Projeto Social A TOCHA!

Se em nossa última crônica nos debruçamos sobre a amizade retratada pelo instante decisivo de Cartier-Bresson, nesta semana, me interessa falar sobre amizade, porém em outro âmbito. Interessa-me pensar sobre a amizade que se cria e que, tal como o zero, a partir de sua invenção, se faz tão vital e tão indispensável que quase não podemos imaginar como a vida se dava antes de sua criação.

 

27 de setembro, dia de São Cosme e São Damião, dia daqueles que nascendo juntos, gêmeos, trilharam uma filosofia de vida visando à coletividade – sendo médicos, trabalharam juntos na busca de tratar de pacientes e, conforme escritos, não aceitavam uma paga sequer. Faziam-no por convicção e porque, de uma forma ou de outra, foi algo do qual não conseguiram escapar.  27 de setembro, dia de lembrar de Erê – o quê de criança que cada um traz de si. Dia de brincar. E paro por aqui minhas referências a religiões africanas, uma vez que pouco sabendo, entendo melhor o silêncio em palavras por respeito sincero.

 

27 de setembro de 2013, dia de  Invenção do Zero do PROJETO SOCIAL A TOCHA! E assim o coletivo mais coletivizado de artistas com os quais tive e tenho oportunidade de conviver realizou a exposição Invenção do Zero. Tratava-se, à época, de um coletivo de cinco artistas e de adjacências. Adjacências essas que se engajaram na produção coletiva de inventar (d)o zero e que pertencem por ordem de pertencimento coletivo à coletividade do PROJETO SOCIAL A TOCHA!

 

Diferentemente dos cinco amigos do conto de Franz Kafka que não aceitavam o sexto elemento, os cinco-amigos-artistas (ou seriam seis?) do PROJETO SOCIAL A TOCHA! aceitaram o sexto e o sétimo (ou seriam sétimo e oitavo?) elementos supostamente recém amigos-artistas.

 

Uma exposição e tanto! Abismos, espelhos, som, linhas retas, iguarias culinárias, tinta em vidros e um tanto de gente alto astral entendendo que, mais do que fazer pose e discutir questões de arte, o importante é o que se dá, o que se faz e o que se aprende no encontro com o outro. Outros tanto quanto eu e você que talvez nem se quer percebam que estão construindo juntos um trabalho de arte. Aquele outro que é um ser tanto quanto eu e você e que assim sendo, possui dúvidas e indagações a respeito o nome do coletivo – PROJETO SOCIAL A TOCHA! – Ahm? Projeto Social? A tocha ou atocha?

 

Um coletivo tão coletivizante que se permite boas gargalhadas com a risada da perua que, não vendo outra coisa além do externo, é capaz de afirmar que aquele trabalho seria o mais belo por refletir sua imagem no espelho. Imagem? Mas que imagem?

 

Um coletivo de diferenças, reunido por simpatias, por respeito e por afinidades. Um coletivo que reconhece e que não sendo indiferente a suas diferenças sabe com elas conviver. Um coletivo que no melhor do agonismo de Chantal Mouffe percebe que o enriquecedor é o debate e não uma postura que sugira que melhor do que dialogar e divergir seria virar de lado e passar ao longe.

 

A esse coletivo, que o Zero inventa e que do zero se renova, todo o meu respeito. A esse coletivo que, não pretendendo atacar ou impor nada a ninguém, possui suas portas abertas para “o novo que sempre vem” desde que venha com tudo e mais um pouco de si e de verdade de existir, vida longa!

 

Em um momento no qual a palavra coletivo é aplicada sem nenhum critério e pudor, o PROJETO SOCIAL A TOCHA! vem para lembrar que a antiga Galeria do Poste ainda carrega sua luz, mais viva do que nunca e sempre se reinventando a partir de uma relação fraterna de reconhecimento e valorização das diferenças no convívio com o outro. Um coletivo que mostra o porquê e o quê de genuíno em uma ideia de coletivo e a força que há no momento da criação artística, do encontro com o outro muito mais do que no expor de produtos. Um coletivo que em toda sua leveza e consistência é capaz de ser no cúmulo de sua existencialidade artística, dispensando padrões de reservas e conservas museológicos e mesmo dispensando ares supostamente novos e rebeldes que a superfície acredita ser a alma da coletividade. Um coletivo que, inundando mentes de dúvidas e indagações – afinal, por quê Projeto Social? – me faz perceber o quanto a palavra “coletivo” tem sido banalizada a partir de relações supostamente de arte. Por esse e por outros coletivos de verdade – mais cautela por favor e respeito também com a palavra coletivo.

 

Vendo que o Verão está chegando

Caroline Alciones

 

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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