Andrea Fraser Untitled, 2003. (Fonte: http://www.select.art.br/article/critica/)

Em um momento no qual a redenção parece ser a única opção que alguns artistas conseguem enxergar, trago uma reflexão sobre uma artista que, ao dialogar com a instituição superexpõe seus mecanismos de controle, venda e manutenção de poder. Em se tratando do mundo da arte, as instituições se apresentam como âmbito inconteste no qual as relações se dão legitimamente reconhecidas, respaldadas e respeitadas. Contudo, é evidente o descontentamento de muitos artistas em relação aos ditames institucionais. Alguns artistas acatam e se servem das convenções desse sistema. Outros escolhem a rua como opção; uns tantos sucumbem perante a não-assimilação institucional, enquanto outros se dispõem a atacá-la em processos de diálogo, dentre outras situações. Como então, lidar com a ambivalência de não se reconhecer como compatível à instituição e de, ao mesmo tempo, reconhecendo as dimensões e proporções da instituição, posicionar-se nestes redutos? Seria possível atacar a instituição sem por ela ser devorado em uma carreira artística? Que relações são possíveis de se estabelecer com as instituições de arte sem, contundo, ser deglutido por elas? A artista Andrea Fraser, em sua sólida carreira, parece ter encontrado formas de atuação dentro do espaço institucional que talvez sugira caminhos para questionar não somente as possessões institucionais, mas todos aqueles que se encontram dentro das instituições de arte, aqueles que com elas se relacionam e que delas reconhecem a soberania.

 

Em 2003, Andrea Fraser através da Friedrich Petzel Gallery, vendeu uma performance sexual a um colecionador particular. Segundo a artista em entrevista ao The Brooklyn Rail, não houve um contrato formal com o colecionador, o que constituiu importante aspecto do trabalho: “tratava-se de estabelecer uma troca econômica de compra e venda de arte, adentrando em uma troca muito pessoal e humana. [A troca] tinha que ser baseada em confiança.” Tratava-se de um contrato verbal. Assim, o colecionador privado foi mantido em anonimato. O acordo previa um encontro sexual entre a artista e o colecionador em um quarto de hotel. O encontro foi filmado e a única edição que houve foi a retirada do som. Foram feitas cinco cópias em DVDs dos quais o primeiro foi destinado ao colecionador anônimo e os demais à venda. Neste tocante, contudo, havia um contrato através do qual os colecionadores se comprometeriam a uma série de restrições como não fazer cópias ou distribuir representações do DVD, não fazer trechos, transmissões, emprestar e, em caso de produção de qualquer material gráfico, o mesmo deve ser submetido à apreciação da artista.

 

De acordo com Andrea Fraser, a segunda parte do trabalho seria a mais desconfortável – a negociação e a venda do vídeo produzido. (2004, publicação online) Se para a artista seus trabalhos sempre teriam sido extremamente site specific como uma forma de controlar a circulação de seu próprio trabalho no que dizia respeito a quem era endereçado, ao local em que seria apresentado e sobre quem de fato seria a audiência do trabalho; em Untitled, 2003, por mais que houvesse um contrato com consideráveis restrições, a forma de controle até então empregada pela artista já não seria possível. Por mais que Andrea Fraser buscasse ao máximo possível se assenhorar de todas as reverberações de seu trabalho, a artista esbarrou em uma questão: a condição exploradora das vendas no mundo da arte. Quando a especulação se inicia, a artista sente perder o controle de seu trabalho.

 

A performance de arte em seu surgimento era imbuída da conotação do aqui-agora. Neste sentido podemos observar o caráter site specific das performances de Andrea Fraser Porém, mais específico do que tais fatores parece ser a audiência para qual Andrea Fraser se dirigia. Nestas ocasiões, podemos observar uma obra audience-specific[1], com a audiência sendo conhecida pela artista. Andrea Fraser acreditava ter domínio sobre sua audiência no que dizia respeito à circulação de seu trabalho.

 

A perda de controle que se verifica não implica, no entanto, em perda de consciência das dimensões que a artista possui de seu próprio trabalho. A percepção e a admissão de que, em algum momento, o controle se rarefaz parece constituir parte preponderante de Untitled, 2003. O reconhecimento dos limites do trabalho, a consciência dos processos de negociação institucional e também de negociação ou de não negociação com espaços institucionalizados como a imprensa conformam parte preponderante da performance. Untitled, 2003 parece se fortalecer com os processos de negociação que ele emana para si, fazendo assim aquilo que Fraser, incondicionalmente se propõe em sua obra – uma crítica institucional.

 

Em mês de visita à terra da Terceira Margem

Caroline Alciones

 


[1] Expressão empregada pelo artista e pesquisador Luiz Sérgio de Oliveira em comunicação pessoal com a autora.

 


 

 

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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