Estamos no epicentro de um furacão que está revolucionando as maneiras do ser humano de se relacionar, a modernidade líquida como nomeou Bauman, deixou os relacionamentos mais fluidos, pra não dizer mais superficiais. Os encontros são raridade, enquanto usamos aplicativos para saber quem passou do nosso lado na rua, esquecemos de olhar para os lados.
Curiosa que sou, comecei a perguntar aos meus amigos de outros países como funcionava a relação com os aplicativos para encontros de solteiros. Os aplicativos para encontros de pessoas casadas não foram levados em conta na minha pesquisa informal, mas para quem quer saber mais sobre esse mundo, aconselho buscar o recente escândalo sobre o site Ashley Maddison, que além dos comerciais bregas e promover encontros de casados, colocou muitas pessoas em maus lençóis quando hackers invadiram a página e divulgaram as informações sobre os infiéis americanos, personalidades públicas, políticos, etc.

Nessa investigação sobre o Tinder, em especial, descobri que cada cultura se apropriou da ferramenta de uma maneira específica. Na Escócia, descobri que marcar encontro no Tinder com alguém é mais comum para fazer novos amigos; nos Estados Unidos já se usa mais para sexo casual e a conversa se inicia com algo como “na sua casa ou na minha?”, e na Espanha é algo mais “light”, um jantar, um café e se há um segundo encontro pode ser para ficar, mas com um ritmo lento. No Brasil, mais especificamente, no Rio, ouvi relatos de todos os tipos, mas a reclamação geral é sobre o comportamento masculino e como os rapazes usam a ferramenta para vender gato por lebre.
O clássico dos anos 90 de inventar mentiras e romances e depois de ir pra cama com a mulher, como em um passe de mágica, puf! desaparecer. O estranho é que em nenhuma experiência que me foi relatada por pessoas de outros países, essa prática foi uma questão. E ai, fui levada a questionar o quanto essa apropriação e costume fala do machismo e superficialidades das relações e da formação da cultura carioca/brasileira.

Claro que não apliquei nenhuma metodologia científica ou base teórica, nada além das minhas curiosidades de entender o fenômeno Tinder. Mas, ao mesmo tempo que ouço amigas solteiras cheias de esperança porque uns amigos de amigos se conheceram através do Tinder e vão casar, ouço amigas que não querem nada sério e se divertem com o aplicativo, mas uma constante é a insatisfação feminina com as atitudes dos homens. não suporto o discurso: “os homens estão perdidos” e “ainda estão se adaptando a nova mulher e seu papel”.
Já mudamos, e somos a segunda ou terceira geração dessa mudança. Já deu tempo de se adaptar e parar de usar a nossa liberdade e empoderamento para justificar descaso nas relações. Fico impressionada em como mesmo uma ferramenta desde nível pode ilustrar através do seu uso o machismo e a breguice da sociedade carioca e suas dinâmicas de se relacionar.

O movimento dos aplicativos é bastante particular: se as duas pessoas gostam das fotos uma da outra, elas podem conversar, e ai vai da conversa e o que pode surgir. Como em tudo, existem pessoas com objetivos diferentes e dinâmicas próprias, e em uma Sociedade cada vez mais caótica, encontrar com outra pessoa é privilégio e isso não significa uma saída ou apenas sair da virtualidade, mas encontrar de fato outra persona e não a projeção de um personagem criado para a demanda Tinder, é ainda mais difícil. Basicamente, o consumo chegou às camas e se uma pessoa não agrada, é ir em busca do próximo match.
Durante essa pequena e singela enquete entre amigos, que se não fossem as distâncias continentais, teria sido em uma mesa de bar, me assustei em como estamos achando normal esquecer que o outro é um ser humano, detentor de afetos e não mais um ingrediente a ser usado em uma mesa vazia.

Será esse o caminho contemporâneo e o devir do ser solteiro no Rio de Janeiro?

Claro que dentro do Rio existem muitas cidades, grupos e outros hábitos e que toda generalização é burra. Mas, quando ficamos fora da cidade e percebemos essas práticas com distância, vemos como a gente se acostumou, mas não deveríamos. Há pouquíssimo tempo não falávamos sobre as agressões sofridas por mulheres nas festas, eu mesma em uma dessas fui mordida no ombro (?) e gradualmente se estão levantando essas discussões, por isso levanto a bandeira: não confundam liquidez e fluidez com superficialidade e falta de humanidade. Não é normal sair com alguém e a pessoa não te cumprimentar na rua, não aceite situações que o senso comum reza como natural e o que se deve esperar: porque não é. É cultural, construído e cabe a cada um representar e/ou reproduzir isso.

Não há problema nenhum com encontros do Tinder, em só sair uma vez e se não curtir é vida que segue, isso acontece. Mas que não sirva de desculpa para a falta de afeto e carinho. Essa semana, conversando com dois amigos sobre o tema, ouvi: vamos fazer com amor! No sentido de: vamos tratar bem as pessoas. Porque não fazer dessa a marca dos relacionamentos no Rio? E me levou a pensar em como a identidade da cidade influencia seus habitantes e os inter-relacionamentos.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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