O super-herói geralmente é a imagem de tudo que é bom, alguém altruísta, sem um pingo de mancha no caráter e capaz de enfrentar os maiores desafios para resgatar até mesmo o gatinho de uma velhinha. Ele é tudo o que falta na vida real. “Ah, como seria bom se a vida fosse cheia de super-heróis!”, você pensa, sonhador. Eu digo que não. De jeeeeiiiito nenhum!

Mas por que eu digo isso? Pensa bem. O que é o super-herói a além de um cara que, em geral, resolve as coisas na porrada? Se alguém é roubado, ele aparece do nada com sua capa e cuequinha berrante e dá uma voadora no bandido. Se um terrorista ameaça destruir a cidade, ele aparece do nada e, pulando qualquer tentativa de negociação, dá uma voadora no terrorista. É assim. Realmente não me parece muito diferente de quando alguém, na vida real, decide linchar um bandido qualquer e prendê-lo no poste.

 

É bom lembrar o que pessoas de bem são capazes de fazer.

 

É claro que uma HQ vai construir todo um pano de fundo que faça a lei da voadora na cara parecer normal quando se trata de um super-herói. Primeiro, porque ele tem poderes sobre-humanos. Isso o permitiria perceber quem é mal e ter a capacidade para fazer o bem. É, afinal, responsabilidade dele por ter um dom. Segundo, muitas vezes, mas não sempre, os bandidos e vilões nos quadrinhos são desumanizados, usam máscaras ou simplesmente só querem destruir a Terra por prazer, quando não são monstros de outra espécie.

A impressão é que vemos algo natural e adequado. Nós apreciamos essa atitude combativa de lidar com os problemas da sociedade. Mas a filosofia por trás dos heróis da Marvel e da DC não é muito diferente das pessoas que querem fazer justiça com as próprias mãos e se utilizam da violência. Trata-se do puro individualismo e um desprezo quase completo pelo coletivo e pela democracia.

Um super-herói não consegue pensar em nenhum outro meio de usar seus poderes sem ser para a repressão e crê que o enfrentamento do crime só depende da sua ação. Como se coloca além dos outros humanos, ele se considera capaz de discernir quem merece apanhar e ou não. É o mesmo delírio de grandeza de todo mundo que diz que “Bandido tem que morrer!”, essas pessoas que se acham santas e são incapazes de pensar em qualquer outra solução que não envolva matar alguém (surpresa, gente! matar mais bandidos só faz os bandidos quererem te matar antes de qualquer coisa).

Este é o tipo de pessoa que vê o Batman como exemplo. Tão democrática que é contra presidente eleita.
Este é o tipo de pessoa que vê o Batman como exemplo. Tão democrática que quer derrubar presidente eleita.

E olha que curioso. Pega uma lista de super-heróis de quadrinhos na internet em que tenha as profissões de cada um. Eu quero ver — EU QUERO VER! — você achar um personagem que seja, nas horas vagas, ou profissional ou estudante de Serviço Social, História, Letras, Filosofia, ou, ainda, Belas Artes. Hahaha Boa sorte!

A maioria é gente de ciências exatas: Física, Química, Matemática, Biologia, Computação. O resto é soldado, policial, detetive ou rico. No máximo, você encontra um advogado ou um jornalista, como Clark Kent, o Super-Homem. Como os quadrinhos são produtos editorias, o jornalista recebe um tratamento todo idealizado e não existe universo super-heroístico que não tenha seus jornalistas famosos: J. Jonah Jameson, Lois Lane, Ben Urich, entre outros. São as exceções que confirmam a regra.

Esse caráter individualista, pragmático, autoritário e sem reflexão não escapou aos olhos dos próprios quadrinhistas. Muitos vão começar a problematizar a bondade do herói. Até que ponto os super-heróis querem ajudar os outros ou impor sua vontade? E a grande obra desse gênero é justamente Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons.

watchmen1-comics

Em Watchmen (e o filme não vale!), nós temos a decadência dos heróis. Todos são vistos como ególatras ou pessoas desequilibradas que deram vazão às suas fantasias com algum uniforme colorido tosco. Todos os personagens têm ideias para salvar o mundo, mas nenhum sequer pensa em consultar a população sobre isso. É uma verdadeira luta entre fascistas. Torça para o menos pior vencer.

Estou dizendo que toda história de super-herói precisa ser igual a Watchmen? Não! Claro que há espaço para a inocência e esperança. E a gente pode se divertir até certo ponto com a violência. Ou o desenho do Papaléguas e Willie Coiote não seria tão popular. Mas problematizar é sempre importante, porque no final está sendo transmitida uma visão de mundo ali. Uma visão de mundo que tem se tornado hegemônica: a justiça pelas mãos do indivíduo. A repressão e vigilância como solução para tudo. O espancamento legitimado.

No fundo, a pergunta que toda história de super-herói deve fazer — do gibi mais bobo à edição de luxo na livraria — é esta: uma pessoa sozinha pode fazer a diferença? Como, onde, quando e por quê? E os outros, o coletivo, onde entram na história?

E se os autores não fizerem essa pergunta, por favor, faça você.

Sempre!

PS: Para quem pensa que o desenho do Papaléguas e Willie Coiote é descerebrado, saiba que tem toda uma ética e filosofia quase oriental envolvidas em suas Regras de criação. Nelas determina-se que o Papaléguas não deve lutar e que o Coyote deve ser sempre vítima de seus esquemas e fanatismo. Ou seja, pacifismo e karma num só desenho. 😉

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

DÊ SUA OPINIÃO