“This is the true story… about seven strangers… picked to live in a house… work together and have their lives taped, and find out what happen… when people stop being polite, and start to get real.”

 

Com essas frases éramos apresentados aos participantes desta novidade na TV norteamericana. Nos anos 90, a então transgressora MTV, lançou algo que está no ar há 29 temporadas: The Real World. Ainda que continue no ar, a importância do programa se diluiu ao longo dos anos, quando a proposta inicial de justamente descobrir o que pode acontecer quando 7 jovens de distintos lugares e culturas têm que compartilhar uma casa, é trocada por pegação e brigas. Discutir as diferenças culturais e colocá-las na TV era algo considerado novo, ainda se tratando de uma documentação da vida real numa época em que a internet não tinha força, muito menos a discussão da vida real.

A primeira ideia de reality show nasceu com An American Family nos anos 70, documentava o cotidiano de uma família americana, no ar pela PBS (Public Broadcast Services). Na TV atual há uma profusão de produções realities e destas nascem novas tipologias narrativas que exploram o hibridismo de gêneros: entretendo, informando ou os dois juntos. Vamos entender melhor,  lembrando que (ainda) não irei criticar, apenas analisar. Vou utilizar dentro do mundo reality o gênero docu-tainment, que é de natureza informativa porém, com temas de puro entretenimento (e na maioria das vezes, demasiado sensacionalista). Com este tenho múltiplos exemplos de ramificações que os ajudarão a entender melhor a profusão dos realities shows na TV e seu hibridismo. A começar por um bem conhecido: o docu-soap.

Docu-soap

Programa documental com narrativa novelística (ou dramática). Vamos entender à partir de um bloco de uma novela. E para configurar isso, Celebridades. Acredito que todos conhecem ou se lembram.

Os acontecimentos desse bloco configuram perfeitamente o formato narrativo de uma novela. Vou enumerar os acontecimentos, atenção em minha numeração de movimentos dos personagens:

  • 1. A produtora Maria Clara conversa com seu namorado acerca do evento que vem a seguir.
  • 2. O jornalista Renato Mendes reclama do seu lugar no evento.
  • 3. Imagens do show (para ambientar o espectador)
  • 4. A assistente de Maria Clara a reporta o que ocorreu com Renato Mendes previamente e conversam sobre uma possível solução para a tal confusão.
  • 3. Imagens do show (reportando).
  • 2. Outra assistente de Maria Clara tenta reparar a confusão com Renato Mendes e ele responde a ela.
  • 5. Cenas do Rio de Janeiro com passagem de tempo (para situar os espectadores de uma mudança de local e tempo).
  • 6. Laura pergunta sobre a entrevista de emprego na empresa de Maria Clara.
  • 7. Maria Clara conversa com seus assistentes sobre a crítica de Renato Mendes do show que ocorreu em SP com medo que isso influencie a bilheteria do show no Rio de Janeiro e encontra uma solução e dá direcionamentos aos seus assistentes (o público nao sabe o que ela vai fazer).
  • 6. Laura finaliza sua entrevista de emprego
  • 7. Maria Clara conversa com seus assistentes sobre as demais críticas do show, assistente de Maria Clara encontra algo nos classificados que pode ajudar no seu plano.
  • 8. Renato Mendes lê no jornal uma publicidade de Maria Clara com seu nome e sai de seu escritório com raiva.
  • 9. Jaqueline procura por um tio que trabalha na revista.
  • 8. Renato Mendes chega ao escritório de Maria Clara e a ameaça, ela faz o mesmo. Descobrimos qual era seu plano.
  • 10. Laura espera o resultado de sua entrevista com outras candidatas. Ela não consegue a vaga e chora, chamando a atenção de uma das assistentes de Maria Clara.

Depois dessa descrição, analisemos um bloco de um episódio de Say Yes To The Dress, que narra a história de noivas em busca de um vestido perfeito:

  • 1. Imagens do local, situando os espectadores.
  • 2. Narrador em off, apresentando a primeira noiva. Ela conta sua história e o que deseja do vestido. O noivo dá um limite de orçamento. A noiva escolhe o primeiro vestido para provar, que está acima do orçamento. Ela gosta, mas seus familiares não.
  • 3. Narrador apresenta a segunda noiva. Ela conta sua história e o que deseja do vestido. Os consultores escolhem os vestidos para ela provar. Ela gosta, mas suas amigas e família não.
  • 4. Intervalo.

São histórias reais, documentadas e montadas de acordo com a narrativa ficcional. Percebem? A montagem intercala distintos núcleos, apresentam o fator conflito e sua resolução convergindo até o final do episódio com o casamento (ou não). Certamente terão muitos outros exemplos para adicionar aqui. Ainda podemos relacionar dentro do gênero docu-soap com o gênero celebrity shows, que é o mais utilizado nos últimos tempos. O precursor foi The Osbournes (mais uma vez a transgressora MTV). Depois disso, vieram muitos como Keeping Up with The Kardashians, The Girls Of The Next Door, Tori Spelling, Canddily Nicole e mucho más.

Fora do docu-tainment, existe um docu-soap de fato interessante. Algo que os britânicos fazem muito bem. Deixo um exemplo, de uma produção que pode enganar o espectador pela quantidade, enquadramento e qualidade das câmeras e cortes, que dão a impressão de um produto ficcional:

Este tem a estrutura de um docu-soap, por excluir o sensacionalismo e a futilidade não é um docu-tainment.

Docu-reality

O cast é colocado numa situação distinta para mostrar como pode ser o comportamento num ambiente distinto. Como o irmão do The Real World, Road Rules (o segundo produzido pela MTV). Um reality de viagens, a produção tirava todo o dinheiro de 5 jovens e os colocavam em um furgão a viajar e completar missões em troca de recompensas. Este gênero pode ser um certo problema para a produção, pois se tratando de pessoas reais em uma documentação real, não se tem controle sobre seus comportamentos. O melhor exemplo que temos é o Big Brother, pois cruza uma linha de mescla de gêneros que prova o hibridismo dos programas televisivos atualmente. Este trata-se também de um reality game e de um reality de reclusão (ou confinamento).

Outros gêneros realities:

  1. Coaching:  Ex.1: Socorro! Meu filho Come Mal!, do GNT. Uma nutricionista auxilia pais a melhorarem a alimentação de seus filhos. Ex 2. Kitchen Nightmares, o chef britânico Gordon Ramsay analisa a administração de restaurantes à beira da falência e ajuda os donos a recuperarem o negócio com dicas e mudanças comportamentais.
  2. Makeover Reality: Ex.1: Esquadrão da Moda, modelo vendido por todo mundo, no Brasil no ar no SBT. Uma dupla de stylist mudam o look de uma pessoa que não tinha noção de moda. Há elementos de coaching, uma vez que lhe é ensinado a ter estilo.
  3. Dating: Ex.1: The Bachelor, programa de encontros amorosos em torno de um solteiro. Ex. 2. Adan y Eva, homens e mulheres em busca de um amor, em uma ilha e…. todos pelados.
  4. Docu-game: Ex.1: RuPaul and The Drags Race, um transformista faz uma competição entre drag queens. Ex.2: Top Chef,  competição de culinária. Ex.3. America’s Next Top Model, Tyra Banks busca a nova modelo através de uma competição.
  5. Aventura: Ex.1 Nalu Pelo Mundo, do Multishow. Uma família  registra suas aventuras com a filha pequena, Nalu.
  6. Mescla de Reality Game com Talent Shows: Ex.1.: American Idol, músicos competem para ver quem será o mais novo nome da música. Ex.2: The Most Intelligent Model in America, um grupo de modelos em confinamento, provam que são mais que rostinhos bonitos.

Ainda temos infinitos desdobramentos, mas acho que já deu para ter uma ideia da profusão de gêneros e subgêneros, formatos e mesclas que realities podem ter. Agora todas as vezes que tiver que falar sobre um reality show, não se atenha a apenas essa nomenclatura, pois esta já não é suficiente para definir. É como quando alguém pergunta a outra seu estilo de música, e a mesma responde: Rock. Ok, mas qual ramificação dele? Uma pessoa que curte grunge, pode não curtir heavy metal. E ambos são rock.  No Brasil, ainda há poucos, realities, e em sua maioria são modelos importados. Porém na TV americana e europeia, os realities tomam conta da programação. Para mais peculiaridades Ellen DeGeneres tem umas dicas:

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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