Desde que era pequena dormia na casa das minhas amiguinhas, ia de mala e cuia pra casa da Aninha, da Carol e das Ju’s (a pequena e a grande e nunca vou entender porque era assim, já que a pequena sempre foi maior que a grande). Ia sem medo de olhar pra trás, com mochila ou sem, pra passar a tarde, a noite ou o fim de semana.

Quando passei pra faculdade fui com uma malinha pro meu apartamento novo, onde começou a saga dos 5769 roomates (leia aqui sobre essa história) e ai não parei mais. Logo vieram as viagens da faculdade, o intercâmbio e a decisão de morar fora. Essa semana ouvi de um amigo que tem gente que não precisa de casa, precisa de estrada.  Que romântico pareceu isso!

Nesses caminhos e descaminhos sempre reparei uma coisa: o olhar de inveja, admiração e “quero largar esse terninho e roubar esse mochilão dela agora e cair na BR” que as pessoas disparavam para mim quando eu ia desfilando com minhas três camisetas, leggings e souvenirs pelos metrôs, trens, ônibus lotados ou qualquer outra coisa que mantinha meu movimento.

Não entendi bem isso, mas, na minha recente viagem, comecei a pensar e a pesquisar sobre como as literaturas construíram e constroem a imagem do viajante. Porque ainda que esteja em dia com minha auto-estima, tenho certeza que quando aqueles olhares me assaltaram não eram para mim, eram bem mais para tudo que eu estava representando com aquele cabelo despenteado, mochila maior que eu, tênis meio sujos e olhos cansados e felizes. Voilá! Aposto que você acabou de me ver e me pintar como a desbravadora do mundo. Espero que minha narrativa tenha funcionado. Pois é assim mesmo que pintam aos viajantes: seres desprendidos, um pouco loucos e extremamente privilegiados.

Mas qual será o porquê disso?

Aposto que existem muitas explicações psicossociais, no entanto, gosto de uma em especial: a mobilidade como o novo capital. Durante a história moderna o capital assume diferentes formas, não sou expert em economia e/ou história, mas o poder, dinheiro, informação e cultura, segundo autores como Pierre Lévy, vão sendo substituídos pela capacidade de mobilidade de um sujeito, como capital. Como podemos trabalhar, conversar, interagir desde qualquer ponto no mundo, desde que se tenha uma boa conexão wifi, estar nos lugares se torna um privilégio que apenas uma seleta camada da população têm acesso. Os viajantes são os novos poderosos.

Os viajantes são os que podem ir ver e descobrir, se atreverem, o mundo real e não o mundo contado. A mobilidade não têm a ver com dinheiro propriamente dito, ainda que o requeira, têm a ver com o tempo e disponibilidade e, no caso dessa mobilidade ser em razão de férias, requer tempo livre. Com isso, a construção da imagem do viajante é cada vez mais romântica, pois provoca o desejo, a ambição a esse acesso. É o capital te dizendo que só os poucos que rodam o mundo são felizes e que você deve trabalhar 8-10-12h seguidas para uma vez ao ano poder ser essa pessoa de cabelo desgrenhado e mochilão, ou de malinha de rodinha e óculos escuros no aeroporto internacional mais perto de você.

Nunca esqueço do filme “Eurotrip” e a vontade de ser aqueles jovens por trens de toda a Europa. Com isso vejo que a viagem também está relacionada a juventude, a irresponsabilidade, a diversão e a construção de uma Terra do Nunca, onde tudo é possível. Claro que viajar é maravilhoso e deixa a nossa bagagem cheia de experiências e novas histórias, mas ser um viajante é bem mais do que se vê em filmes e bem menos do que a sociedade tenta nos fazer engolir goela abaixo. Da próxima vez que eu e minha mochila sairmos para passear, acho que vou sair com alguma camiseta: não é tão bom assim! Meu pé tem bolhas, dormi mal e comi mal. Talvez seja ainda melhor do que parece.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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