suas Obsessões
2° LUGAR: COMPANHIA DE DANÇAS MILLENNIUM (SC) – Passagem do Tempo
3° LUGAR: EXPERIMENTAL DO BALLET MARGÔ (RS) – Osteócitos

 

Foto de capa: AVULSOS (SC) – “Ô Zeca”. Crédito: Mauro Artur Schlieck. Divulgação / Festival de Dança de Joinville

Michelle Braga
Jornalista formada pelo Bom Jesus/IELUSC em Joinville (SC). Especialista em crítica de dança e jornalismo cultural. Foi bailarina de ballet clássico, jazz, danças populares e danças urbanas.

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