Eu não hesito e nem penso duas vezes quando me perguntam sobre a melhor parte de viver na Europa, a resposta salta da minha boca antes mesmo que eu possa me dar conta: a melhor parte de viver na Espanha foi poder ser mulher lá. E, foi nesse período que eu pude perceber como ser mulher no Brasil é uma luta, uma resistência, uma experiência de intenso, constante e presente sufocamento.

Não podemos fazer nada, não podemos pensar muito e muito menos falar sobre isso, sobre essas angústia de andar na rua com medo, de parecer estar sempre a ponto de estar exposta a algum abuso. O machismo é sintomático e mundial, mas no Brasil ele ganha requintes “especiais” de crueldade quando adicionamos as desigualdades sociais, a falta de segurança pública e assistência à menores em situação de risco. É como juntar o horror à falta de humanidade.

O mestre faz, oprime e não quer ouvir sobre isso, está bem difícil ser a gente. Quando o coletivo Think Olga lançou a campanha do #primeiroassédio em resposta aos comentários misóginos, pedófilos e realmente horríveis sobre a menina do Master Chef, comecei a ler sobre os assédios que sofreram as mulheres das minhas redes sociais. Você leu? O que você viveu?

Falar de feminismo na teoria pode distanciar da realidade, Butler, Derrida e toda essa gente que desmonta o machismo e constrói o que poderia ser o feminismo nem sempre é acessível, são leituras duras e que requerem uma maturidade que meninas de 12 anos e mesmo mulheres adultas podem não ter. Mas, trazer por e pro afeto, por empatia, por histórias terríveis do nosso dia-a-dia é acessível, é real e traz à luz o que acontece na escuridão. Nos criaram para pensar que somos frágeis e suscetíveis, que nosso corpo é público e não há nada a reclamar sobre isso. Que devemos falar menos palavrão e usar mais saias, mais silêncio e mais subserviência.

Quando na aula da ilustre professora Isabel Clúa sobre a construção dos gêneros, vi com provas irrefutáveis, que mesmo os livros de medicina eram machistas e construídos para criar um ideal de mulher-sexo-frágil a partir de princípios de biologia. Meu mundo abriu para uma nova possibilidade de existência. A mulher nos livros de medicina do séc 18, era pintada como a Vênus de Boticelli, ruiva, branca e a representação de tudo que deveria ser feminino e possuído pelo homem. Até as dimensões do corpo dessa representação do que seria mulher eram irreais e, uma vez registrado em um livro de medicina, foram interpretados como real.

As aulas de anatomia eram realizadas em teatros, os estudantes e os professores se colocavam em um palco e o público assistia a dissecação de uma boneca de cera, a “Venus Wax”. Uma boneca de cabelos compridos, colar de pérola e rosto de proporções clássicas: itens realmente relevantes para uma aula de anatomia? Ou atendendo a espetacularização e objetificação da mulher?

Agora, o que o primeiro assédio e a Venus Wax tem a ver?  A Venus Wax é o assédio da construção e representação da identidade feminina, que foi feita para atender ao desejo do homem e não para fins científicos somente, foi provido de um discurso e objetivo: se a ciência e a medicina falam que a mulher é assim, ela tem que ser. Não?

O absurdo que experimentei diante dessa constatação é o mesmo que experimento ao ler sobre os assédios. Vivemos assédios todos os dias e perdemos a sensibilidade para o absurdo. Se um homem falasse uma gracinha para mim enquanto estava na Espanha, tenho certeza que isso ia me chocar profundamente. Nas ruas do Rio, é uma rotina e não afeta mais tanto minha sensibilidade, é como se fosse só mais um e assumo que minha falta de choque é a minha contribuição para a manutenção do machismo corrente.

E, sim, quase tudo é machismo. Sim, é chato. Sim, eu gostaria que esse fosse um tema superado e que nem precisássemos falar sobre isso… Mas, não é o caso. Porque eu continuo ganhando menos quando sou mulher, porque ainda somos desvalorizadas por nós mesmas, por nossas práticas sexuais e/ou afetivas, ainda temos que falar sobre isso porque apanhamos dentro de casa e nos calamos, porque passam a mão na gente na rua, na festa, dentro de casa, porque proíbem a gente de tomar escolhas que dizem respeito somente ao nosso corpo, porque querem proibir a pílula do dia seguinte e nos fazer casar pra sair bonita a foto do Facebook e atender ao desejo da sociedade de nos ver enquadradas e empalhadas, melhor: embaladas a vácuo pra consumo.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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