Desde que comecei a escrever a coluna no TagCultural muita coisa aconteceu e meus textos viraram um relato íntimo, mesmo quando não evidente. Minha coluna está intimamente ligada a minha vida. Ela cresce comigo, tropeça, erra muito, voa de low coast e é sempre carregada de muito sentimento, expectativa de entendimentos e malas de mão que levam mais coisa do que parecem. Nesse ano de textos e reflexões percebi que o que dava mais certo eram textos que eu conseguia dividir minhas impressões sobre experiências extremamente pessoais e minhas leituras do mundo ao meu redor.

Aliado às experiências de vida tenho o meu tema de interesse e estudo que envolve educação, e estudar fora do país tornou possível conhecer outras práticas, outros autores, outros cânones e outra estrutura de ensino que abriram minha cabeça de maneira abrupta e, por outro lado, poética. Pude aprender a ler de novo e com outras miradas.

Bourdieu fala sobre como as escolas de pensamento estão relacionadas com seu tempo e fala da educação e da sociedade, como uma/outra alimenta e é retroalimentada pela outra/uma. Como a maneira com a qual aprendemos, molda nossa maneira de existir e nos relacionar uns com os outros. Podemos ler isso de tantas maneiras que toda vez que leio essa passagem descubro uma nova possibilidade.

Acredito que a diferença mais forte que pude perceber  a nível acadêmico, foi sobre a abordagem do tema “guerras”. No Brasil estudamos guerras, claro. Mas, nossa relação com o tema – acredito que devido a distância geográfica e simbólica dos fatos – é muito diferente da relação que pude perceber nas aulas sobre o assunto no mestrado. Guerra faz parte do imaginário Espanhol – acredito que Europeu- de uma maneira extremamente presente e que, arrisco dizer, permeiam muitas práticas culturais.

Tendo isso em mente, comecei a investigar histórias de vida ao mesmo tempo que investigava autores novos, e a permitir –  não sem dificuldade –  que outras formas de ver o mundo entrassem pouco a pouco em mim. Como nova possibilidade de ser, lutei contra minha posição confortável de ser eu e tentei ser outros. Essa prática é diária e, confesso, que estar fora do Brasil me ajudou nisso.

Adotei novos hábitos que não aprendi necessariamente nem na rua ou no mestrado… Mas, que hoje vejo que muito disso me foi passado na maneira com a qual me era ensinado o conteúdo teórico do mestrado. Mais do que autores, os professores e meus companheiros de classe, me ensinavam como era sua estrutura sociocultural e como aquele tema era abordado a partir disso. As letras e as vivências encontravam sentido aos poucos.

Conversava muito com minha vizinha, D. Carmen de 90 anos e do campo. Ouvir suas histórias de Franco e sobre como ela plantava batata as quais não poderia comer, pois serviam pra alimentar as tropas me fez entender muito mais Primo Levy e os textos sobre dor do Wittgestein.  E, quando a professora alemã me contava que a conclusão é que falar sobre guerra era dizer o indizível, pensava em tudo que me dizia D. Carmen. Será que é assim que se entende uma sociedade? Recorrendo às leituras e às pessoas?

Ser estrangeiro dentro de uma instituição de ensino é bastante desafiador e as maneiras de aprender e conhecer passam por provas constantes da mesma maneira que vivemos essas tensões ao andar na rua.  Mas, perceber como uma universidade e a rua são relatos do seu tempo é bastante interessante, ou pelo menos eu acho.  E, casar isso é o que têm de mais rico na experiência de estudar fora do país de origem. Como cada sujeito, dependendo –  e independendo? – da sua posição lê o mesmo texto de maneira única.

Entendo texto e literaturas, como narrativas em um sentido amplo. Pesquisando para esse texto ouvi de um amigo francês sobre suas experiências e impressões de viver na China e ele me contou que o que mais fez ele pensar e reconstruir suas certezas anteriores a estar na China, foi o fato de que lá as famílias vivem juntas. É muito comum os avós viverem no segundo andar da casa e o restante da família no primeiro andar e assim passarem a vida inteira um cuidando do outro. Enquanto na cultura dele isso seria algo impensável. Ele próprio não vive no mesmo continente de sua família e ao ver essa outra possibilidade de vida, ele foi levado a questionar-se: Estaria eu sendo ingrato ao “abandonar” minha família quando eu só existo por causa deles?

Talvez isso pra um brasileiro não seja algo tão impactante, mas seja em uma sociedade – como a francesa – onde você é levado acreditar que morar com a família é sinal de fracasso e uma vida de sucesso não está projetada pra viver perto da família. O que significa esse questionamento na cabeça de alguém? É o pensar: cadê a certeza que estava aqui há 2 minutos atrás?

Será possível um real contato com o diferente? Romper a casca e pensar de verdade como seria viver com outra pele, outra história e outra “invenção” cultural.

Juntando essa peça ao quebra-cabeças que proponho aqui, te provoco a pensar como estar diante do diferente é desafiador, provocante e caótico. Aprender outras maneiras de existir exige uma reflexão teórica e principalmente se entender passível de desconstruções e adorar elas. Respirá-las e deixar que elas façam morada em você, só pra você vir depois e construir tudo diferente outra vez. Aprender outras maneiras de existir é também contar com doses cavalares de sensibilidade.

Hoje escutei uma música dessas chicletes que fala:

Antes de virar senhor
Queria o mundo viajar
Conhecer histórias que farão de mim
Melhor em qualquer lugar

Acho que nesse ano de cultura no exterior pro TagCultural foi isso que tive em mente mesmo sem que isso tenha sido um critério. Quis contar sobre esse encontro com olhos generosos e encantados para o que podia e pode ser e, também, sobre como os encontros são o melhor das viagens. Que experimentar outra cultura envolve muitos sentidos. Estar aberto aos sabores e contradições é uma sorte e que cada história que descobrimos é mesmo um tijolinho pra fazer uma melhor versão da gente.

Às vezes temos mesmo a sorte de encontrar isso em uma vizinha, dentro de casa, ou do outro lado do mundo. Espero que minhas confusões e linhas que foram meus mapas esse ano tenham levado vocês a novas ruas e esquinas de si mesmo.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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