Toda vez que leio esses textos sobre viajar fico sempre com uma pulga atrás da orelha. Como receitas para fugas de vidas insatisfeitas, esses parágrafos me levam a acreditar que minha vida é horrível se não estou nesse exato momento dentro de um avião. Não quero parecer reclamona, muito pelo contrário, sou partidária do culto à viagem e no meu pé direito têm três passarinhos e a palavra além… Para me lembrar sempre que a estrada vai além do que se vê.

Mas, essa epidemia de textos emocionados e emocionantes sobre a estrada, um país novo e deixar tudo pra trás, me fez refletir sobre minha relação com a viagem. Posso dizer que as duas vezes que deixei “tudo pra trás”, na realidade, não deixava nada pra trás. Tinha a ilusão de começar algo novo, mas percebi que isso leva tempo e uma mudança interior muito mais que de logradouro. Esses textos, no final das contas, ainda que sirvam como incentivo para tirar a gente da zona de conforto, me parecem muitas vezes infantis. No lugar de resolver: fuja!

Começar uma vida nova e do zero dá trabalho, é difícil e isso não sai nas fotos com cachecol e pele impecável.  A viagem antes de tudo é um desafio. Morar fora do país é enfrentar preconceitos e discursos que dão ânsia de vômito, foram incontáveis as vezes que ouvi coisas como ‘brasileiras vão para a Europa roubar maridos, só querem dinheiro, gravidez e um passaporte europeu’. Isso não fica bonito na foto e nem a individualidade.

Lembro uma vez que ajudei um desconhecido que estava desacordado em pleno San Joan –  a festa popular mais louca que já vi, sendo o único dia que é permitido beber na rua, os espanhóis saem com seus petardos (espécie de mini fogos de artifício) disparando por todo lado, as calles viram verdadeiras trincheiras – e com uma amiga brasileira começamos a ajudar o rapaz… Todas as pessoas que passavam por ele o ignoravam e quando nos vieram ajudando, diziam: “não se dê ao trabalho, é só um bêbado”. Um bêbado deixa de ser humano? Isso é algo que também não sai bonito como o Park Guell ou a Sagrada Família. E, sim, para o bem e para o mal a individualidade é respeitada. Eu, confesso, ainda prefiro a solidariedade brasileira. Claro que encontrei a mesma solidariedade espalhada por aí, mas esse dia foi um exemplo clássico de muitas situações do mesmo estilo que presenciei nos últimos dois anos. E, penso na decepção que deve ter quem cai no mundo pra fugir de alguma coisa… Como fugir da fuga?

Confesso que essa ode ao desprendimento me incomoda, todos os meus caminhos foram feitos de encontros e se tivesse a opção, colocaria todas essas pessoas queridas, experiências, lugares, cantinhos, esquinas e afetos na mesma ilha e ficaria pra sempre. Então, porque essa gana de abandonar tudo?

Impossível não pensar em Chico.

Mas fica
Mas fica, meu amor, quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar

E, acho que de todas as minhas andanças e desvios o que eu descobri de mais valioso é que mais que carimbos no passaporte, mais que largar tudo e partir pra uma aventura, mais que todas as coisas mais incríveis que você vai encontrar no caminho e você certamente irá encontrá-las, mais que tudo de maravilhoso que se revela quando estamos de olhos bem abertos, a minha grande descoberta foi que ficar é o mais difícil. Ficar é entender, superar e discordar de tudo, mas resistir. Não ser levada pela mídia, pelas narrativas e fotos de Facebook a pensar que a sua vida é menos interessante só porque você é feliz onde está.

Entendo a partida, mas o que estou apaixonada é pela chegada. Como depois de viver anos de nomadismo, de passagens, malas de mão e mudanças de planos, como é incrível poder fazer planos para daqui a duas semanas com gente que eu conheço de uma vida inteira. Como é confortante saber onde se pisa.

Sei que a estrada vai me chamar mais cedo ou mais tarde… Mas, hoje deixo como reflexão: Onde você ficaria? Onde seria o seu destino de sempre? Aquele lugar que você gastaria todas suas milhas pra nunca sair dele?

Mais do que fugir e cair no mundo, cair na gente é a melhor viagem. Quando isso acontece, o mundo é o presente óbvio, as estradas se abrem, os idiomas ressoam no mesmo tom, os temperos não dão indigestão e o que fica é o sabor de uma vida bem vivida. Mesmo que isso seja sem sair do lugar. E, essa é a dica mais valiosa que eu poderia dar.

 

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

2 COMENTÁRIOS

  1. "Mais do que fugir e cair no mundo, cair na gente é a melhor viagem. Quando isso acontece, o mundo é o presente óbvio, as estradas se abrem, os idiomas ressoam no mesmo tom, os temperos não dão indigestão e o que fica é o sabor de uma vida bem vivida."

    <3

    Coisa mais linda, Annanda!

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