Argh…

Outro dia, outra coluna para escrever… E com ressaca. Daqui a pouco aparece algum leitor/leitora idiota para me encher… O quê? Você já está aí?! Ops! Bem, esqueça o eu falei. Estava falando de outro leitor/leitora idiota, não de você!

Só me dê um segundo para lavar o rosto.

Pronto. Vamos começar.

Faça silêncio, ok?
É só não respirar que fica tudo certo.

Se existem três personagens de quadrinhos que todo mundo conhece são Calvin, Charlie Brown e Mafalda (ok, tem a Mônica também, mas vamos deixar ela de lado dessa vez). Todo mundo já os viu em adesivos de carros, agendas de escola (principalmente o cachorro do Charlie, Snoopy) e como garotos-propaganda de eleições para DCE da universidade (principalmente a Mafalda). Eles se tornaram atemporais e já acompanham mais de uma geração desde que foram criados. De personalidades e estilos completamente diferentes, cada um representa uma ideologia distinta. Razão por que acredito que a predileção de uma pessoa por um dos três personagens pode determinar a personalidade dela.

Quer descobrir quem você é? Então continue a ler. Conhecendo melhor cada uma das três crianças prodígios dos cartuns, vai conhecer melhor a si mesmo.

Primeiro nós temos o bom e velho Charlie Brown. E bota velho nisso. A primeira aparição numa tirinha data de 1947, mas o início oficial do seu universo foi em 2 de outubro de 1950, com o primeiro número de Peanuts (Minduim), por Charles M. Schulz.

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O traço era bem diferente nos primeiros quadrinhos. Os personagens pareciam bebês.  Para ver mais dessa e outras tiras, acesse GoComics.

Como podem ver, Charlie não começou muito bem na vida. Ele anda confiante em nossa direção, seguindo para um horizonte desconhecido, sem saber que os outros dois personagens da tirinha falam mal dele pelas costas. Charlie Brown, um garoto do subúrbio com calvície prematura, que consegue usar o único fio de cabelo que tem para piorar o visual, ostentando uma espécie de pega-rapaz torto na testa. É o símbolo do fracassado norte-americano. Pobre Charlie Brown.

Ele dedica sua vida à prática frustrante das atividades esperadas de todo garoto dentro do American Way of Life. Ele tenta soltar pipa, mas ela invariavelmente acaba batendo numa árvore. Ele tenta jogar futebol americano, mas Lucy sempre tira a bola dos seus pés. Ele tenta jogar baseball, mas por mais perto que chegue da vitória, ele não consegue agarrá-la.

Toda a vida de Charlie Brown num desenho só
Toda a vida de Charlie Brown num desenho só

Seu desespero para ser igual a todos e ter sucesso, apesar de não se encaixar, fala muito aos leitores. E possui até uma pitada de contracultura. Se você pensar que a tirinha começou nos anos 50, no pós-segunda guerra quando os Estados Unidos ascendia como superpotência nuclear, mostrar um garotinho triste e angustiado era meio irreverente. Quer dizer, como ser triste na terra das oportunidades e do fordismo? Se você fracassar só pode ser culpa sua, né Charlie Brown? De alguma forma as tirinhas do Snoopy mostram um mundo ignorado dos Estados Unidos, mesmo sem criticar os costumes do país.

Há uma tirinha bastante simbólica em que para conseguir ter um time de baseball melhor e conseguir finalmente ganhar um jogo, Charlie aceita trocar seu único fiel amigo, o cachorro Snoopy, por cinco novos jogadores. Claro, logo ele se arrepende mortalmente e se martiriza pela escolha. Charlie também é frequentemente tomado pela culpa.

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Tradução resumida: Okay, Chuck, aqui está o contrato… Cinco jogadores pelo Snoopy…// Será que eu não deveria pensar sobre isso e…// Você não quer um time melhor? Assina logo…// Tenta parar de fazer sua mão tremer, está borrando tudo.

Então, se você sempre busca o que não é para você, curte uma dor de cotovelo e está frequentemente tentando fingir que está se divertindo para fazer amigos, ao mesmo tempo que mantém esperanças de dias melhores, então talvez você seja um Charlie Brown.

Agora, precisamos falar sobre o Calvin.

A inocência da infância. Mais tirinhas do Calvin e Haroldo no Tiras-do-Calvin e no Depósito do Calvin.
Ah! A inocência da infância! Para ver mais, entre no Tiras-do-Calvin e no Depósito do Calvin.

Calvin em muitos sentidos é o oposto de Charlie Brown. Hiperativo, intenso, cheio de explosões de humor, Calvin não está nem aí para as outras pessoas. O seu próprio traço revela as diferenças entre os personagens. Enquanto Charlie é redondo e inofensivo, o rosto de Calvin é cheio de pontas e avisa para os incautos: aproxime-se com cuidado. O garoto criado por Bill Watterson em 1985 gosta de fazer as coisas do seu jeito, e quando não saem assim ele logo reinventa tudo em sua imaginação, de preferência com muitos alienígenas, dinossauros e viagens psicodélicas.

Igual a Charlie, Calvin também é uma pessoa deslocada em seu mundo, só que ele abraça esse deslocamento, isolando-se em suas brincadeiras, passatempos e reflexões. Isso chega ao ponto patológico de ele ter como único amigo o seu tigre de pelúcia, que em sua imaginação é uma espécie de tigre civilizado, amante de sardinhas em lata, conhecido por todos nós como Haroldo (Hobbes).

Calvin é um hedonista e individualista. Ele está sempre procurando curtir o seu dia ao máximo. Mas ao mesmo tempo sabe que muitos prazeres são extraídos de coisas simples. Ele gosta de ver televisão e comer bobagens como toda criança, mas também adora passear na floresta ou ficar debaixo de uma árvore trocando uma ideia com seu amigo imaginário.  O fato de viver o sonho americano não o impede de ser um crítico veemente dele. Uma crítica mais aberta que nas histórias de Peanuts.

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Paz, amor e muito Calvin e Haroldo para o mundo.

Então, se você é antissocial, hiperativo, hedonista, ambientalista, odeia regras, é criativo e fala com amigos imaginários, então você é um Calvin. É legal, mas tente procurar uma terapia também.

Isso nos deixa com a última criança prodígio da Tríade Cartunesca: a Mafalda.

Seus cartuns talvez sejam os mais difíceis de entender. Embora eu acredite que muita gente tenha curtido na infância ler Mafalda, não é o tipo de leitura que eu aconselharia para uma criança. As piadas estão no limite das sutilezas e é preciso quebrar um pouco a cabeça para captar a mensagem (não é à toa que a Mafalda é muito usada em provas). É diferente das tiras do Calvin e Haroldo e do Charlie Brown, que possuem muita coisa adulta, mas também muito besteirol.

Criada por Quino em 1962, mas publicada em 1964, Mafalda é a representação dos ideais políticos do autor. É uma figura claramente antineoliberal, progressista e idealista. Enquanto Calvin estava pouco se lixando para a sociedade e Charlie Brown procurava ser aceito, há em Mafalda o desejo de uma sociedade diferente. Ela frequentemente se vê preocupada com os valores dos pais e o caminho que as pessoas estão seguindo.

A pequena hermana, em vez de se excluir, procura manter contato com indivíduos de diferentes correntes de pensamento, sem permitir que influenciem sua maneira de ser. Cada amiguinho de Mafalda vai representar uma ideologia, há a menina que só pensa em casar e ter filhos, há o menino apaixonado pelo capitalismo, há o garoto sonhador. É como se Mafalda tentasse entender o mundo através deles.

Até as brincadeiras dela são manifestações políticas.
Até as brincadeiras dela são manifestações políticas.

Então se você é inconformado, idealista, gosta de Beatles, curte companhia, mas não deixa os amigos, nem família, determinarem seus pensamentos, não há dúvidas, é uma Mafalda.

E se você não é uma Mafalda, nem um Charlie, nem um Calvin, não se preocupe. Não ficará sem identidade. Será o que eu chamo de chato. Agora dê o fora da minha frente e vá ler quadrinhos para colocar alguma coisa nessa cabeça. Preciso dormir.

Zzzzzz.

 

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Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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