Um mês e duas matérias me chamaram a atenção. A primeira: “Prefeitura de cidade na Suécia institui jornada de 6 horas” e a outra sobre os Estados Unidos: “Empresas adotam fim de semana de três dias”. Explicando brevemente, na primeira reportagem a Suécia está testando por um ano como os funcionários reagem a 6 horas de trabalhos diários. Metade dos funcionários da prefeitura trabalham com o horário reduzido de 30 horas por semana, e a outra metade segue na jornada padrão para ter um grupo controle e, futuramente, verificar se houve mudanças no comportamento dos mesmos. O objetivo é a “busca pela qualidade de vida.” e o governo espera que “os funcionários percam menos dias com ausências médicas e sintam-se melhores mental e fisicamente após dias de trabalho mais curtos”.

Já a segunda matéria mostra que algumas empresas dos EUA já adotam o final de semana de 3 dias e mostra os benefícios da prática: “O resultado é que elas conseguem reter mais funcionários e ganham produtividade.”, “Emilia afirma que as reuniões são mais produtivas e os funcionários aprendem a priorizar tarefas de forma eficaz. A diretora também apontou uma melhora do trabalho em equipe, já que existe um esforço coletivo para finalizar os trabalhos para todos os funcionários poderem curtir o fim de semana prolongado.”.

E você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com nosso assunto. Tudo meu caro Watson! Eu sempre me questionei o nosso “método de trabalho”. É injusto e contraproducente. Não acredito em horas de trabalho fixas e sim, mínimas. Em metas semanais, diversas outras opções. Ninguém é mais produtivo todas as semanas, de segunda a sexta, das 9h às 18h. Quantas horas você já ficou preso no escritório porque terminou suas tarefas mais cedo? E quando você depende de outras pessoas para realizar uma tarefa, fica sentado esperando ela terminar? Já encomendou música a um compositor por horas “Boa tarde, hoje eu quero que você componha uma música para este musical, quero pronta até às 18h”? Flexibilização deveria ser a palavra de todas as empresas, porque como essas duas reportagens mostram, qualidade de vida é o que importa.

Deixando meus questionamentos e focando na parte que importa. Como você utiliza suas horas livres? A maior parte do que você faz no seu tempo fora do trabalho envolve algum tipo de atividade cultural: gastronomia, cinema, TV, livros, bar com os amigos, festa, teatro, a prática de algum hobbie e Internet são alguns dos exemplos mais comuns e cotidianos. Se você tivesse mais horas de lazer, provavelmente utilizaria mais esses itens. Quem sabe faria mais coisas! A maior utilização favorece o fortalecimento e crescimento dessas economias (entretenimento, criativa, cultural).

Não é apenas uma questão de ter mais horas de lazer, mas também, com uma carga horária de trabalho menor, você tem mais disposição para se dedicar a você mesmo, seus interesses e sua família. Você se torna mais… feliz! Um funcionário feliz é mais produtivo. Além disso, temos redução do estresse, uma saúde melhor e mais tempo de ócio criativo.

O ócio criativo é um conceito forjado pelo autor italiano Domenico De Masi – claro que é italiano, um verdadeiro conhecedor do dolce far niente. Segue um vídeo no qual ele explica o conceito.

Outro vídeo aqui.

Além desses pontos, teríamos outros benefícios, como o aumento do número de empregos devido ao aumento na indústria criativa. Faz sentido pra você? E não apenas dessa área, empresas que precisassem trabalhar por mais tempo, precisariam contratar mais funcionários. Economicamente, aqueceria o mercado de trabalho e foi o que o governo da França pensou em 2000 quando reduziu a carga de trabalho para 35 horas semanais (7h/dia), porém a conta não deu certa e perceberam que apenas uma hora a menos não afetava a produção nacional a ponto das empresas contratarem mais funcionários (Lembre-se da Suécia fazendo um grupo controle!).

Com a carga horária de 6h por dia, os horários seriam mais variados, diminuindo o fluxo de carros no mesmo momento e o trânsito nas cidades. Um dos grandes problemas atuais do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Uma matéria na Revista Superinteressante abordou o tema em 2010 e apontou mais alguns, com destaque para dois:

1) “O acúmulo de poluentes no ar diminuiria 15%. É que os congestionamentos seriam 4 vezes menores nas sextas, como acontece aos sábados. A economia de energia também seria clara. Os funcionários públicos de Utah, nos EUA, ganharam as sextas livres. E os gastos com energia por lá caíram 13%.”

2) “Metade do consumo de cerveja nos bares acontece de sexta a domingo. Com um dia a mais, o total de vendas subiria 15%.”

E se você não ligou os pontos quando falei em crescimento econômico do setor e aumento do número de empregos, pense que: quanto mais pessoas utilizando produtos culturais, mais investimentos o setor recebe, mais empresas querendo patrocinar projetos porque o público alvo é maior. Uma relação mais mais, todos saem ganhando.

A grande pergunta que fica é: porque as empresas não investem na qualidade de vida do funcionário se traz tantos benefícios, inclusive para a própria empresa? As empresas que de fato investem nesses fatores possuem funcionários fiéis, praticamente brand advocates, além de uma maior avaliação do seu valor pelos stakeholders.

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Será que é ser muito radical? E nesse ponto voltam as minhas críticas ao método de trabalho. Um contrato de emprego é um “contrato”, precisa beneficiar as duas partes envolvidas. Porque temos o hábito de aceitar tudo no contrato sem questionar? A empresa precisa de você tanto quanto você precisa dela. Eu diria que ela precisa até mais, quero ver funcionar sem colaboradores, mas aí já é meu espírito rebelde falando, e esse não agrada a quase ninguém.

Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

1 COMENTÁRIO

  1. Muito bom! Aqui trabalhamos com a exploração da mão de obra, tirar a última gota de suco da laranja. Ou seja, não é importante pensar na qualidade de vida do empregado e muitas vezes nem a qualidade de serviço! Basta que o mesmo seja realizado. Ainda hoje consideramos como diferenciado aquele serviço prestado com qualidade (o que deveria ser algo comum). E com os salários baixos que encontramos no mercado, melhorar qualidade de vida pra quê?

    Isso requer uma mudança de mentalidade dos gestores/empregadores e uma modernização das empresas. A questão do controle sobre o empregado é forte demais. Até acredito que estamos caminhando para uma melhora, mas muuuuito lentamente. A mentalidade exploradora, escravagista até ainda é muito presente. Mas chegaremos lá!

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