Tive uma grande surpresa essa semana ao compartilhar uma postagem sobre política e minha posição. Pela primeira vez fui bombardeada por mensagens e reações de amigos e colegas que tomaram minha opinião como algo a ser contestado. Acompanhava a discussão política pelas redes, mas sempre pensei que essas discussões emocionadas fossem coisas que só acontecessem no Facebook do vizinho.
De repente, me dei conta que talvez seja mesmo impossível ficar alheio ao debate e que participar do mesmo é um dos sintomas de que se faz parte do território, que você se identifica com a cidade/nação, e que a pólis desperta um sentimento de pertencimento capaz de fazer você brigar com seu melhor amigo.
Sempre fui contra a máxima de que política e religião são assuntos proibidos, da mesma maneira que sou contra evitar o debate, porque é ai que surge o entendimento e se exercita a empatia. No entanto, as relações e interações sobre posicionamentos políticos no Brasil tem me feito refletir sobre esses pontos. A parte da imprensa que adota um discurso parcial, a maneira como a parte da população adotou os discursos dos partidos de direita e a esquerda sendo constantemente alvo de críticas radicais, tem reduzido o debate a binômios tão simplistas quanto prejudiciais ao amadurecimento da nossa democracia.
De repente, um monte de gente que parece não ter memória, ter lido apenas a Veja ou comprado a última mentira embalada para viagem, tem uma opinião forjada e toma um dos lados para si. Como se no atual cenário isso fosse algo plausível de se fazer. Não existe o bem ou o mal. Existem interesses e acredito que deve ser normal (o que é normal? O vocabulário me restringe… Melhor recorrente?) ou recorrente lutar cada um por seus interesses.
Foi assim que os Judeus foram parar em um Gueto e depois em campos de concentração, foi assim que vivemos a escravidão e é assim que se morrem nas fronteiras dentro de caminhões frigoríficos. Uns lutando pelo seu bem estar e crenças e outros pagando com a vida por isso.
No Brasil isso foi calado e velado por anos: o negro, o pobre, a mulher, os homossexuais, os transgêneros, os gordos, os moradores de rua, os drogados, os marginais; e tudo aquilo que nos assola de medo: o outro. O outro que não é branco, normativo, tradicional e filho de alguém importante dá medo e balança as estruturas quando começa a comer, a estudar e a se instrumentalizar para questionar o Brasil Colônia de 2015.
Vejo meus amigos, e ao dizer isso espero não perder nenhum, defendendo seus interesses: os médicos contra os médicos cubanos, os ricos contra os pobres na praia e contra o “Bolsa família”. O que mais me aterroriza: pessoas que foram diretamente beneficiadas pela recente tentativa de distribuir a renda nesse país classista e colonial, contra um governo que avançou no debate do social e serve de exemplo para outros países.
Não tomo lados, mas meu posicionamento político é um exercício de empatia. Que a corrupção acontece, sabemos e isso está por todos os lados. Que tem muita coisa pra mudar e melhorar, acredito que também é de comum acordo, ou deveria ser. Mas, reduzir a discussão a Esquerda x Direita, Dilma x Aécio, Eu x Você é ignorar a diversidade do país onde vivemos e a monstruosidade que acontece aqui.
A alta do dólar e cancelar as férias internacionais é o menor dos nossos problemas, todavia, no campo simbólico nosso maior problema acredito que é tomar o debate para si de forma parcial. Porque enquanto discutirmos política do nosso ponto confortável, estático e egoísta não estamos discutindo e fazendo política enquanto seres humanos que somos, munidos de afetos e solidariedade.
Em uma semana que recebemos o ex-presidente do Uruguai, que nos traz uma mensagem de resistência, mas muito mais de progresso, igualdade e afeto, em uma semana que se encontraram dezenas de mortos tentando cruzar fronteiras, é tempo de falar de política e é tempo de decidir que país não queremos ser.

Deixo para vocês o texto da prefeita de Barcelona, Ada Colau, sobre as mortes nas fronteiras como exemplo de política que gostaria de ver surgir e que ser humano eu gostaria de ser.
Para quem não conhece, Ada era uma militante do Movimento de Ocupação em Barcelona e foi eleita prefeita da cidade este ano.

 

Tradução nossa:

“Antes de ontem, 50 pessoas morreram asfixiadas no porão de um navio. Ontem, mais de 70 mortos no interior de um caminhão. Hoje acordamos com dois naufrágios: talvez mais de uma centena de mortos. Temos um mar que está cheio de mortos. Fronteiras que são preenchidas com fios, pregos, lâminas … e mortos.

Homens, mulheres, meninos e meninas, mortos.

Uma parte da Europa chora, grita, querem que se salvem, que não morram, mas… mas que não venham, que se vão, que desapareçam, que não existam e que não tenhamos que os ver na TV, e muito menos nas nossas ruas, com seus cobertores, no metrô, ou nos degraus de nossas casas.

Alguns de forma irresponsável, promovem o medo “ao outro”, “aos ilegais”, “os que vendem sem licença”, “que utilizam a nossa saúde”, “que utilizam nossa ajuda”, “os que ocupam nossos espaços escolares”, “que pedem”, “que mendigam”, “que cometem crimes”… Porém, o medo é apenas isto: medo. Nosso medo de viver um pouco pior contra o seu medo de não sobreviver. Nosso medo de ter de compartilhar uma pequena parte de bem-estar contra o seu medo da fome e da morte, tão profundo que lhes deu a coragem de arriscar tudo para vir com nada além do próprio medo.

Medo contra medo. E o seu é mais forte. Então, Europa, Europeus: abram os olhos. Não haverá paredes ou fios suficientes para parar isso. Nem bombas de gás lacrimogêneo ou balas de borracha. Ou abordamos o drama humano da capacidade de amar que nos torna humanos, ou acabaremos todos desumanizados. E haverá mais mortes, muitos mais. Esta não é uma batalha para proteger-nos “os outros”. Agora mesmo é uma guerra contra a vida.

Que os governos parem de ameaçar com o “Efeito chamariz”. O que a Europa precisa urgentemente é uma “chamada ao afeto”, uma chamada para a empatia. Poderia ser nossos filhos, irmãs ou mães. Poderia ser nós mesmos, como também foram exilados muitos dos nossos avós.

Embora se trate de uma questão de competência Nacional e Européia, de Barcelona faremos tudo o que pudermos para participar de uma rede de cidades de refúgio. Queremos cidades comprometidas com os direitos humanos e com a vida, cidades de que nos sentimos orgulhosos.”

 

Original:

“Antes de ayer 50 personas murieron asfixiadas en la bodega de un barco. Ayer más de 70 muertos en el interior de un camión. Hoy nos despertamos con dos naufragios: puede que más de cien muertos. Tenemos un mar que se llena de muertos. Unas fronteras que se llenan de alambres, pinchos, cuchillas… y de muertos.

Hombres, mujeres, niños y niñas, muertos.
Y una parte de Europa llora, grita, quiere que se salven, que no mueran, pero… pero que no vengan, que se vayan, que desaparezcan, que no existan y que no tengamos que verlos en la tele, y menos en nuestras calles, con sus mantas, en el metro, o en las escaleras de nuestras casas.
Algunos de forma irresponsable promueven el miedo a “los otros”, “los ilegales”, “los que vienen a vender sin licencia”,” a gastar nuestra sanidad”, “a quedarse nuestras ayudas”, “a ocupar nuestras plazas de colegio”, “a pedir”, “a mendigar” “a delinquir”…
Pero el miedo es sólo eso: miedo. Nuestro miedo a vivir un poco peor contra su miedo a no sobrevivir. Nuestro miedo a tener que compartir una pequeña parte del bienestar contra su miedo al hambre y a la muerte, tan profundo que les ha dado el valor de arriesgarlo todo, para venir sin otro equipaje que el propio miedo.
Miedo contra miedo. Y el suyo es más fuerte. Así que Europa, europeos: abramos los ojos. No va a haber suficientes muros ni alambres que paren esto. Ni gases lacrimógenos ni pelotas de goma. O abordamos un drama humano desde la capacidad de amar que nos hace humanos, o acabaremos todos deshumanizados. Y habrá más muertos, muchos más. Ésta no es una batalla para protegernos de “los otros”. Ahora mismo esto es una guerra contra la vida.
Que los gobiernos dejen de amenazar con el “Efecto llamada”. Lo que necesita Europa, urgentemente, es una “Llamada al afecto”, una llamada a la empatía. Podrían ser nuestros hijos, hermanas o madres. Podríamos ser nosotros, como también fueron exiliados muchos de nuestros abuelos.
Aunque se trata de un tema de competencia estatal y europea, desde Barcelona haremos todo lo que podamos para participar de una red de ciudades-refugio. Queremos ciudades comprometidas con los derechos humanos y con la vida, ciudades de las que sentirnos orgullosos.”

 

Agora, existe mesmo Esquerda e Direita? Eu só vejo esse caminho.

 

Imagem da capa: Fbaraglia

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

DÊ SUA OPINIÃO