trinta4Do palco do Theatro Municipal ao esplendor do Carnaval. A vida de Joãosinho Trinta contada em verdadeiras alas coreografadas em um belíssimo roteiro para as telas de cinema.

No dia primeiro de outubro, o templo das artes eruditas se fantasiou de cinema para receber a estreia do filme “Trinta”, do diretor Paulo Machline, durante a programação do Festival do Rio. Na plateia, além do elenco e direção, estavam pessoas dos mais diversos nichos artísticos, do Ballet Clássico às agremiações do Samba. Terminado o filme, o aplauso foi geral.

Trinta razões para assistir essa obra ainda seriam poucas diante da tamanha importância de um filme como este. A história narra a vida  de João Jorge Clementino Trinta, nascido em São Luís do Maranhão em 1933. Mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro para seguir o sonho de se tornar bailarino clássico. Contrariando as expectativas e o preconceito de sua família, passou no concurso para o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e tinha orgulho em dizer que se sustentava com a sua profissão de bailarino.

Entretanto, após um tempo, cansado de permanecer sempre na última fila do corpo de baile e necessitando extravasar seus talentos artísticos, foi aos poucos, com ajuda do mestre Fernando Pamplona, transferindo-se para a área da cenografia. Foi aderecista, figurinista e dirigiu óperas até chegar naquilo que consagraria a sua vida: O Carnaval.

Esse gênio criador foi um furacão revolucionário no Carnaval: assinou onze desfiles campeões no Rio de Janeiro e mais oito vices. Transformou-se em um dos maiores ídolos criativos dos desfiles das escolas de samba, tal como Paulo Barros na atualidade.

No papel-título está Matheus Nachtergaele, atuando brilhantemente na evolução da personagem, transmitindo sua paixão e emoção diante do que é considerado o maior espetáculo do mundo a céu aberto.  Um das cenas mais tocantes é a do primeiro desfile do Salgueiro assinado sozinho por Joãosinho Trinta no Carnaval de 1974, “O Rei de França na Ilha da Assombração”, quando após um incêndio destruir todas as alegorias, dias antes do desfile, o barracão se une e reconstrói tudo, saindo com o título de campeão da avenida. Cena essa de arrepiar todos aqueles apaixonados (ou não) por Carnaval.

Após a exibição, na escadaria localizada o Foyer do Theatro Municipal, o elenco fez uma grande homenagem ao artista, exibindo uma faixatrinta2 aonde se lia: “João, daí de cima, olhai por nós!”, em referência ao desfile de 1989 assinado por Trinta, quando a imagem do  Cristo Redentor  censurada no desfile , surgiu embrulhada em plástico preto com a frase: “Mesmo proibido, olhai por nós.”  Um momento lindo, que parecia até cena de cinema. Mas não era, estava ali ao vivo e a cores. Bonita de se ver!

Passando rapidamente pelo mundo do Ballet Clássico e imergindo profundamente no mundo dos bambas do Carnaval, “Trinta” é um relato brilhante sobre a carreira de um artista que marcou a vida de todos nós. Assistindo do Sambódromo ou pela telinha da TV, nós todos presenciamos o seu talento peculiar na criação dos desfiles. Quanta cor, quanta textura e quanta criatividade juntas,  misturadas em uma folia sem fim.

A vida de Joãosinho Trinta, infelizmente, terminou em uma melancólica volta à sua cidade natal, doente e sustentado pela solidariedade de alguns poucos amigos. Então nada mais justo que um filme como este para homenagear, registrar e eternizar a trajetória dele, o inventor do carnaval contemporâneo!

VIVA “TRINTA”!!!!

13 de Novembro nos cinemas!!!

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

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