Se você já tem algum costume de ler meus textos aqui no Tag, deve estar achando o início desse de hoje pouco convencional. Começar assim direto com um vídeo? Claro que em se tratando do menino-que-sobreviveu não há melhor maneira de começar qualquer discussão que seja do que com uma névoa londrina espessa enquanto se ouve o famoso “pan paaan   paran pan  pan paaaan   pan”. Mas, em minha defesa, se você já tem mesmo algum costume de ler meus textos por aqui, também deve saber que não faço esse tipo de coisa à toa, né? “Não, na verdade acho que o fato de o André ter começado o texto de uma forma diferente do usual não tem nada a ver com o assunto que iremos discutir hoje. Acho que foi pura coincidência.”

 

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Vou incorporar o Snape e fingir que não ouvi essa sua bobeira, hein! Bom, antes de dar prosseguimento ao nosso diálogo, talvez você queira dar uma olhada nesse texto “sobre” tonalidade que escrevi ano passado.

Tá com preguiça de ler né? Menos 5 pontos pra Grifinória.

Nele eu tentei comparar tonalidades musicais a tons de cores e isso tem tudo a ver com a música de Harry Potter. Resumindo, o texto diz mais ou menos que não importa muito saber em que tom uma música ou cor está, e que na verdade o mais interessante é perceber as relações entre tonalidades diferentes. Enfim, comparação é tudo! E é nessa linha de pensamento que vamos seguir pra analisar porque a trilha do HP é tão coerente com um mundo que pra nós é tão estranho (ou pelo menos era em 2001).

Ah, não faz essa cara de que o mundo de Hogwarts não tem nada de estranho pra você, não! Menos 5 pontos pra Grifinória!

Claro que hoje em dia a gente sabe tudo sobre testrálios, chaves de portal e horcruxes, mas vê se você consegue entender o que eu quero dizer com estranho: pelo menos pra mim, o universo que a JK Rowling criou fica dançando no limite da estranheza e do reconhecível sem nunca passar definitivamente pra nenhum dos dois lados; então a música funciona tão bem justamente porque faz o mesmo, mas num nível mais subjetivo (pra variar). Ó só:

 

 

Já deu pra sacar ou ainda tá um pouco voando? Veja bem, pra criar toda essa atmosfera de estranheza reconhecível ou reconhecimento estranho, é preciso usar elementos dos dois universos em conjunto, mas de forma muito bem planejada, para que esse equilíbrio não se perca e estrague a brincadeira. Isso fica bem claro quando você analisa a dinâmica do trio parada dura de Hogwarts: o Harry é que nem a gente, cresceu trouxa (e continuou com cara de trouxa pra sempre) e não reconhece nenhuma das loucuras que presencia diariamente. O Rony é de uma família (a princípio – SPOILER) de 9 bruxos, então nada é realmente absurdo demais pra ele. E a Hermione serve de ponte entre os dois pensamentos (ou, pra fins da nossa discussão musical, estéticas) enquanto trouxa que sabe tudo porque estudou muito, se espantando com certas coisas como o Harry, mas ao mesmo tempo sabendo exatamente do que se trata cada doideira na teoria. Esse vai e vem constante entre “O quê que tá acontecendo?” e “Ah, entendi, tá tudo bem!”, na minha opinião, é uma das características mais marcantes da estética Potteriana. Agora, como John Williams e companhia alcançaram esse mesmo efeito na trilha dos filmes?

Não sabe? Menos 10 pontos pra Grifinória! E escuta isso:

 

 

No tema do Beco Diagonal temos justamente essas três passagens emocionais em sequência: a primeira parte é engraçadinha, fácil de escutar e cantar, com um tom de brincadeira e um deslumbramento divertido. Tá tudo bem nesse momento porque não tem nada absurdo ou perigoso acontecendo, é um momento de reconhecimento. Em seguida aparecem uns violinos meio tortos, esganiçados, fazendo notas que soam erradas com o fundo suave das flautinhas, mas ainda tá tudo bem! Parece que alguma coisinha estranha foi introduzida na equação, mas tá até engraçado. Não tá tão absurdo assim e a gente consegue lidar com esse grau de loucura de boa; por isso a música volta pras flautinhas felizes animadinhas e a sessão de descobertas divertidas e mágicas continua. Até que do nada as flautas somem e os violinos estranhos e tortos tomam conta, tornando a música tensa, com uma sensação de que algo ruim pode acontecer a qualquer momento! Ainda não rolou, mas se a gente continuar de bobeira por aqui, vai dar Merlin! E essa sucessão de momentos de reconhecimento e estranheza segue pelo resto da peça em maior ou menor grau.

Ao longo de toda a trilha sonora dos 8 filmes, essas transformações de clima se dão por mudanças de instrumentação, ritmo, melodia, tonalidade, etc. Mas o caso é que é sempre através de mudanças, da inserção de elementos alheios ao que havia sido apresentado anteriormente. A partir daí é possível dosar que tipo de emoção alheia ao contexto se quer introduzir. Doido né?

Agora você pode tentar fazer uma análise dessa próxima música por conta própria, com base no que acabamos de descobrir sobre a alternância entre o estranho e o reconhecível:

 

 

E então, conseguiu? Não?!? Menos 20 pontos pra Grifinória!!!

Esse exemplo é um pouco menos óbvio que o anterior, mas tá tudo aí. O caso é que essa música já começa com um nível de estranheza um pouco elevado com os metais e flautas se alternando em linhas melódicas que flutuam de um tom pra outro usando frases repetitivas (pan pan pan pan pan pan), as cordas super rápidas e agudas subindo e descendo mais rápido que um pomo dourado, dando ideia de que alguma travessura está em curso, mas uma travessura mágica que pode se tornar um perigo muito real a qualquer momento! O que de fato acontece em seguida, já que (SPOILER ALERT) ao fim dessa cena, alguém quebra o braço e em seguida tem o mesmo desossado. Tadinho.

Agora pra fechar, vou introduzir um elemento estranhíssimo só pra manter a coerência do post e aparatar daqui:

 

 

Ah, e uma última coisa!

points to gryffindor

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

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