Ver e viver uma prática cultural diferente da nossa é sempre desafiante. Entendo que tentar experimentar e ao mesmo tempo ter em conta que sua mirada é estrangeira ou, ainda, experimentar um ponto de vista mais “generoso”, como conquistas e pequenas batalhas que travo a cada novidade que encontro, tropeço, caio em cima, tento engolir, saboreio ou não consigo digerir.

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A semana santa é  como um spring break na Espanha, as Universidades dão uma parada de quase duas semanas e, quem tem horas extras, emenda e vai viajar (Não, emendar nem sempre é exclusividade dos brasileiros, como já ouvi muitos e muitos dizendo por aí). Pois coloquei os pés na estrada e a mochila nas costas e fui pro Sul da Espanha. Há muito já escutava sobre a Semana Santa de Andaluzia e, enfim chegou a minha vez de conhecê-la. Diferente de outras regiões, a Andaluzia têm na sua Semana Santa sua maior festa popular, seria como um “carnaval” para o Rio de Janeiro (Sim, o carnaval do Rio é melhor que Salvador).

Confesso, que o preconceito já estava na mala: ver os tais penitentes por foto ou vídeo, me remeteu às imagens da Ku Klux Klan e, desafio alguém que, não conhecia os tais penitentes de antes a não pensar igual quando os vê pela primeira vez. Com uma referência tão “braba” como a dita organização, já comecei a Semana Santa com meu pé atrás (Claro que os penitentes não tem nada a ver com essa organização horrível mas, vai dizer que a roupa não parece?).

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Estava em San Fernando um povoado de Cádiz. Já ali, pude começar a entender a dinâmica: por dia saem cerca de seis procissões que duram em média seis horas cada. Compostas por um “paso” que é como um altar com alguma cena bíblica (ex.: Jesus Cristo levando a cruz, Nossa Senhora ajudando Ele a carregar a cruz, etc.) com personagens de tamanho real, feito de ouro e com muitas velas, flores e ornamentações, que é sustentado por desde 20 a 270 pessoas (sim, há altares que são levados por duzentos e setenta pessoas) sendo que como seu “abre-alas” têm penitentes de todas as idades, logo coroinhas com o incenso, seguido pela banda. Depois, a Nossa Senhora da procissão vem em seu altar, geralmente a música da Virgem é mais bonita e com uma banda maior. Logo, mais penitentes. Algumas pessoas vão carregando velas e outras lâmpadas. São realmente muitas pessoas com muitas funções: desde guiar os carregadores dos altares até a ficar de olho nas crianças penitentes pra não colocarem fogo em tudo.

Os locais se portam de uma maneira semelhante aos cariocas no carnaval: saem de procissão a procissão, buscando pelas ruas estreitas do cascuo antigo da cidade, onde está a “irmandade” que são as associações responsáveis por organizar cada grupo. Há irmandades de séculos que saem do mesmo lugar, com o mesmo altar, para o mesmo caminho pela cidade. É uma tradição de família e todos vão a rua com sua melhor roupa para ver o “paso” passar.

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Na sexta-feira que antecede a Páscoa, fui a Jerez de la Frontera, e pela primeira vez vi uma cidade INTEIRA de terno e gravata pretos. E, muitas das mulheres vestidas com um traje como de viúva (que não tem explicação, alguém começou e virou tendência). Confesso, que fiquei impressionada. As ruas principais da cidade, foram tomadas por “carreras oficiales” que são como arquibancadas VIP´s que é onde a alta sociedade local compra seu assento caro para ver Jesus na primeira fila.

Nas varandas das mansões, os clãs tradicionais, vão todos de preto ver da varanda em pose de família real a Paixão de Cristo passar. Ali estão para ser vistos e, me pergunto, onde fica a humildade que a história de Jesus Cristo deixou? O povo andaluz têm uma relação muito interessante com suas procissões: é um encontro da comunidade, uma exibição de roupas, cabelos e penteados (incríveis!!!! sério!!!), uma exibição do trabalho em equipe para carregar um altar e sair dessa experiência inteiro (muitos acidentes ocorrem e muitos carregadores já ficaram tetraplégicos por carregar altares). Uma festa e uma prática religiosa que por muitos é levada a sério como tal e, para os jovens também pode ser a nossa tão famosa “pré-night” ou, como eles chamam aqui, botellón.

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Ou seja: é um motivo pra cidade ir pra rua e, eles vão em peso, em quantidade e em família.

Há procissões, onde a luz da rua é apagada para que ela passe, e não se pode fazer nenhum barulho, a música e o caminhar das centenas de pessoas é o único ruído permitido. É devoção. E, para mim, uma agonia sem fim! Imagina dezenas de pessoas com roupa igual de Ku Klux Klan, no escuro, segurando velas. Fiz o possível para tentar “desfrutar” dessa experiência, mas, realmente foi difícil.

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Das coisas bonitas: os altares, algumas músicas, a fé de meia dúzia e as crianças. Ao ver um altar tão grande, andando no ritmo da música, sendo levado por pessoas provavelmente exaustas, por horas, tenho que dizer: é uma emoção e esse momento vale a pena, mesmo. Independente de religião, pensar em tantas pessoas que estão superando-se para realizar sua penitência ou o espetáculo- dependendo do propósito de cada um, deixa a produção mais bonita e valoriza-se mais o que se vê. As bandas que acompanham a procissão são um outro destaque a parte. Músicos que passam até oito horas tocando sem parar (!!!!) por madrugada dentro, no frio e na chuva!

Se vêem muitas crianças pela rua acompanhados dos pais e avós, se vê que é algo de pai pra filho e um costume é deles , levarem consigo uma bola de papel laminado e a brincadeira é cobrir essa bola com a cera que derrete das velas que os penitentes levam. Mais uma diferença cultural: eu passei horas desesperada vendo a hora que as crianças iam atear fogo em algo (crianças de 5 anos levando velas do tamanho da sua altura!!!!) mas, ninguém se queimou. Enchias as bolas dos colegas de cera e a própria luva, fazendo mãos de cera. Todos fazem isso e correm atrás de quem tem vela. E, nada de preocupação por parte dos pais ou dos produtores: as velas estavam com crianças, MUITAS crianças e nenhum acidente!!!!

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Não satisfeitos em acompanhar as procissões ao vivo, muitos chegando em casa, vão ver a reprise no canal da cidade ou acompanhar como vão as procissões nas outras cidades da região. Nessa época as TV´s regionais passam procissões 24 horas por dia! Têm comentaristas, como em uma transmissão de futebol!

Tirando minhas críticas pessoais a coerência da festa, já que não entendo bem porque gastar tanto em roupa e nessa produção se a religião prega a caridade, é inegável como o catolicismo têm um peso sem igual na Andaluzia e que, a sua Semana Santa é mesmo um espetáculo, ou em bom espanholês: Una pasada.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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