As tirinhas são o tipo de quadrinho mais passageiro. A pessoa bota o olho, curte, compartilha ou não, e segue adiante. Ninguém para muito pra admirar, mas geralmente esse formato tem os quadrinhos mais criativos e inusitados. Por isso mesmo resolvi destacar algumas tirinhas recentes e discutir um pouco por que elas são fodas.

The Perry Bible Fellowship

Veja mais The Perry Bible Fellowship neste link.
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Safada essa, né não? E terrivelmente inteligente. Você não percebeu, claro. As coisas inteligentes têm a características de serem difíceis de notar. Primeiro, é um quadrinho que, mesmo tirando as poucas falas, daria para entender tranquilo. A fala só está aí para dar mais ênfase à piada, criando contraste com os quadros seguintes sem fala.

Veja que boa parte da informação está ao redor dos personagens. Quando o pai bate na porta de uma casa, ele não bate na porta de qualquer casa, mas sim de uma cinzenta, com vidros quebrados, mostrando que é um lar problemático. Isso vai ser de novo marcado, no último quadro, com uma nova rachadura no canto perto da tomada, além de um retrato de família onde só aparece a mãe (com jeito de adolescente) e o filho. Ou seja, a figura paterna é ausente.

Mas o genial mesmo é que o último quadro na verdade são três quadros em um. Há o geral, mais na cara, do casal se pegando; depois vem o tal retrato da mãe com o filho; e, ao fundo, emoldurada pela janela, a imagem do garoto sendo vítima do Toby, o filho da mãe. É uma abordagem sutil, que muito quadrinhista se enrolaria para fazer.

Adam Muto

Adam Muto tem tumbler: Tall Penguin.
Adam Muto tem tumblr: Tall Penguin.

Adam Muto é um dos mandachuvas de uma das melhores séries animadas da TV, Hora de Aventura, mas nas horas vagas ele faz umas tirinhas bem bacanas. Seu traço é certeiro; parece algo feito com rapidez, mas ao mesmo tempo com precisão, e carrega uma atmosfera alienígena até nas suas tirinhas de humor mais besteirol.

Nessa daí, ele brinca com as margens dos quadros. Acho sempre legal esses quadrinhos meio metalinguísticos. Ainda que seja algo simples, Adam Muto cria uma espécie de tensão. O personagem não vai de uma vez até a fratura na margem, ele olha meio surpreso, meio curioso, sonolento. Então chega perto, analisa e, em um quadro — paft —, já está lá embaixo.

Laerte

Publicada em 12/07/2015 no site Manual do Minotauro.
Publicada em 12/07/2015 no site Manual do Minotauro.

Sempre. Essa cartunista aí não vale a pena nem falar. Todo mundo sabe que ela é boa. Mas como resistir?

Aqui é uma tirinha de um quadro só — direto, impactante, surreal. Eu fiquei olhando pro desenho e comecei a viajar nas interpretações. Primeiro pensei que tinha a ver com o status de obra de arte clássica, por causa do pedestal grego que geralmente carrega esculturas.

Toda vez que uma obra se torna consagrada, ela e seu autor ficam presos a uma determinada visão imutável. A Mona Lisa de Da Vinci vai ser genial sempre, e se você achar sem graça é porque não tem cultura. Não adiantaria o próprio fantasma de Da Vinci aparecer e gritar “Queimem essa merda de pintura que eu fiz”. O artista está preso à corrente da tradição.

Mas logo essa ideia foi trocada por uma interpretação religiosa. Aqueles que buscam a Glória de Deus acabam se prendendo a uma série de dogmas, independente do quão ridículos possam ser, apenas pela promessa do paraíso eterno. Logo pensei também nos terroristas suicidas, que pensam que atingiram a glória mas na verdade só se enforcaram nos próprios grilhões.

Ou talvez quem sabe não seja religião o alvo de Laerte, nem a arte, mas aqueles que vivem uma vida de aparência e ostentação. Os que tornam qualquer foto pessoal de Facebook numa campanha de marketing e vivem a vida pelos olhos dos outros.

No final, a minha conclusão sobre a tirinha, depois de aterrissar dessa viagem, é que glória sem liberdade não vale.

E que uma simples tirinha dá muito o que pensar.

 

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Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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