Rótulos são aquela coisa: ninguém gosta muito, mas também é difícil viver sem. Não gostamos porque é aquilo meio reducionista, meio da parte pelo todo, em que pegamos algumas características fundamentais, principais, ou simplesmente as mais reconhecíveis, e baseado em uma análise talvez um pouco superficial, atribuímos algo a uma categoria meio engessada de coisas que dividem estas características com ela. Mas também é difícil não fazê-lo, não é?

Quantas vezes já não sabemos o tipo de um filme pelo pôster, pelo trailer, pelas estrelas, pelo próprio título? Acontece que, às vezes, também, por questões comerciais, este rótulo acaba sendo bem conveniente: fica sendo um jeito de uma pessoa que gosta de um determinado gênero — digamos, terror — localizar facilmente um potencial alvo de interesse. Não preciso assistir, digamos, “Anabelle” (ignorem meus exemplos de cinema, não vou em um com frequência há um bom tempo), para saber que é um filme de terror. Aquele pôster já diz tudo. E isso é conveniente para quem o fez, porque vamos facilitar a identificação para o público-alvo. E também é conveniente para quem vai assistir, porque sabe que pode ser um filme que irá lhe agradar.

Mas não deixa de ser algo um pouco reducionista, não é? Que acaba inevitavelmente gerando a máxima “ora, _____ de ______ é tudo a mesma coisa”, por parte de alguém que antipatiza de cara já com o rótulo, com o gênero, com a tipologia, com a categoria. Enfim, fui dando exemplos até agora de filme, porque é um dos mais fáceis, mas muito disso acontece nas livrarias, nas nossas mentes, em grupos de discussão, no mundo afora.

Quando entramos na livraria, elas de vez em quando estão divididas, em suas prateleiras — além de “Literatura estrangeira”, “nacional”, “infantojuvenil” e outros, em pequenas subdivisões por tipo de história. Não raro vemos “Ficção científica”, “Fantasia”, “Policial”, “Crônicas”, e outros, separando nossas leituras potenciais em assuntos de interesse. E são pequenos rótulos que, por mais que sejam úteis em um nível superficial, como segmentação de determinados públicos, e sejam fundamentais para uma boa recepção em termos de mercado e propaganda, quando estamos tratando do próprio assunto da obra e sua localização em uma tipologia, pessoas mais investidas em uma determinada “fandom” podem deixar a discussão toda mais complicada.

Há um tempo atrás, e não aqui no Tag, escrevi um texto sobre a multiplicidade de pequenas categorias dentro e entre a ficção científica, a fantasia e o terror, com o grande termo guarda-chuva “ficção especulativa” que cobrira todos. A grande questão, se tratando principalmente da científica, são as controvérsias e discordâncias sobre o que realmente entra no gênero: apenas o que é cientificamente plausível; o que se passa no futuro; qualquer coisa que tenha tecnologia avançada; extrapolações como o “nóvulo”? As questões deixam mesmo vários escritores do gênero teóricos sem chegar a um consenso.

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Outro exemplo: gera confusão aqui no Brasil a abrangência do rótulo “literatura infantojuvenil” quando lidamos com os livros para os ainda-a-se-tornar-adultos. Enquanto em livrarias dos Estados Unidos temos uma separação por idade mais categorizada, atitude ainda incipiente aqui em território nacional, pelo mercado livreiro brasileiro vemos os livros para crianças de oito anos e jovens de dezesseis colocados um ao lado do outro nas prateleiras, o que por si mesmo já derrota aquele objetivo de segmentar o público de maneira eficiente.

Se, afinal, o rótulo não está fazendo o seu trabalho de segmentar e dirigir os olhares dos compradores de livros aos assuntos que mais lhe interessam, qual é a razão de tudo isso? É claro que aí é menos problema dos rótulos essencialmente e mais deste em específico. E já começamos a dividir o “infantojuvenil” em categorias mais exatas, assim como os moços da fandom ali no exemplo acima já dividiram a ficção especulativa em dezenas de categorias menores. Só que, se nesse caso é mais por uma amostragem de conteúdo, por uma questão de gosto e por tipo de história, na categoria juvenil é algo a se prestar mais atenção, porque também envolve o nível do desenvolvimento textual do jovem em questão.

Se seu uso é bom por todos os motivos já citados, também pode ser ruim pelo mesmo motivo: a construção de um pré-conceito a respeito de uma obra por sua categoria comercial. Imagine quantas oportunidades podem ser perdidas por alguém se recusar a ler um livro, ou simplesmente deixar de prestar atenção nele, por ser, digamos, fantasia, e a pessoa ter tido uma experiência ruim com fantasia em obras anteriores. Alguém que, digamos, deixou de ler “alta literatura” porque se deu mal com Eça de Queirós na escola, ou que não gostava de ficção científica até descobrir Philip K. Dick. Se é uma alternativa válida evitar um gênero por uma experiência passada desagradável, por outro lado existe tanta variedade incluída dentro do mesmo “rótulo” que podemos estar perdendo um mundo de oportunidades.

Então, afinal, qual a solução?

Como todo bom dilema, provavelmente não há nenhuma. Rótulos são aquela coisa: ninguém gosta muito, mas também é difícil viver sem. Tá bom, falemos a verdade: talvez haja pessoas que gostem um pouco, que gostem muito, mas isso, no final, não muda o fato de que é aquela velha questão de algo com seus prós e seus contras. Porque, por um lado é muito conveniente afinal que existam as categorias para encontrarmos os livros de nosso interesse. Mas daí também vem o velho preconceito literário, em que não se lê porque acha determinada categoria algo inferior, ou menos capaz de corresponder a um trabalho bem-feito. Mas fazer o quê? Sempre existirão os preconceitos, assim como sempre existirá o rótulo, assim como sempre existirão as boas e más ficções, que muitas vezes independem da estante da livraria na qual se encontram. Mas, para as boas experiências de vida, vamos dar uma chance também ao que até então torcemos o nariz. Vai que é legal? Vai que estamos perdendo?

Você pode pegar de tudo um pouco, fechar os olhos e mergulhar na literatura sem prestar atenção nessa coisa toda.

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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