Dia 23 de abril, além das declarações muito devotas de Facebook e muitas de ocasião, é dia de São Jorge. O Santo nascido no que seria hoje a Turquia, é padroeiro da Catalunha e no seu dia acontece, o que na minha opinião, é a festa mais bonita de Barcelona.

O costume do 23 de abril na Catalunha  é: a mulher dá de presente a seu parceiro um livro e o homem a sua parceira uma rosa vermelha. Por isso, nesse dia todas as ruas do cascuo antigo de Barcelona são tomadas por barraquinhas de livros e rosas!!!        

Junto com a diada de San Jordi também é comemorado o dia do livro. A justificativa é de que também no dia 23 de abril faleceram Shakespeare e Cervantes. Na realidade nenhum dos dois morreu nesse dia: Cervantes morreu dia 22 de abril e foi enterrado dia 23. E, o autor de Romeu e Julieta morreu nessa mesma data, mas do calendário Juliano, o que seria no calendário que usamos, o dia 1º de maio. Independente de ser o real dia do falecimento desses dos autores, foi criada essa “lenda” e, o dia do livro “pegou”.

Conta a história que o costume de dar uma rosa às mulheres é porque no dia de São Jorge acontecia, também, uma feira de flores por Barcelona, então, as mulheres que iam a missa, ganhavam a rosa. Há registro desse costume desde pelo menos o século XVII.

Juntando essas duas efemérides, o que a comunidade fez foi organizar-se junto ao governo para poder montar as suas “barraquinhas” nas ruas da cidade. As flores são vendidas por associações de estudantes, produtores locais, organizações não-governamentais, chineses donos de lojas que têm de tudo, floriculturas, sapatarias. Todo mundo que pode, vende flor. E, as rosas vermelhas, vêm sempre acompanhadas de um raminho de trigo, que reza o costume local, é símbolo da fertilidade e alguma referência a bandeira da Catalunha (como é o santo padroeiro da Província, há uma comemoração política e identitária em algum sentido, as bandeiras catalãs estão ainda mais presentes nas varandas e em todos os detalhes da festa também).Sant Jordi

E junto com as barraquinhas de flor, há também as de livro. Que seguem o mesmo esquema: todo mundo que pode vende livros. A prefeitura junto com as livrarias, organizam uma espécie de Bienal do Livro ao ar livre. Nas praças da cidade têm conversas com os autores, tarde de autógrafos etc. Também acontecem atividades de contação de histórias, shows de música, dança e tudo que se pode querer e imaginar para um dia lindo. Mesmo as livrarias grandes, como a FNAC ou a La Central, colocam nas calçadas barraquinhas, onde têm seus livros com preços especiais (me) fazendo gastar e querer levar todos os livros para casa.

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Eu comemorando San Jordi com meu amigo Odorisi.

Diferente do dia de San Valentín, as flores e livros também podem ser dados a amigos e família. Pela rua vemos os casais apaixonados, gringos, famílias, todos desfilando orgulhosos com seus montes de livros e flores.

Na minha opinião, essa festa é um exemplo perfeito de como podemos casar tradição, interesses   econômicos, cultura e lazer. Todo mundo sai feliz e é um dia memorável. Se você considera vir a Barcelona, se possível, tente vir por essa data, além de fazer uma temperatura ideal, é passar um dia entre flores, música e páginas de livros. É contagiante.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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