Quando comecei a me interessar por leitura, uma dúvida me veio à mente: por onde começar? Quando você descobre o poder dos livros, é inevitável sentir uma espécie de vertigem diante da quantidade de publicações que existem no mercado. Bate aquele desespero “eu nunca vou conseguir ler todos os livros que eu quero”, e quando você se arrisca a experimentar um autor do qual você nada sabe, também vem o questionamento “será que esse livro é bom? será que eu não vou estar perdendo o tempo em que eu poderia ler algo melhor?”

Depois de um certo tempo, um livro puxa o outro. O autor que você gosta cita alguma inspiração, você descobre que seu livro preferido foi influenciado por uma obra do século passado, você passa a se interessar pelos livros preferidos de pessoas com gosto similar ao seu… O que importa nisso tudo é que, antes de empreender uma nova leitura, é essencial buscarmos referências.

O que nos leva…. às listas! Vai, quando você está em casa e quer uma dica de filme, de livro, de comida, é inevitável recorrer às listas

de internet. Essa lista é a lista que eu gostaria que tivessem me indicado quando eu não fazia ideia do que pegar para ler. Não são necessariamente os melhores livros do mundo, mas eu espero com sinceridade que toquem você da mesma forma que me tocaram.

A hora da estrela, de Clarice Lispector.

Um livro de apenas 88 páginas que consegue ser um dos maiores em língua portuguesa. Toda genialidade de Clarice Lispector está ali: a profundidade de cada personagem, por mais simples que ele seja; a capacidade de misturar falas para gerar uma visão plural e sem maniqueísmos; a força de uma história emocionante, sem malabarismos melodramáticos… O nome da autora pode gerar algumas reações em quem não a conhece, devido à proliferação de trechos fora de contexto e alguns que nem são dela, mas esse livro é suficiente para desfazer qualquer má impressão. Eu mesmo, que não sou o maior fã de Clarice, não consigo resistir ao seu charme.

O estrangeiro, de Albert Camus

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Meursault mata um homem. Assim, com a mesma simplicidade da frase anterior. Talvez tenha sido o sol que o tirou da razão. Talvez não. E por isso, ele é preso, julgado e condenado por assassinato.  Diante do tribunal, fatos sem nenhuma relação com o crime são trazidos a tona para se provar a monstruosidade do personagem – na verdade, não há maldade alguma em Meursault, só a indiferença pela própria vida e a sua recusa de agir conforme a expectativa das pessoas ao seu redor. Ao ilustrar o absurdo como princípio único da existência, Camus (se fala “Camí”, heim) fez dessa obra um dos maiores clássicos universais.

Nada, de Janne Teller

Esse livro (ainda) não é considerado um clássico  e também não é muito conhecido por aqui. Mas não poderia estar fora desta lista. Aliás, devo confessar que comprei algumas cópias desse livro só para dar de presente para amigos, pois todos deveriam lê-lo. O jovem Pierre Anthon recusa a vida em sociedade e passa a morar numa árvore, já que, segundo ele, “nada importa”. Seus colegas de classe tentam convencê-lo, montando uma pilha de coisas que possuem significado. Enquanto acompanhamos cada criança abrindo mão de coisas especiais para montar uma pilha que aos poucos se torna sinistra e mórbida, Janne Teller nos conta uma fábula sobre a decadência moral de uma sociedade que nos exige significados e a incapacidade d’ela lidar com pensamentos diferentes.

 

Cem anos de solidão, de Gabriel García Marquez

downloadEssa é meio óbvia para quem leu minha última coluna. Cem anos de solidão é um dos maiores livros da América Latina. As sete gerações dos Buendía são capazes de apaixonar qualquer coração, o mais mole que seja. Além de toda crítica ao processo de espoliação da América Latina, o livro é de um lirismo pungente. O real e o fantástico se fundem na história de Macondo, onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão não terão uma segunda chance.

Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

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Ok, esse livro talvez cause alguma estranheza. Afinal, Isabel Allende é uma escritora best seller e nunca fez questão de negar isso. Eu recuso esses rótulos: existem livros bem escritos e livros mal escrito, e isso é tudo. Casa dos Espíritos tem muito do realismo fantástico de Gabriel García Marquez. O livro contra a história de uma família chilena, da área rural, onde personagens femininos são o ponto alto da trama. A descrição, mais ao final, da ditadura chilena é completamente verossímil, baseada no trabalho jornalístico da autora durante os anos de Pinochet.

O pai Goriot, de Honoré de Balzac

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De todas os livros de Balzac (e olha que foram mais de 90!), O pai Goriot é, certamente, uma das mais tocantes. O livro contra a história do pai Goriot, um ancião que vive em uma pensão, depois de passar a vida dando o seu sangue por suas duas filhas. O livro traz um Balzac maduro, com todas as suas qualidades do escritor (a sagacidade, as divagações, os comentários, a descrição precisa) que é considerado um dos maiores mestres do romance moderno.

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

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Por último, o melhor. Sim, eu sei que o Ensino Médio te massacrou com Machado de Assis. Talvez você tenha lido alguma coisa dele forçadamente, talvez o professor falou dele com tantos rótulos que a primeira coisa que você pensa quando lê esse nome é: chatice. Masmas de Brás Cubas, Machado de Assisdê uma segunda chance ao Machado. Memórias Póstumas de Brás Cubas é um delicioso livro, com tiradas sagazes, um autor que faz piadas o tempo todo com o leitor, e um anti-heroi que revela toda a hipocrisia humana de uma forma que é impossível não dar algumas risadas.

*Escrito por Yago Barbosa – Fã de literatura desde pequeno, obcecado por ciências sociais e cognitivas, amante de fotografia e design gráfico, Yago Barbosa transita entre a multidisciplinaridade e um interesse genuíno de entender como os meios de comunicação operam e quais são as consequências de um mundo midiático. Estudante de Comunicação Social, na Escola de Comunicação da UFRJ, se especializando em Produção Editorial, em sua breve história como gente grande já atuou como designer em uma grande empresa de logística; participou de projetos de iniciação científica; na organização do Seminário Internacional de Fotografia e Experiência, em 2012 no Centro Cultural da Justiça Federal; e atualmente é estagiário de Ficção Estrangeira no Grupo Editorial Record, o maior conglomerado editorial da América Latina. Espantado com os poucos sites e materiais publicados no país sobre o mercado editorial, pretende compartilhar dados, informações e tendências do mercado de forma crítica e acessível.

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Literatura de 02 de abril à 02 de agosto de 2014.

Yago Barbosa
Fã de literatura desde pequeno, obcecado por ciências sociais e cognitivas, amante de fotografia e design gráfico, Yago Barbosa transita entre a multidisciplinaridade e um interesse genuíno de entender como os meios de comunicação operam e quais são as consequências de um mundo midiático. Estudante de Comunicação Social, na Escola de Comunicação da UFRJ, se especializando em Produção Editorial, em sua breve história como gente grande já atuou como designer em uma grande empresa de logística; participou de projetos de iniciação científica; na organização do Seminário Internacional de Fotografia e Experiência, em 2012 no Centro Cultural da Justiça Federal; e atualmente é estagiário de Ficção Estrangeira no Grupo Editorial Record, o maior conglomerado editorial da América Latina. Espantado com os poucos sites e materiais publicados no país sobre o mercado editorial, pretende compartilhar dados, informações e tendências do mercado de forma crítica e acessível.

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