O gênero terror é adorado por muitos, mas por muitos outros evitado. Crianças e  adultos afirmam não assistir filmes de horror no horário noturno, ou sozinhos, ou até mesmo em datas específicas. Quem nunca acordou no meio da noite e deu uma espiada embaixo da cama para assegurar de que não há nenhum bicho-papão? Ou quem nunca evitou o espelho do banheiro, com medo do Candyman? Você é do tipo que acende todas as luzes da casa quando acorda no meio da noite, com medo da presença de Freddy Kruegger? Pois eu sou. Afinal, qual o segredo desse gênero? Por que nos assustamos? Por que acreditamos nas histórias de terror? E por que, ainda com medo, as buscamos e nos deliciamos com todos os sustos?

Segundo Noell Carroll, em “The Philosophy of Horror or Paradoxes of the Heart”, estuda filmes denominados terror. Através de movimentos narrativos, enfatizando a constante repetição dos plots. Qual é o segredo do gênero? Será que há algum molde? Pois bem, através do filme Scream, vamos tentar entender melhor esse estilo. Escolhi este, pois é uma grande ode aos filmes de terror, tanto em sua estrutura quanto na metalinguagem. Enumerando os acontecimentos que marcam a narrativa:

1º O “ataque” (que ele chama de onset): no início da ação temos a apresentação do monstro, entidade, ou serial killer, através de uma morte. Aqui não se revela a identidade do mal que está por vir. Todos os longas da franquia Scream, iniciam com uma morte, só vemos o GhostFace, entretanto não sabemos quem é a pessoa por baixo da fantasia. No primeiro longa da franquia, Drew Barrymore abre o filme e morre.

2º A “revelação” (discovery), onde os personagens principais descobrem que há um mal/assassino in the loose. Carroll enfatiza que esta revelação da existência de um mal, pode surpreender os personagens ou fazer parte de uma investigação; usando Scream,  em todos os filmes, após a morte inicial, a revelação de que a pessoa assassinada era conhecida pelos demais personagens, e daí sabem quem há “algo de podre no reino da Dinamarca”.

3º A “confirmação” (confirmation): É o momento onde os demais personagens se convencem da existência de um monstro/assassino entre eles. Em nosso estudo de caso, quando outras mortes ocorrem, ou quando o já conhecido Ghostface deixa recados para a mocinha Sidney.

4º O “confronto” (confrontation): Os personagens finalmente se deparam com o mal. Carroll finaliza este segmento, afirmando que no confronto pode haver um desastre a solucionar ou não o fato. No caso de Scream, é o momento em que descobrimos quem é o assassino e o porquê da matança.

Esta estrutura se repete em todos os filmes do gêneros. Em 2012, Joss Whedon levou aos cinemas um filme que se apodera dos arquétipos do gênero terror e de comédias adolescentes, com The Cabin in The Woods. Um grupo de jovens se hospedam em uma cabana na floresta. Uma referência a produções como The Evil Dead (1981). Os personagens são os verdadeiros arquétipos: a puritana, a fogosa, o drogado cômico, o inteligente e o galã esportivo. Quando chegam à casa, descobrem um arsenal de objetos antigos em um porão, a partir daí eles dão vida à zumbis que ressurgem a fim de matá-los. O filme respeita a estrutura do gênero e não utiliza humor  algum na narrativa, a comicidade se faz presente pelas ações dos personagens e por narrar uma história que cita outras produções do gênero.

Agora que entendemos a estrutura, mesmo se repetindo tem com muitas variantes, continuamos assistindo e nos aterrorizado. Por quê???? Por que há pessoas atraídas pelo gênero? Algumas respostas estão em uma pesquisa realizada pela doutora em Serviço Social Divanir Eulália Naréssi Munhoz e pelo mestrando em Ciências Sociais Rodolfo Stancki; onde foi entrevistado o público alvo do gênero, com base nos estudos de Carroll. Para os pesquisadores, base do interesse no gênero se dá pela vontade de experimentar sensações de horror, que não existiriam na vida real. Um grupo de estudantes, afirmam que o interesse parte da vontade de compartilhar emoções. Outra conclusão se dá pelo fato de filmes de terror explorarem a curiosidade dos espectadores através de seus universos fantásticos.

Mesmo com tantas mudanças nas temáticas abordadas e com o aperfeiçoamento da técnica; o terror é um gênero com uma estrutura fechada e que tem se apropriado do legado de diversos estilos e escolas cinematográficas para a reprodução de seus plots. Personagens e narrativas se repetem, reutilizando-se e produzindo remakes e reboots do próprio gênero. E mesmo com medo, continuaremos assistindo a filmes de terror na madrugada de uma sexta-feira 13.

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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