Foto: Dimitris Kolyris

Saudações novamente meu povo! Otimistas com as previsões que fizemos no último post? Que bom, porque hoje confirmamos o ritmo começado há 15 dias! Tomara que ele continue firme e forte.

Dando prosseguimento à nossa investigação musical, quem melhor pra discutirmos do que ela, a grande protagonista da música? Aquela que por (muitas) vezes recebe o status, sozinha, de música! Aquela que foi e é usada tantas e tantas vezes por leigos e entendidos como muleta para seus próprios preconceitos sociais musicais! Ela que quando é “feia”, torce altos narizes e que quando “não existe”, é capaz de despertar o mais puro ódio! É claro que estamos falando dela: a famigerada Melodia! Mas será que ela pode mesmo ser feia? Ou simplesmente não existir?

 yes no idk

 

Você não sabe mais em quê acreditar? Todos aqueles posts subjetivos fizeram você não ter certeza de mais nada?  Ótimo, porque esse é o melhor estado de espírito possível pra discutir música, e por extensão, a Melodia! Como sempre, vamos partir da explicação mais certinha possível pra depois tentar destruí-la completamente. A essa altura você já tá acostumado com nosso método de trabalho, né? Mas primeiro, um teste facinho pra dar aquela levantada no moral. Você consegue identificar a melodia no exemplo a seguir? Se quiser cantar junto, melhor ainda!

 

 

Moleza, né? Você já tem o conceito de melodia todinho na cabeça de tanto ouvir música a vida inteira! É aquela coisa que tem uma espécie de destaque; aquela que você canta quando quer que alguém lembre de que música você tá falando; a que você assovia quando tá feliz da vida no ônibus indo pro trabalho.

Há quem diga por aí que melodia é uma sucessão coerente de sons e silêncios organizados linearmente, que o ouvinte percebe como uma coisa só.

Olha só que surpresa! Até que essa definição não é de todo mal: som e silêncio, um depois do outro, numa sequência que a gente perceba como um todo. Gostei, bacana… Até tem algo em comum com a nossa descrição menos rebuscada (e mais fácil de entender). Só esse “coerente” aí é que me irrita um pouco. Você também deve ter sentido um certo incômodo quando leu essa palavra ali em cima, com certeza (sinal de que já estamos começando a nos conhecer melhor), porque já discutimos essa história de que o sentido está no ouvido de quem cria e/ou no de quem ouve, lembra?

Escuta essa peça do Xenakis e me diz se a melodia é coerente (Não precisa escutar tudo porque é meio longa; mas recomendo muito! 10 minutinhos só da mais pura viagem!):

 

 

E então?

Claro que é coerente! Ou você acha que o cara ia se dar ao trabalho de escrever aquela partitura muito louca, cheia de grafismos, símbolos e termos poéticos à toa? Sem motivo ou ordem alguma? E depois ainda jogar pra uma orquestra inteira de músicos eruditos? Xenakis não era bobo!

Mas pera aí! Eu acabei de condenar o uso do termo “coerência” como definidor do termo “melodia” e logo em seguida digo que uma melodia estranhíssima é totalmente coerente! Meu discurso acaba de ficar totalmente incoerente! E eu nem ligo porque a gente sabe que a coerência tá no ouvido. Então chega de usar essa palavra! Eu prometo se você prometer!

Vejamos o que sobrou: sons e silêncios; linearmente; uma coisa só. Tá:

 

 

Agora eu pergunto: dá pra considerar que esse exemplo possui melodia?

E eu mesmo respondo: porque não? Conheço um pessoal que diria que isso é apenas ritmo; “só” ruído; que não pode haver melodia aí porque as percussões não tem um tom definido; porque não dá pra dizer que aí no meio tem um lá ou ré soando. E pra esse argumento eu digo: Dane-se!

Eu conheço um outro pessoal (ou pelo menos gostaria de conhecer pessoalmente) que diria que uma melodia é formada de notas e ritmo. Não importando se essa nota é um fá ou um clang; um dó ou um tchá. E pra esses (não praqueles) eu tiro meu chapéu da subjetividade; e você devia fazer o mesmo porque essa noção caracteriza tudo como melodia! Tudo! E eu sei como você se amarra numa visão subjetiva musical do mundo, hehe. Então há 15 dias descobrimos que tudo é ritmo e hoje descobrimos que tudo é melodia também? Isso!

Todos os fenômenos que consideramos rítmicos há duas semanas atrás, podem ser revisitados agora e vamos descobrir que eles são também melódicos: as asas da abelha; o batimento do coração; o impulso nervoso; o meteoro atingindo a terra; a fala humana; tudo é Melodia. Bom, tudo que a gente é capaz de ouvir, pelo menos; por menos tonal que seja. Pra ilustrar essa idéia, vamos ouvir uma doideira do Hermeto sobre o primeiro instrumento que todo ser humano usa e continua usando todo dia pra compor melodias:

 

 

Taí a razão pela qual você conseguiu cantarolar a música do Duck Tales no início do post tão facilmente, mesmo que talvez não a conhecesse ainda. A idéia de melodia é tão natural pra nós porque nos comunicamos através dela desde que nascemos. Aprendemos a usá-la de tanto ouvir; e aprendemos a ouví-la por aí (mesmo que disfarçada) de tanto usar. Mesmo o “menos musical” dos seres humanos tem esse instinto natural guardado lá no fundo, e na hora do aperto o instinto nunca falha:

 

 

O que eu posso dizer depois de uma experiência dessas?

Que Ritmo é Melodia e Melodia é Ritmo? Acho que sim.

Que é impossível uma música não ter Ritmo ou Melodia porque ela precisa dessas duas coisas pra existir? É, acho que posso dizer isso também.

 

 

 

A não ser que exista ainda uma terceira.

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

3 COMENTÁRIOS

  1. Gostei muito, muito mesmo, André… Se você tiver tempo, vontade ou interesse, que tal, qualquer dia desses, escrever sobre essa forma de expressão que muitos gostam de chamar "canção". Gostaria de saber o que você pensa delas, das canções… Grande abraço

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