Comecei achando que o problema era comigo.

Não sou especialista em filmes-catástrofe (gênero que começou nos anos 1970 no cinema norte-americano) e talvez estivesse julgando mal um filme que só está seguindo os padrões do seu gênero.

Resolvi me aproximar dos filmes-catástrofe. Pesquisei, assisti a outros títulos que se encaixam nesse perfil e concluí que o problema não é comigo. “Terremoto: A Falha de San Andreas” é tão insustentável quanto o chão sob os pés de seus personagens.

O gênero

O chamado “cinema-catástrofe” teve início em 1970, com o filme “Aeroporto”, de George Seaton. A trama se passa em dois ambientes: dentro do avião, onde passageiros e tripulação são reféns de um psicopata, e no aeroporto (que tenta continuar funcionando debaixo de uma nevasca) onde o piloto pretende fazer um pouso forçado.

Foi um sucesso estrondoso. Dois anos depois, “O Destino de Poseidon” foi lançado e repetiu o êxito na crítica e nas bilheterias. E vale uma observação: em 2004 foi escolhido o melhor filme do gênero já produzido.

Com o passar dos anos e das inúmeras experiências dentro desse universo, o gênero foi mudando, ganhou a bênção dos efeitos especiais e solidificou clichês que pareciam funcionar para qualquer catástrofe e qualquer elenco. Só que não é bem assim.

Para escrever esta crítica assisti ao “O dia depois de amanhã”, de 2004, dirigido pelo alemão Roland Emmerich (que tem bastante experiência com o formato). O filme se aproxima de “San Andreas” em vários aspectos e juntando com o que pesquisei já deu para formular (mesmo que superficialmente) o que caracteriza um filme-catástrofe:

  • É uma catástrofe anunciada
  • Tanto para o público, que já chega ao filme sabendo que vai rolar um terremoto, uma tsunami, etc… Quanto para o herói da história ou algum personagem secundário que desempenhe o papel de “cientista” (aquele cujas falas servem única e exclusivamente para dar verossimilhança científica para a tal catástrofe). Esse cara provavelmente já avisou às autoridades sobre a tragédia iminente, mas foi ignorado.
  • O herói e a famíliaO protagonista tem grandes chances de ser um profissional altamente treinado (provavelmente o líder de sua equipe) e bem sucedido no trabalho. Porém, à época em que a tragédia se desenrola, ele está em dívida com sua família: normalmente é um cara divorciado, que ainda ama a ex-esposa e que é ausente na vida do filho ou da filha. Esse breve enredo já deixa pré-programadas cenas em que ele discute o passado amoroso com a ex, percebe o quão negligente foi com o filho e com isso, esse jovem (filhos nunca são criancinhas, sempre adolescentes/jovens adultos) torna-se seu único objetivo de ir até o olho do furacão, correr o máximo risco, para então trazer a cria sã e salva para os braços da mãe.
  • O tempo das coisasOs acontecimentos pré-determinados pelo gênero têm uma ordem para acontecer na trama (desconfio que tenham até uma minutagem certa dentro dos filmes, mas não me aventurei a checar, se você se interessa pelo gênero e quiser fazer essa investigação, ficarei feliz em saber do resultado nos comentários!). Ordem essa que obedece aos 12 passos da jornada do herói*, sagrada para todo roteiro de primeiro campo que se preze.
  • * Pra quem não conhece: Entenda a jornada do herói em 4 minutos.
  • Começamos com o herói solitário, porém estável no seu universo conhecido. Até que acontece a catástrofe logo no começo do filme, e ele percebe que precisa salvar sua prole (que, apesar da pouca idade, tem um manual de sobrevivência interno que funciona que é uma beleza – ensinado pelo pai, é claro). Então ele passa por todas as intempéries provocadas pela catástrofe, mas supera todas elas (às vezes perde algum ente querido, às vezes não) e segue em frente até resgatar o filhote e nos deixar aliviados, acreditando que ainda há esperança no amanhã.
  • Bandeiras estadunidensesElas estão lá. Cumprindo alguma função que eu não sei definir. Haters: podem mandar ver nas especulações!

O filme

“San Andreas” cumpre todos esses pré-requisitos. É como uma receita seguida à risca, mas sem o tempero especial.

Tsunami na Golden Gate Bridge, em São Francisco
Tsunami na Golden Gate Bridge, em São Francisco

O roteiro é superficial e não vai além dessa fórmula, que agora conhecemos bem. Dwayne Johnson vive o tal pai divorciado, piloto de helicóptero do corpo de bombeiros de resgate, que enfrenta todas as situações sinistras que o terremoto provoca para salvar a filha adolescente. A atuação não desaponta, o personagem é que é superficial mesmo.

Paul Giamatti te explica cientificamente o terremoto
Paul Giamatti te explica cientificamente o terremoto

Paul Giamatti é o nome de peso que está ali para dar credibilidade ao elenco. O ator cumpre a função do tal cientista necessário ao gênero. É ele que explica para o espectador como e porque um terremoto desse tipo poderia acontecer (além de nos dar uma breve aula sobre terremotos e escala Richter). E apesar de tão raso como todos os outros personagens, como é o Paul quem fala, nós até acreditamos.

Performance de dar vergonha mesmo é a da atriz Carla Gugino, que vive a ex-esposa de Johnson. Não se vê nem um pingo de emoção ou preocupação no rosto dessa mãe, cuja filha está presa no meio de um desastre natural. E realçada com diálogos risíveis, a atriz fica numa situação ainda pior.

O santo salvador de todo filme de altíssimo orçamento e roteiro precário chama-se: computação gráfica. Os efeitos são impecáveis. O terremoto, as quedas de arranha-céus, uma tsunami que destrói a Golden Gate Bridge, tudo isso te faz prender a respiração e contrair todos os músculos do corpo. Apesar disso, aí vai a humilde opinião desta colunista: nenhuma obra audiovisual consegue se sustentar apenas com um espetáculo de efeitos sem uma boa história para contar. E no final, fica apenas a certeza de que “San Andreas” tem é muita falha pra pouco filme.

 

Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

2 COMENTÁRIOS

  1. Gente, é ruim, mas é o padrão! O ruim vem pelos clichês exagerados dos personagens não morrerem, não se ferirem, serem a família sobrevivente no meio do caos… A qualidades dos efeitos visuais realmente é excelente!

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