teatro3 (1)O quarto espetáculo infantil da Cia. Circo Mínimo esteve no último dia do FIL: Simbad, o Navegante. O grupo de São Paulo, que tem 27 anos de carreira, totaliza com Simbad seu 17º trabalho.

Simbad e seu capitão se permitem a variadas aventuras demonstrando força e determinação ao longo de 7 contos, penetramos nas histórias com imagens e desenhos contagiantes que engolem o espectador. O texto de “As Mil e Uma Noites” tem a tradução de Mamede Mustafa Jarouche, que inserido em toda a atmosfera, nos transporta para um mundo fantástico de luzes, bambus e uma excelente disponibilidade corporal. A adaptação conta com clássicas repetições que permitem, por associação, o riso e a identificação com os personagens. Percebe-se, entretanto, que enxertos no texto surgiram ao longo do processo cênico; os atores perceberam no contato com a plateia o que funcionava para além da dramaturgia oficial, dando colorido à cena e cativando principalmente o público infantil.

O espaço cênico nos recebe a priori para momentos mágicos. Em formato retangular com tapetes delimitando o espaço que ocorrerá o encantamento, os atores permanecem quase o tempo todo inseridos dentro desse contexto ritualístico, permeando as histórias com a versátil manipulação dos bambus, que são os grandes responsáveis pelo encaixe visual e lúdico do espetáculo. Na direção de Carla Candiotto, percebemos dois pontos primordiais. Primeiro temos a exploração ampla do principal material de trabalho deste espetáculo: o bambu é transformado diversas vezes em navios, pássaros, gigantes entre outras figuras. A intimidade dos atores com o bambu é registrada, no entanto, alguns belos momentos se gastam mesmo sendo ideias valiosas que garantem o ritmo do espetáculo – isto é, pode apresentar ritmo mesmo sem o frescor das ideias requentadas. Segundo, temos uma mistura de linguagens como dança, teatro, circo e contação de histórias. Do ponto de vista técnico, o excesso de expressividades enfraquece quando a teoria não é executada, ou seja, as modalidades conjuntas não logram êxito. Separadamente se observa o limite entre cada uma delas, fraturas que não respeitam a homogeneidade a qual se dedica. Do ponto de vista fantástico, isso pouco importa para o público infantil.

Os atores Rodrigo Matheus (responsável pela adaptação textual ao lado de Carla e Alexandre Roit) e Ronaldo Aguiar (palhaço, bailarino e acrobata convidado) representam artistas bufões que interpretam o navegante e seu capitão nas aventuras. Nesta proposta múltipla, se espera que os guias desse texto dramático-narrativo, contemplem os pré-requisitos para transitar entre cada categoria – teatro, dança, circo e contação. Ronaldo Aguiar nos alimenta com sua representação a cada história, transformação ou contação, fazendo personagens distintos de forma fluida (tanto os dos contos como o palhaço atrapalhado). Já com Rodrigo, há uma maior solidez e inflexibilidade permanecendo estanque num modo de oratória cansativo desconectado das palavras ditas. Quando retorna para a luz aberta, ajustado no arquétipo do espertalhão, se enfraquece de intenção e tônus, sujeito a tiques involuntários do intérprete. Entretanto, apresenta um tom convincente ao contar as histórias – sobretudo para as crianças – embarcando na excelente iluminação de Wagner Freire e precisa trilha de Aline Meyer.

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Realmente parece um sonho ter esse tipo de qualidade imagética no teatro infantil hoje em dia, ainda mais exigindo do corpo do ator um trabalho tão intenso. As figuras trabalhadas no controle dos bambus são de brilhar os olhos de adultos e crianças – o conto “Ossos de Elefantes” é extasiante. Porém, é preciso um cuidado com o acabamento ideológico da estrutura, não somente com um valor estético, no âmbito da fisicalidade. Porque, mesmo que composto de metáforas que acendem o imaginário, é necessário haver uma interligação entre os tipos de códigos propostos.

Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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