Minhas últimas cinco leituras foram de livros sobre teorias e história do teatro, performance e antropologia. Um destes livros, “Performance e Antropologia de Richard Schechner” me prendeu muito a atenção, pois nunca havia parado para refletir a performance da maneira que ele aborda.

O livro começa com a seguinte provocação:

O que é performance? Uma peça teatral? Dançarinos dançando? Um concerto musical? O que você vê na TV? Circo e Carnaval? Uma entrevista coletiva de um presidente da República? As imagens do Papa, do modo como ele é retratado pela mídia – ou as constantes repetições do instante em que Lee Harvey Oswald era baleado? E esses eventos têm alguma coisa a ver com rituais, ou danças com máscaras como aquelas de Peliatan, em Bali?  Performance não é mais um termo fácil de definir: seu conceito e estrutura se expandiram por toda parte. Performance é étnica e intercultural, histórica e atemporal, estética e ritual, sociológica e política. Performance é um modo de comportamento, um tipo de abordagem à experiência humana; performance é exercício lúdico, esporte, estética, entretenimento popular, teatro experimental e muito mais… (Schechner e McNamara, 1982)

 

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A performance é vista então como uma categoria abrangente que inclui brincadeiras, jogos, esportes, o desempenho na vida cotidiana e ritual como parte de um fluido da atividade teatral. Estamos vivendo em um mundo onde quase tudo que recebemos está embebido por atos performativos, uma verdadeira sociedade do espetáculo, parafraseando Guy Debord. Vivemos performance vinte e quatro horas por dia.

 

A performance é um termo inclusivo. Observando  o esquema desta rede abaixo é possível ter uma melhor noção desta abrangência:

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Interculturalidade, interdisciplinaridade, intergênero e todos os “inters” existentes são necessários para pensar sobre o conceito “Performance”, afinal se está pensado em rede, tudo precisa estar “inter”ligado.

Sejam artísticas, esportivas ou vida diária, as performances consistem na ritualização de sons e gestos. Mesmo quando pensamos que estamos sendo espontâneos e originais, a maior parte do que falamos e fazemos já foi feita e dita antes, pois rituais são memórias em ação, codificadas em ações.

A performance se origina nas tensões criativas do jogo binário entre eficácia e entretenimento. Estes, não são opostos, funcionam na verdade como “parceiros de dança”, cada um dependendo contínua e ativamente um do outro. Em qualquer período histórico, em qualquer parte do mundo e em toda cultura, as performances possuem várias finalidades, incluindo entretenimento, ritual, construção de uma comunidade e socialização. Todas essas funções podem ser resumidas com essa tensão dinâmica entre a eficácia e entretenimento. A performance se origina da necessidade de fazer que as coisas aconteçam e entretenham.

A fantástica performer Marina Abramovic
A fantástica performer Marina Abramovic

Mais para o final do livro, o autor traz também a ideia do Jogo. Ele afirma que o jogar, está como ritual, no coração da performance. Ele é intrinsecamente parte desta porque cria o “como se”, a arriscada atividade do fazer crer. O jogo, envolve exploração, aprendizado, o fluxo entre o risco e o ganho. O jogar cria sua própria realidade múltipla, com fronteiras porosas e escorregadias. Jogar é portanto, cheio de construções criativas do mundo.

Um grupo de teóricos do jogo enxerga o jogar como fundador da cultura, arte e religião humana. Outros, relegam o jogo a uma atividade ambivalente, que ao mesmo tempo sustenta e subverte a estrutura e os arranjos sociais. Mas como quer que se olhe para eles, o jogo e o jogar são fundamentalmente performativos. Quanto a isso, não há discussão.

Portanto: ritual e jogo. Duas palavras para uma tentativa primitiva de resumir a performance como conceito. O ritual contribui para definir padrões de jogo e repetições, os “sistemas” de performance. O jogo contribui para o comportamento exploratório, a criatividade e a construção do mundo.

E você, que achava que a  performance se reduzia somente aos artistas em cena, já parou para pensar como está a sua performance na vida?

 

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

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