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A terceira edição do Cine Daros no Pátio voltou sua atenção para as animações feitas nas últimas décadas, que se aprofundaram mais em histórias dramaticamente complexas e personagens rodeados por temas como identidade, religião e fantasia.

Para quem não conhece o evento, o Cine Daros é uma sessão de cinema gratuita a céu aberto, com direito a pipoquinha por conta da casa! Um telão é montado no delicioso pátio da Casa Daros em Botafogo e o cinema rola solto com a galera espalhada pelo chão, seja em espreguiçadeiras ou em cangas estendidas mesmo.

A sessão do mês de agosto foi inaugurada com um clássico da animação mundial: “Meu Amigo Totoro” (“Tonari no Totoro”), de 1988.

Dirigido pelo gênio Hayao Miyazaki, o filme não está entre os mais vistos pelo “grande público” (que estaria um tanto mais grandioso se assistisse a essa obra de arte), mas carrega sua legião de fãs apaixonados que usam produtos dos personagens do filme – vi um número considerável de pessoas com vários desses objetos durante a sessão: gorros, casacos, bonecos, etc…

“Meu Amigo Totoro” gira em torno de duas irmãs, ainda meninas, que se mudam com o pai para uma cidadezinha no interior do Japão do pós-guerra, para ficar mais perto da mãe, hospitalizada com uma doença grave em uma clínica da região.

Ao explorar a casa e o quintal, as irmãs Satsuki e Mei descobrem os outros habitantes do local: espíritos de diversos tipos. Os primeiros a aparecerem são os Makkuro Kurosuke, seres que vivem em casas abandonadas e são os responsáveis por deixá-las empoeiradas ao longo do tempo. É magnífica a maneira como a inocência e a curiosidade infantil das personagens torna esse descobrimento algo fantástico e bonito. Não existe nenhum tom de horror, ou a intenção de assustar o espectador. É puro encantamento.

Explorando pelo quintal, a pequena Mei conhece Totoro, que a princípio parece ser apenas um coelho gigante e fofão, mas que logo se revela um grande espírito da natureza e um novo amigo para as duas irmãs. A partir daí, a amizade só cresce e elas se veem envolvidas pelo universo fantástico das forças da natureza, algo muito presente em toda a filmografia de Miyazaki.

O diretor já revelou que “Meu amigo Totoro” é parcialmente autobiográfico. Quando Miyazaki e seus irmãos eram pequenos, sua mãe sofreu de tuberculose durante nove anos e passou a maior parte desse tempo hospitalizada. Talvez isso tenha contribuído para a estrutura do roteiro do filme. Trata-se de um relato sem antagonistas, onde o conflito principal está fora da alçada das protagonistas. É um roteiro fora dos padrões, repleto de silêncios e momentos de profunda reflexão. O que é bastante incomum para filmes infantis, mas que de forma alguma faz com que a atenção desse público se desvie da tela.

É como se Myiazaki quisesse dividir com o mundo o que viveu na infância, adicionando detalhes que gostaria que tivessem acontecido, ou melhor, que devem ter acontecido em sua imaginação durante aquele período.

Deixando o roteiro de lado, é preciso separar um bom tempo para apreciar de novo, de novo e de novo a qualidade da animação feita pelo Studio Ghibli. A preocupação com os detalhes da natureza faz com que os movimentos das águas, das árvores e do vento sejam além de vivos, sejam mágicos. É através do movimento que Miyazaki nos dá a lição mais básica e mais importante de sua obra: a natureza é sábia e mágica, e a única coisa que precisamos fazer para sentir isso é vê-la.

Durante a sessão, um amigo chamou minha atenção para a presença da gravidade no filme. A chuva, as quedas d’água, os objetos…  Tudo tem um peso. Um peso específico, uma gravidade própria.

totoro-toy-story-3E mais: o filme inspirou diversas obras dos estúdios Pixar, o que acabou rendendo uma singela homenagem em Toy Story 3.

A Pixar bebeu e ainda bebe bastante da fonte inesgotável de Miyazaki. É uma fonte extremamente criativa que lança a cabeça pelo espaço mantendo os pés fincados na grama fofa, criando raízes, folhas e flores.

Em “Meu amigo Totoro” os valores da amizade, da família e os mistérios da natureza estão minuciosamente trançados e muito bem desenhados. E é isso que torna esse filme um clássico: sua contribuição para que a humanidade se torne mais humana.

 

Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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