Andrea Fraser Untitled, 2003. (Fonte: http://www.artnet.com/Magazine/features/jsaltz/)

Na crônica desta semana, resgato um assunto outrora abordado. Se na parte I me ative ao trabalho como um todo, agora procuro pensar no público em relação com este trabalho. Neste sentido, podemos pensar que a performance de arte em seu surgimento era imbuída da conotação do aqui-agora. No que dizia respeito ao material empregado pelo artista, Roselee Goldberg afiança que, no final dos anos 1960 e início dos 1970, a performance refletia “a rejeição da arte conceitual de materiais tradicionais como tela, pincel ou cinzel, com artistas voltando-se para o seu próprio corpo como material de arte, assim como Klein e Manzoni haviam feito alguns anos antes.” Para Goldberg a performance constituiria um meio ideal para materializar conceitos de arte.

 

É possível observar que o caráter site specific das performances de Andrea Fraser como, por exemplos, Museum Highlights: A Gallery Talk, 1989; Welcome to the Wadsworth,1991; Inaugural Speech, 1997; Official Welcome, 2001; as quais, apesar de se darem em espaços institucionais ou institucionalizados como Philadelphia Museum of Art, Wadsworth Atheneum, inSITE, Maryland Institute College of Art (MICA Foundation), no que tange o material e a efemeridade de sua obra – seu corpo, sua voz, seu discurso. Porém, mais específico do que tais fatores parece ser a audiência para qual Andrea Fraser se dirigia. Nestas ocasiões, podemos observar uma obra audience-specific[1], novamente o conceito empregado por Luiz Sérgio de Oliveira, com a audiência sendo conhecida pela artista. Andrea Fraser acreditava ter domínio sobre sua audiência no que dizia respeito à circulação de seu trabalho. Por mais que tais performances tenham sido gravadas e seja possível o acesso aos vídeos quer nas instituições de arte, que na internet, essas performances dialogam com um público conhecido por Fraser, evidenciando, conforme preconizado por Danto que a diferença entre trabalhos de arte e trabalhos de performance de arte diz respeito à espeficidade da audiência.

 

O público das performances de arte parece preponderante para o trabalho e, como Fraser demonstra, para o controle do artista sobre a circulação de seu próprio trabalho. Mesmo que a performance de Fraser fosse incorporada pela instituição também através de vídeos, fotografias e documentos, a artista parecia possuir certo domínio sobre com quem suas performances dialogavam – sua audiência estava ali, em locais específicos de instituições. Contudo, em Untitled, 2003, não há público quando a performance acontece. Ou melhor, em Untitled, 2003 o público passa a ser a câmera filmadora e assim, o controle da artista por sobre a audiência se esvanece. Com quem Andrea Fraser estava interagindo em sua performance Untitled, 2003? Com o colecionador anônimo? Com a instituição? Não podemos negligenciar que no quarto havia uma câmera. E câmeras, muitas vezes parecem guardar em suas lentes não somente a dimensão da superexposição, mas a do que é incomensuravelmente incontrolável.

 

A perda de controle que se verifica não implica, no entanto, em perda de consciência das dimensões que a artista possui de seu próprio trabalho. A percepção e a admissão de que, em algum momento, o controle se rarefaz parece constituir parte preponderante de Untitled, 2003. O reconhecimento dos limites do trabalho, a consciência dos processos de negociação institucional e também de negociação ou de não negociação com espaços institucionalizados como a imprensa conformam parte preponderante da performance. Untitled, 2003 parece se fortalecer com os processos de negociação que ele emana para si, fazendo assim aquilo que Fraser, incondicionalmente se propõe em sua obra – uma crítica institucional.

 

Se o contrato entre instituição de arte e artistas que fazem performance se afirma a partir de registros de vídeos, fotografias, resquícios e relíquias, as performances assumem caráter imagético passível de assimilação e de relação com a instituição de arte. Andrea Fraser parece explorar essa forma de recurso como material preponderante de Untitled, 2003. A relação da audiência especializada, da audiência treinada às performances de arte com a instituição de arte também pode ser problematizada, afinal, esta foi substituída pela câmera filmadora a partir do acordo estabelecido entre artista e instituição.

fraser

 

Pensando sobre o Natal

Caroline Alciones

 


[1] Expressão empregada pelo artista e pesquisador Luiz Sérgio de Oliveira em comunicação pessoal com a autora.

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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