Para dar início a esta coluna recorro à internet e à sua quase inevitável onda das redes sociais. Quase que em um movimento de irresistível resistência, acabei por me render ao Facebook, ferramenta que serve para propagar o quão “feliz” e bem sucedida é a vida das pessoas, mas que serve também para bisbilhotar, para ser curioso, para go further e, de repente, se deparar com questões que de fato nos propõem uma reflexão. Eis que nas vésperas do Carnaval, 28 de fevereiro, uma amiga do Facebook faz o seguinte comentário em sua página pessoal:

Andando pelas livrarias de Londres me deparei com uma série de livros fotográficos chamado “if you leave”. Apesar de trabalhar com arte e cultura não nasci com o dom pras artes visuais, especialmente as plásticas. Fotografia sempre foi o meu ponto mais perto com esse mundo, sempre encontrei trabalhos que me encantavam e despertavam alguns sensores no meu cérebro, mas nenhum projeto, nenhuma foto, JAMAIS me tocou como as fotografias desse conjunto de livros. Uma sensação inexplicável. Folheando o livro na loja experimentei a agonia, a tristeza, a vontade de chorar, angústia, solidão… surreal.
Ai descobri que o projeto nasceu de um site: http://if-you-leave.tumblr.com/ Obrigada, internet.

No momento em que li o comentário, a pergunta que me passou pela mente foi: por que as instituições nos distanciam daquilo que é nosso? O pensamento começou a divagar, da reflexão de como minha amiga, uma pessoa sensível que trabalha com artes pode se sentir e mesmo se distanciar tanto das artes visuais? Como alguém é capaz de acreditar não ter um “dom” para as artes visuais, quando esse mesmo alguém em outro continente, em situação turística na qual vários estímulos poderiam entretê-la, se entrelaça com um trabalho visual de forma tal que, não contente em manuseá-lo, em senti-lo, em lê-lo, promove uma busca na internet, se envolve com outras tantas questões e, não satisfeita com sua experiência-descoberta, de tão emocionada e tão agradecida, compartilha sua gratidão com seus amigos virtuais.

E a pergunta batia seu pêndulo em meu pensamento: “por que deste distanciamento?” Um distanciamento falso, por mais genuíno que possa parecer. Um distanciamento construído, forjado por instituições que, por razões diversas, primam por manter a arte como posse, afirmando que é seu o poder de dizer aquilo que é ou que não arte, ou ainda – aquilo que tem ou não tem qualidade. Um distanciamento que nos é introjetado quando, para nós, mais importante do que fazer pose de quem conhece e domina o desenho e a cor do tapete vermelho da entrada dos grandes templos das artes é, na verdade, a experiência e a “partilha do sensível”, como diz Jacques Rancière, encontrando, fazendo e estabelecendo nosso papel nesta partilha, compreendendo que a eficácia da arte “consiste sobretudo em disposições de corpos, em recorte de espaços e tempos singulares que definem maneiras de ser juntos ou separados, na frente ou no meio, dentro ou fora, perto ou longe”.

O cubo branco de Brian O’ Doherty, a heterotopia desenhada por Michel Foucault e o cubo redondo de Luiz Sérgio de Oliveira nos fazem ver e questionar o porquê de acreditarmos que a arte está presa dentro dos muros de museus e galerias. Antes de exibirem qualquer forma de arte, essas paredes concretas exibem o poder e a separação que estabelecem da sociedade como um todo. Não por acaso, a experiência dos longínquos gabinetes de curiosidades culminou nos atuais museus e galerias de arte. A lógica percebida pelo artista Daniel Buren de que “a vocação daquilo que está na superfície é ser incessantemente transformado” se aplica de forma perversa na questão das instituições de arte, pois a mesma se transforma para mostrar o quão atual e o quão afinada está com a sociedade, quando, na verdade, essas instituições estão perpetuando um distanciamento com essa mesma sociedade, preservando o poder de afirmar aquilo que é e o que não é arte.

Neste ponto, poderíamos discutir algumas das estratégias das quais as instituições se valem para fazer com que não só minha amiga, mas muitos acreditem que é necessário possuir um “dom” para as artes. A discussão é ampla e pode nos direcionar a vários sentidos. Mas como o espaço, mesmo o virtual, tem seus limites e suas restrições, por aqui ficamos com a promessa de mais palavras na próxima coluna. Antes, porém, preciso agradecer o comentário de minha amiga que me permitiu compartilhar minhas próprias inquietações e aflições. Ao contrário do que as instituições propõem, a arte está na vida muito mais do que presas em molduras e em paredes de museus e de galerias. Para quem quiser saber mais sobre as citações desta coluna, deixo aos leitores curiosos o estímulo, imitando o gesto de minha amiga: “joga no Google”, na internet, pesquise, descubra por e para você!

Caroline Alciones
outono de 2014

 

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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