Há tempos venho pensando em escrever um texto sobre tudo que percebi nos últimos dois anos vivendo em Barcelona no que toca a mulher e suas relações. Como eu percebo a interação e as diferenças de aqui e acolá. Acredito que minha mirada foi e é muito permeada por onde eu escrevo, o lugar físico e minha posição política, no entanto, creio também que ter feito um mestrado em que 70% das sessões foram sobre feminismo, me abriu um campo que antes era desconhecido e que influencia – e muito – nas minhas leituras da vida da rua. Esse texto é um ponta pé inicial. Porque acredito que devemos falar mais sobre isso.

Quando cheguei na Espanha, lembro que ficava horrorizada com as unhas de esmalte descascado e cheia de cutícula que via pelo metrô, as meninas sem depilação em dia e os cabelos desgranhados. Não entendia, porque andavam assim. Não achava academias. Nenhuma, é a quantidade no meu bairro, um dos mais famosos da cidade. Como assim? –  pensava. Pouco a pouco essa gente, essa vida e sociedade, me mudaram. Fiquei menos superficial – não que fazer as unhas o seja, digo superficial no sentido de superfície –  e mais preocupada com outros signos. Ao chegar aqui é sempre aquele choque: os corpos, as roupas, as unhas e os cabelos. Como a mulher brasileira se produz! Não digo como característica negativa, mas é exagerado. Gosto de pensar que é uma escolha, mas acredito que muitíssimas não sabem que existem outras opções e são somente levada pela corrente. O Rio de Janeiro é a cidade com mais academia per capita, deixo aqui a informação.

Sempre escutei, e muitas vezes narrado de maneira pejorativa, sobre como os europeus são “lerdos” nos relacionamentos. Desde aí já percebo que a narrativa das histórias que ouvia entre ouvidos, parte da gaze patriarcal: o homem escolhe o tempo, o homem tem o seu ritmo, a história é do homem. Onde está a mulher?

Escutava também que a mulher européia era muito louca, que elas “chegavam” nos homens e isso contado e sempre acompanhado de um: que horror!

–  Deixe aqui seu comentário – Vocês também já escutaram essas frases do imaginário coletivo sobre os europeus?

E, sim, as relações  que pude ver são mais tranquilas, são devagar e arrisco dizer, são mais humanizadas e não tem essa coisa solteiro-no-Rio-de-Janeiro.  As pessoas se preocupam em se conhecer antes de tudo. Há exceções, como aqui, mas de uma maneira geral as relações homem/mulher tem menos jogo e mais realidade no sentido de menos chapinha, menos “o que ele vai pensar de mim?”.

Lembro que a frase mais repetida nesses dois anos de estudo e – que ironia! – não lembro o nome do autor, foi:

As armas do mestre nunca vão servir pra destruir a casa do mestre.

Dito isso, qualquer coisa que contarmos, escrevermos, pensarmos, vai estar dentro do mesmo sistema onde o rol do homem é o rol de poder. Como, então, existir e ser feminista – sim, estava disfarçando até agora –  se todas as nossas ferramentas foram dadas e ainda são por uma sociedade e um sistema de entendimento baseado no homem?

Essa é a questão dxs que se propões a entender e construir o feminismo e essa deve ser a questão de todo mundo. Todo mundo mesmo. Essa também é a questão dessa que vos escreve e é pensando nisso que leio/observo todas as milhares de histórias que vejo pelo meu caminho. Dizem que a identidade só é uma questão quando é um problema, ou seja, que falamos sobre isso quando isso não está bem resolvido. Por isso esse texto, as crises da identidade tocam –  e ferem –  as mulheres mais que nada, e se o escrevo é mais que nada uma construção de um monte de pensamentos soltos, sobre mulheres e mulheres e os homens e como a diferença que pude ver entre Brasil e Espanha me pareceu brutal.

Ao chegar em solo espanhol, que também considero como qualquer outra sociedade do nosso pequeno grande mundo, extremamente machista, todavia, diante do nosso Brasil é quase um oásis, – e isso digo desde a minha opinião mais pessoal e a minha experiência mais íntima-acadêmica-profissional-pessoal – pude perceber como não é o tempo do homem, é o tempo das pessoas e que a mulher tem voz.

Em encontros, pude perceber uma leveza, uma não-obrigação em acontecer nada e que abre portas pra acontecer tudo. E, principalmente em todas as histórias de amigos que acompanhei, a mulher tem tanto poder de decisão e autonomia quanto o homem. E aí, ficava impossível não pensar em toda a base teórica que um mestrado feminista me dava pra entender essas relações: os binômios, a diferença de Derrida, a Judith Butler, os cortes a carne viva que me deixou ler a Glória Anzaldúa, Cindy Sherman que provoca e mais uma centena de gente que consegue ler o dia-a-dia de uma maneira mais reflexiva, mais filosófica e artística. Mas, que trazendo pra mais perto e me apropriando: eles estão tratando de pessoas.

E, pessoas saem pra dançar, se beijam, tem dúvidas de escrever no dia seguinte e se a roupa está boa. A diferença que me dói de viver, mesmo, no Brasil, é ver que meus amigos, minha família e seus amigos e sua família – tomo a liberdade –  pensam ainda que muito escondidinho que mulher que toma a iniciativa é louca e nunca vai casar. Que mulher quer mesmo é casar e o que eu ouço muito a menudo: mulher só é feminista até conseguir um namorado. Como se namorado tivesse que ser conseguido, como prêmio, por ser such a good girl. Como que ser feminista fosse uma coisa de gente chata, que queima sutiã. Gente, vamos acordar?

Isso é um problema, pessoas morrem por isso, pessoas tem uma qualidade de vida horrível por isso e, começa dentro de casa, na rua, no bairro, na cidade e essas proporções que as coisas tomam. A cada dia que vou sair, sou alertada pela minha família sobre o perigo das roupas que eu uso. Eu tinha esquecido disso, eu fiz questão de esquecer isso. Como assim eu não posso colocar vestido se vou andar de ônibus? Como ser mulher no Brasil se a opressão existe em cada espacinho possível?

Estar no Brasil e ser mulher no Brasil é ser lembrada de que você é inferior, você está exposta e que todas as gracinhas ditas na rua devem ser ignoradas e todos os absurdos que quem vive aqui está cansado de saber. Falo de uma maneira geral, mas as mulheres do norte  tem iniciativa sim – sim, estou sendo diligente – mulher européia antes de tudo conquistou um lugar ao Sol, e não foi pensando no lugar do homem, mas, no seu lugar. Claro que a segurança pública permite isso, mas outros quesitos influenciam muito e não podemos continuar colocando a culpa de tudo no Estado, se dentro de casa as violências continuam e muitas vezes de maneira sutil. Outras nem tanto.

Essa experiência de empoderamento que pude viver e experimentar nesses dois anos, trago como algo muito positivo, poder ver que o corpo, o sexo, o trabalho, a opinião, o short curto, o sair sozinha na rua de madrugada: são respeitados, são delas e foi meu, e é meu e espero um dia que possa ser de cada mulher brasileira que eu conheço. Penso em como isso seria possível, sei que toco aqui em muitos e complexos temas, mas a hipocrisia da gente – me incluo, confesso – é um freio. Precisamos falar mais sobre isso.

 

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

4 COMENTÁRIOS

  1. Duas semanas atrás fui recriminada por um amigo "nossas suas unhas estão horríveis, tá precisando fazer né?!". Respondi com um singelo "e quem tem tempo pra isso?" e logo em seguida, pelo grau de intimidade, "me poupa né". E custei a me explicar o quanto estava sem tempo porque estava fazendo minhas aplicações para o mestrado fora do país. Se eu tivesse lido seu texto antes, talvez responderia um "foda-se" e não explicaria nada de mestrado nenhum, de vida nenhuma. Porque preciso me explicar pelas unhas descascadas? Não preciso.

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