Aí está uma pergunta idiota. Você provavelmente nunca pensou nisso, mas se eu escrevesse o que você já pensou, esta coluna não teria graça, seria uma repetição. Simplesmente o horrível e hediondo tédio. E nada melhor para tirar do tédio do que a idiotice. Ela sempre nos traz algo inesperado.

E se você tem acompanhado o Tag durante a semana, já deve ter sacado algumas das características do Wes Anderson. Quer dizer, qualquer um que tenha visto mais de um filme dele, consegue captar algumas similaridades. Isso acontece porque é um cinema bem estilizado, às vezes até caricato, o que combina muito com o universo dos quadrinhos.

Então, mesmo que Wes Anderson nunca tenha feito uma referência a uma HQ ou cartum em particular, mesmo que ele nunca queira ser pego lendo Turma da Mônica no meio de um café antiquado em Viena, é impossível um fã não pensar em quadrinhos ao ver seus filmes.

Por isso, selecionei três obras bem diferentes entre si, mas que apresentam alguma característica wes-andersoniana marcante.

 

The Umbrella Academy, por Gerard Way e Gabriel Bá

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Página do encadernado Apocalypse Suite. Lançado no Brasil, mas aparentemente esgotado.

Em Os excêntricos Tenenbaums nós temos 3 irmãos, cada um especialista em uma área diferente (tênis, finanças e teatro), que se reúnem depois de anos ao saberem que seu pai manipulador está prestes a morrer — de uma doença completamente forjada. Em Umbrella Academy nós temos vários irmãos, cada um com um superpoder diferente, que se reúnem depois de anos no funeral do seu pai adotivo, o também manipulador Hargreaves.

São duas obras de gêneros completamente diferentes, com rumos completamente opostos, mas que são unidas pelo drama familiar, um tema recorrente de Wes Anderson. Tanto no filme quanto no quadrinho, os filhos têm dificuldade de saber se o pai realmente quer o bem deles ou se só estão sendo usados.

Mas não é só um pai ruim que essas histórias têm em comum, nas duas há um irmão e irmã secretamente apaixonados. E nos dois casos essa irmã é a ovelha negra da família. Enquanto Margot Tenenbaum é sempre lembrada pelo pai de sua adoção, além de ter suas peças de teatro frequentemente esnobadas, Vanya de Umbrella Academy é sempre lembrada pelo pai de que não possui super-poderes como seus irmãos e, por isso, não é especial.

Quem sabe os Tenenbaums e a família do Umbrella Academy não se encontram em alguma terapia de grupo.

Hargreaves não gosta que o chamem de pai. E chama os filhos ou por números ou por codinomes.
Hargreaves não gosta que o chamem de pai. E chama os filhos ou por números ou por codinomes. Vanya é a Número 7.

 

Tintim, por Hergé

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Tintim indo para o teste de elenco do próximo filme do Wes Anderson.

Talvez seja mais difícil de enxergar as semelhanças aqui, mas se pegarmos os três últimos filmes do Wes Anderson, nós vamos ver que são, no final das contas, três filmes de aventura com uma estilização extrema, que acaba evocando um ar infantojuvenil e cartunesco. Animais da floresta lutando contra fazendeiros em O fantástico Sr. Raposo, crianças fugindo de adultos numa ilha marcada para ser atacada por uma tempestade em Moonrise Kingdom, e, no ápice dessa estética, as agruras do concierge injustamente acusado por um crime e perseguido por uma organização fascista em O Grande Hotel Budapeste.

O Grande Hotel é o mais próximo que eu vi o cinema “live action” chegar de um desenho animado. Todas as cenas, mais do que filmadas, parecem cuidadosamente pintadas, e os personagens são marcados por figurinos que raramente mudam e que identificam seu papel na história. O lobby boy com seu uniforme roxo, o vilão com sua roupa negra, a confeiteira/donzela com seu humilde vestidinho claro de trabalhadora.

É um universo onde Tintim poderia existir sem problemas. Criado por Hergé, Tintim é um jornalista que soluciona crimes e conspirações pelos cantos mais exóticos do mundo. A estética da série é chamada de linha clara — cores chapadas e um traço uniforme contornando os personagens e o cenário, sem variações de grossura. O objetivo é criar uma identificação rápida dos elementos em cena, e é similar às cores fortes e aos figurinos marcantes concebidos por Wes Anderson.

Uma conspiração em um hotel rosa, no alto de uma montanha de um vilarejo ermo, parece ser o tipo de ação em que Tintim se sairia bem. Talvez ele até salvasse o concierge interpretado por Ralph Fiennes de algumas enrascadas. Isso, é claro, se o hotel permitir a entrada de seu fiel cachorro, Milu.

 

Charlie Brown, por Charles Schulz

snoopy with his dog house

Se Wes Anderson tivesse respondido minha enquete para saber se era Calvin, Mafalda ou Charlie Brown, na certa daria Charlie. Todos os personagens de todos os filmes dele carregam a melancolia, as crises existenciais e os transtornos de ansiedade da turminha do Menduim.

Mesmo os momentos de maior sucesso numa história do Wes Anderson rendem no máximo um sorriso comedido. Não importa o que acontecer, nada vai apagar os fracassos ou os problemas de uma vez. Exatamente como Charlie Brown tentando chutar a bola antes que Lucy a tire. Ele pode ter alguns dias bons, mas nunca vai chutar aquela bola. E nunca vai desistir também.

bola

Porém, o personagem das tirinhas que mais tem a ver com o Wes Anderson é o Schroeder. Ele não só é um artista talentoso, mas um apaixonado por música clássica, estilo nada popular entre jovens, adultos e idosos. Isso ao mesmo tempo causa um fascínio nos outros, principalmente em Lucy, e o afasta da vida social e da realidade. Ele poderia facilmente ser um excêntrico Tenenbaum.

Alguém chama a Suzy do Moonrise Kingdom para escutar LP com Schroeder.

 

E você, leitor ou leitora, tem alguma ideia idiota sobre algum quadrinho que te lembra do Wes Anderson? Bote a boca no trombone e comente aqui ou na página do TagCultural no Facebook.

Espero que tenha gostado dos quadrinhos e se anime a ler algum deles. E a ver mais filmes, claro!

Quem sabe a gente continua essa brincadeira com outros diretores futuramente.

PS: A imagem de capa foi retirada do livro The Wes Anderson Collection.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

2 COMENTÁRIOS

  1. Pois é! XD
    É uma prova que personagens caricatos não significam pobreza de roteiro ou de qualidade, desde que vc faça uma caricatura intrigante. E não a repetição de uma coisa óbvia.
    A caricatura ajuda a realçar mais a história.
    Também acho que esses detalhes marcantes de figurino, cenário e caracterização física têm muito a ver com o teatro.

  2. Putz, com certeza o Wes é um Charlie Brown! Acertou em cheio! E uma coisa que acho sensacional no estilo dele, e que se aproxima dos quadrinhos, é a capacidade de construir personagens imediatamente interessantes visualmente. Todos tem várias características físicas marcantes que revelam muito da personalidade de cada um!

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