Conferi duas vezes “Sangre”, espetáculo de formatura da turma da noite da Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena em cartaz até setembro.
A peça é inspirada no universo de Almodóvar, trata de uma gama de intensidade e limites que tantos nos falta (na vida e na cena). A realidade clama por vivacidade; se estamos aqui, numa formatura, que façamos o trabalho completo e entregue.
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“Sangre” investe em temas de grau elevado, extremista. Há a presença da alma dilatada, mãos tensas representando palavras não ditas, tônus físico como a vida não vivida, elementos cênicos objetivos que não deterioram a essência expansiva, figurinos que caminham com a evolução da expressividade, sonoridade que fundamenta o movimento cênico, iluminação sensível e dramática, interpretação que vibra uma conexão transpessoal, direção que respeita a individualidade casada com o coletivo.

A vida amarrada cenicamente é responsabilidade de Carmen Frenzel – atriz, diretora e professora – que entende o espaço do aprimoramento do trabalho de ator. É uma democracia. Carmen foi eleita por esse grupo para firmamento de um ciclo. Sua direção é pontual e certeira. Isto é, quando a cena encerra, ela termina. Quando começa, ela se alimenta da anterior com propriedade propagadora. Dessa forma, não há buraco ou lacuna que nos escape. Somos permeados sobre uma curiosidade sobre o que vai acontecer no espetáculo devido aos personagens cativarem o público desde suas primeiras aparições. Não se trata apenas de um bom texto ou um bom elenco, trata-se de um grupo coeso com um texto potente onde ambos estão no seu melhor estado.

A concepção é defendida pelos integrantes com vigor. Há uma família central que tem uma espécie de Medeia na mãe, que trama vinganças e modifica os destinos. Em contraponto, há a realidade dos médicos que, marginalmente, são a base da história. Com duas vertentes cômicas, curiosamente, nos padres e nas… “Irmãs de Madalena”. Transcendendo com identificação plena e mística com a menina subnormal, que nunca menstruou.

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A iluminação é um fator determinante na conexão da peça, pois ele responde à evolução dos sentimentos dos personagens. O que remete aos filmes de Almodóvar, caracterizado por um sentimento pulsante e uma profundidade ardida. Presencia-se, portanto, uma estrutura de movimentação intensa enquanto tonicidade física, confirmando a inclinação não-realista que jorra durante toda a trama. Essa orientação pode ser observada na dublagem da primeira cena, no tango encenado, na narração dos padres das próprias ações durante o jogo. O tango, entretanto, carece de mais alinhamento da proposta corporal. Além disso, em cenas “calientes” como essa, falta atenção específica ao trato vocal prejudicando a saúde da voz e a própria compreensão do texto.

A linguagem tragicômica do texto é refletida na encenação do mesmo, na fisicalidade proposta. A despretensão em desligar de uma cena para outra, simplesmente levantando e saindo, não baixa o ritmo, pelo contrário, o mantém, dado que esse código é acordado com a plateia desde o princípio. A linguagem também é respaldada pela ação física com a presença de movimentos cortantes e intensos, como também pela existência de signos peculiares e excêntricos –  a mão suspensa e o manto vermelho, por exemplo.
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É importante frisar que a participação do público, presente como um grande fofoqueiro nessa história, que acompanha a costura do espetáculo, faz tão parte dele quanto as máscaras de “Sangre”. Consequentemente a sensação de aprisionamento e encurralamento do espaço cênico contribui no desfecho da história. A construção das relações e o acabamento das mesmas articulada com o ambiente musical, não pertence somente às mídias do espetáculo, mas à própria musicalidade harmônica presente nas falas.

A dualidade do estilo, manifestação binária geminiana, encontra apoio na representação dobrada dos personagens pelos atores. Eles sustentam um edifício que parece que vai cair a qualquer momento. Sendo assim, o grupo não se destaca enquanto individualidade, e sim enquanto unidade.

 

 

Serviço:
Sangre

08/08, às 21h.
15/08 a 27/09; sábados às 21h e domingo às 20h
Local: Teatro Armando Costa
Endereço: Rua Vinte de Abril, 14
Entrada franca
Classificação: 16 anos
Gênero: Tragicômico
Capacidade: 52 lugares

Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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