Desde que cheguei em terras catalãs e conheci meu primeiro amigo catalão, que é um adepto e praticante dos Castellers, comecei a ouvir sobre esse costume local que não entendia muito bem em que consistia. Chegado o verão, as ruas de Barcelona são tomadas pelas festas de bairro e pelos famosos Castellers, que são as famosas torres humanas. Os catalães têm esse costume há mais de dozentos anos e existem registros de desde o século XVIII.

As colles são como “escolas de samba” e são os grupos de pessoas que praticam o castells.  Quando se reunem fazem as pinya que é base do “castelo” e onde se concentra o maior número de castelleres, que é como se chamam as pessoas que fazem parte da torre humana. Logo, vão subindo e fazendo os andares que que formam o tronc, existem tipologias de castells, e são definidos pela quantidade de andares e pela quantidade de pessoas que há em cada andar.

A competição mais famosa de castellers mais famosa é em Tarragona, em um estádio que foi especificamente feito para essa prática. Seu tamanho foi pensado para comportar todas as colles, e a foto que ilustra o texto é justamente dessa competição, que acontece a cada dois anos. As “escolas” são escolhidas por competições em pueblos e o interessante, sobre essa prática, é que mais que ganhar uma da outra, essas organizações têm como princípio a própria superação. Conseguir fazer um castelo mais alto, com mais pessoas e ser desfeito corretamente.

Das coisas que me deixaram mais nervosa sobre esse costume, tenho que destacar dois: primeiro, quando a casa, literalmente, cai. Ver isso ao vivo é uma aflição. Imagina, uma torre de dez andares de pessoas e que todos caiam (!!!). Todavia, o espírito de equipe é algo impressionante também. A base forte é o que permite que o casteller seja mais alto e é o que sustenta os que, eventualmente, possam cair. A segunda coisa é que geralmente o topo dessa torre é uma criança. Repito: uma criança! É uma agonia sem fim ver esses projetos de gente escalando com habilidade andares de pessoas para, então, chegar ao topo. O casteller é bem sucedido quando o “topo” alcança o cume e todos descem sem cair.castellers-la-merce-barcelona-espanha

Os praticantes têm uma indumentária própria e os encontros semanais para o treino do castell são uma maneira de sociabilização da comunidade. Mais que um “esporte”, o castell vira um estilo de vida. Há alguns anos, esse costume voltou a ganhar destaque e como marca da cultura catalã, virou manifesto. Em junho desse ano, nas cidades de Paris, Bruxelas, Roma, Berlim, Lisboa, Genebra e Londres,  os castellers foram fazer seus castelos humanos para pedir o direito de votar sobre a independência catalana.

O estranhamento inicial que tive ao ver esse monte de gente um em cima do outro, a medida que conheço mais da cultura local e dos castellers, se torna uma mirada mais generosa e interessada. Para quem vem de visita a Catalunha: nada de ficar com medo que desmoronem. Eles sobem outra vez!

Para conhecer um pouco mais:

 

 

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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